O que valeu a pena ver em 2014 – 3/3


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Ida antes de ouvir John Coltrane

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 Ida ouvindo John Coltrane

 

Polónia, anos 60, catolicismo (a protagonista é freira), culpa (a tia da protagonista, ex-juíza, condenou inimigos do estado à morte nas purgas vermelhas de 50) e John Coltrane. Se não fosse o último item tudo em “Ida” seria demasiado óbvio à partida, mesmo que à chegada acabássemos por sentir a espada fria do desalento – haverá verões na Polónia? – que corta todo o filme. Planos longos e muito quedos (e tensos), enquadramentos esvaziados de quinquilharia cenográfica e ritmo pouco atribulado, não são meras marcas de estilo – do estilo que se espera das cinematografias outrora “do leste”, hoje da “europa central” – mas uma necessidade dramática. Não havia outra maneira de mostrar nem de transmitir isto. “Isto”, posto em filme contemporâneo, é um formidável ajuste de contas da Polónia com o seu presente, fingindo que se mostra o passado. O tema “Naima” de John Coltrane (“Giant steps”- 1959), posto aqui e posto assim, é o rasgão de luz efémera que por momentos cintila em “Ida”, capaz de alinhar todas as peças no seu lugar e virar o tabuleiro ao contrário – um golpe de génio, tão comedido como a narrativa do filme. Noutras cinematografias prefere-se a auto-punição ou o género sempre-em-festa, ambas formas de não olhar, nem sequer para o umbigo. Chama-se Pawel Pawlikoswski o autor desta pérola.

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Estreou-se neste ano de 2014 mais um troço da extensíssima perquirição de Frederick Wiseman (84 anos de idade) às instituições públicas contemporâneas, que já tem 43 peças. Por junto Wiseman oferece-nos a mais formidável memória futura da nossa civilização – se um dia ela desaparecesse, bastariam os seus filmes para entendê-la. Desta vez escalpela a National Gallery de Londres de maneira mais breve que o habitual, só durante 180 minutos. Se o tivesse visto seria decerto um dos filmes do ano.

O que valeu a pena ver em 2014 – 2/3


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O Washington, o Jefferson e o Franklin da revolução televisiva

 

É possível que o actual apogeu da ficção televisiva constitua o preâmbulo da inexorável falência da indústria audiovisual tal como ela hoje opera, ou seja, segundo o modelo de negócio vigente. Para onde se vai ninguém sabe, onde se está só alguns entendem, aqueles que tomam decisões, quase todas em função de dilemas instantes. Olhando na direcção certa não é difícil verificar que constelação de influências deu azo a que hoje, na(lguma) televisão, se possam ver as mais inquietantes, refinadas e sagazes narrativas, com génio e têmpera de meter o cinema no sapato. Averiguando as audiências televisivas dos EUA (porque as respostas hão-de ser avistadas no terreiro dos mercados, lugar onde estas coisas se tramam, e não nas nuvens institucionais, no seu melhor limitadas a diagnosticar resultados), constata-se que os canais de cabo pago (HBO, Showtime, etc.) lograram uma massa crítica de assinantes que lhes propiciou orçamentos de produção ao nível das estações generalistas. Estribados nesta fartura, irreproduzível noutros territórios, nomeadamente europeus, demandaram à conquista dos segmentos de audiência mais sofisticados, por hábito resilientes à televisão e à sua corrente oferta ficcional. Significa isto que uma sequência de séries impossíveis em canal aberto, como “Sopranos”, “Dexter” Californication”, “The wire” “Generation Kill”, “Six feet under”, “Big love”, “True blood”, “Deadwood”, “Weeds”, “Boardwalk empire” e “Breaking bad”, teve o poder e a virtude de recolher ao redil da televisão espectadores desavindos, que nelas surpreenderam um desafogo de inteligência, irreverência e originalidade, assim alargando a base de clientes de tão selectos canais. Estamos elucidados quanto à “criação de novos públicos”, um mantra muito recitado e pouco acertado – it’s economics, stupid…

Ainda não houve neste século, nem na literatura nem no cinema, personagem com a dimensão comparável à de Walter White (o definitivo Bryan Cranston) de “Breaking Bad” (“Ruptura total”) quer lhe peguemos pela tragédia quer pela farsa. Com a temeridade própria dos desesperados, Walter White arrasta o seu cancro terminal ao longo de 62 horas, perverte toda a ordem estabelecida, seja a familiar, seja a legal, seja a criminal (porque no crime há uma ordem muito estrita) no passo em que eleva o sarcasmo, o farisaísmo e um sentido utilitário dos escrúpulos a patamares inéditos, sobretudo porque nunca resvala para fora das baias do quotidiano e não incorre na fastidiosa panóplia de tons épico, melodramático ou lírico, que habitualmente se usa para enlear o sentimento do espectador.

Tendo Walter White recebido ceptro & coroa de Tony Soprano, quem lhe terá sucedido no trono após a sua esplêndida morte? Ouso denominar Will McAvoy, o anchorman, ou pivô, em português de gema, de “The newsroom” – há condições para afirmar que Jeff Daniels era um actor persistentemente desinteressante até dar a pele por esta personagem.

“The newsroom” é apresentado como “uma criação” de Aaron Sorkin. Estamos assim em face de um ordenamento industrial em que argumentistas (uma bateria deles), realizadores (todos com crédito seguro, nenhum com cartel de auteur), produtores executivos e demais artistas ou colaboradores, subsumem a sua participação criativa à batuta abrangente de Sorkin. Sendo a ficção de cinema americana essencialmente politizada – fenómeno que tanto irrita as facções mais reacionárias dos Republicanos quanto é desapercebida pelos olhares europeus – Sorkin é aquele que melhor converteu a política pura e dura em ficção, com paralelo histórico talvez em I.A.L. Diamond e poucos mais. Do seu palmarés como argumentista avultam “A few good man” (“Uma questão de honra”) obsequiando Jack Nicholson com o melhor momento da sua carreira ao recitar um dos discursos mais ambíguos, desassombrados e desconfortáveis da história do cinema (perfeito anti-Capra); “Charlie Wilson’s war” (“Jogos de poder”), “Moneyball” (“Jogada de risco”), que devia ser de visão obrigatória para qualquer decision maker (pardon my french…) e a série de TV que lhe trouxe popularidade “West wing”. O que singularizar e sublima “The newsroom” será o abandono de qualquer pretensão naturalista, ideia prodigiosa sendo o jornalismo a matéria da série. Sorkin dispensa ostensivamente a credibilidade para ambicionar alguma verdade, pois essa coisa da “credibilidade”, tão diligenciada nas indústrias emparelhadas da informação e da ficção, é erário de burlões, sem o qual seriam incapazes de cultivar a sua arte. Cada episódio constitui-se, assim, num pequeno debate sobre ética, desde os processos de trabalho às relações afectivas. E este plano invejável e impossível de comportamentos revela-se por diálogos e frases de supina perspicácia e gramática; ninguém fala assim, com réplicas súbitas e argutas, com tamanha agilidade verbal e tanta intuição imediata das questões; ninguém discute desta maneira, tão mental e emotiva, sem, no entanto, descair na mesquinhez, na sua típica forma de insulto pessoal; ninguém em “The newsroom” pergunta que horas são ou se o café está quente, todas as palavras são usadas para exprimir estados de alma estratosféricos. “The newsroom” não imita a realidade, mostra-nos o que na realidade deveria passar no íntimo das cabeças jornalísticas em plena posse das suas faculdades. Que o faça de maneira amável com o espectador, sem lhe dar lições de moral nem fazer com ele chantagens emocionais, e de forma delicada com as personagens, permitindo-lhes a dúvida e a incerteza, que é a maneira de não as ajuizar, faz de “The newsroom” um prodígio de escrita e de narrativa, só ao alcance de talentos e recursos incomparáveis.

O que valeu a pena ver em 2014 – 1/3


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Scorsese na cama com os actores

 

Como estreou em 4 de Janeiro deste ano, começo logo por deturpar as regras protocolares do “filme do ano” elegendo “O lobo de Wall Street”, um original de 2013, entre os meus predilectos. Um Scorsese premium sem dúvida.

Tal como os grandes jogadores que sabem envelhecer em campo, Scorsese já não corre como outrora mas continua a imprimir velocidade no jogo. Os movimentos de câmara são agora menos ofegantes, a montagem é menos brusca, apostando não tanto no contraste (aquele espécie de “montagem de atrações” em que cada plano seria a antítese do anterior) como num constante incremento: o que vem a seguir precipita a potência do que ficou para trás; e toda a continuidade do filme já não tem a forma da típica montanha russa de Scorsese, mas faz-se numa espécie de “queda para cima”, em que o clímax coincide com o momento em que tudo e todos se estatelam. A duração das cenas permite entender “O lobo de Wall Street” como um filme de actores – em memória do confuso cinema dos sixties – com as alterosas dificuldades inerentes ao conflito entre uma ampla latitude de planos para especificarem as personagens mas sem qualquer margem para apontamentos digressivos e especulações histriónicas.

Que semelhantes e fatigantes propriedades estejam a cargo de um director de 72 anos e de uma montadora, a infalível Thelmas Schoomaker, de 73 anos, é obra de se lhes tirar o chapéu.

Só na vida real ou num filme de Scorsese poderia ser verosímil a história de um grupo de compinchas de infância, nados e criados num arrabalde proletarizado (Long Island, que no seu melhor será a Costa da Caparica de Nova Iorque…), de gosto e educação duvidosos, impostores e oportunistas, que exploram a cupidez da bolsa de capitais e de caminho comprovam que, nos métodos, haverá pouca diferença entre as gravatas de seda italiana dos correctores de Wall Street e os fatos de treino com grossa corrente de ouro que eles ostentam.

Desde que o calvinista Godard decretou que “os travellings são uma questão moral” ficou óbvio que a amoralidade (bem diferente da imoralidade) é uma perspectiva virtualmente inatingível em cinema. Está nisto o supino talento de Scorsese: gerar uma permanente sensação de alarme em cada enquadramento e em todas sequências, que nos arrasta para um estado de empatia com os escroques e nos suspende o juízo a pontos de darmos connosco do lado errado da ordem pública (sequer poderemos argumentar que seríamos inocent bystanders), emocionalmente envolvidos naquelas trapalhadas. Claro que isto é devastador, para nós, que estávamos tão agarradinhos aos nossos princípios, e para os sujeitos que Scorsese manipula, demonstrados desde o início como objetos à deriva na corrente do capitalismo financeiro, peças soltas da engrenagem, que a entopem e avariam mas não desmantelam – somos todos atirados para fora de pé sem bóia nem natação.

Gosto muito de filmes que se inclinam demasiado, em vias de desabarem a qualquer momento, sempre a pisarem o risco do grotesco e do burlesco – há lá coisa mais complicada em cinema? E esta arte de Scorsese, perfeitamente comandada em “O lobo de Wall Street”, só a vejo aproximada hoje em dia por David O. Russell, realizador dos magníficos e pouco estimados “Guia para um final feliz” (arriscada paráfrase do intraduzível “Silver lining playbook”) e “Golpada Americana”.

Por mim, estou em crer que apenas um jesuíta, e dos muito estufados, seria capaz de atravessar “O lobo de Wall Street” de sobrancelha franzida.

Facto internacional de 2013


Pedro Correia,

GUERRA CIVIL NA SÍRIA

A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, atingiu em 2013 um marco estatístico nada invejável ao ultrapassar a barreira das cem mil vítimas mortais. No fim do ano, segundo dados fidedignos, estavam contabilizados cerca de 130 mil mortos neste conflito, incluindo quase 12 mil mulheres e crianças. Os confrontos que opõem os insurgentes sírios à ditadura do Presidente Bachar al-Assad, no poder desde 2000, causaram já também sete milhões de desalojados, de acordo com dados das Nações Unidas.

 

Este foi o facto internacional mais relevante do ano, eleito por larga margem aqui no DELITO DE OPINIÃO. A recente morte de Nelson Mandela foi o segundo mais votado, tendo a surpreendente resignação do Papa Bento XVI ficado na terceira posição. A eleição do Papa Francisco e o acordo Irão-Estados Unidos sobre energia nuclear também justificaram votos.

Em 2010 elegemos como facto do ano, a nível internacional, as revelações da Wikileaks e em 2011 a nossa escolha recaiu nas revoltas ocorridas no mundo árabe.

Foto AFP

Facto nacional de 2013


Pedro Correia,

CRISE POLÍTICA DE JULHO

O Governo não chegou a cair, mas abanou muito. E não voltou a ser o mesmo. Aconteceu em Julho: a crise alastrou da esfera económica para a área governativa e abalou as bolsas europeias. Com dois protagonistas: Vítor Gaspar e Paulo Portas. O primeiro partiu, o segundo ameaçou fazer o mesmo mas acabou por ficar. Numa posição aparentemente reforçada.

Foi a semana mais turbulenta do ano político, que o DELITO DE OPINIÃO elegeu em votação interna – por estreita margem – o facto de 2013 em Portugal.

Inesperadamente, Passos Coelho perdeu aquele que considerava o seu número dois: o ministro de Estado e das Finanças. Vítor Gaspar bateu com a porta, tornando pública a carta de demissão.

“O nível de desemprego e desemprego jovem são muito graves [sic]. Requerem uma resposta efectiva e urgente a nível europeu e nacional. (…) Esta evolução exige credibilidade e confiança. Contributos que, infelizmente, não me encontro em condições de assegurar. O sucesso do programa de ajustamento exige que cada um assuma as suas responsabilidades. Não tenho, pois, alternativa senão assumir plenamente as responsabilidades que me cabem”, escreveu o ministro demissionário nesta carta, datada de 1 de Julho.

O primeiro-ministro não tardou a designar Maria Luís Albuquerque para o lugar de Vítor Gaspar. Mas, subitamente, Paulo Portas demitiu-se. Com carácter “irrevogável”, como acentuou a 2 de Julho. Seguiram-se dias de forte tensão na coligação governativa e o espectro das eleições antecipadas chegou a pairar em São Bento. Até que Portas recuou. E Passos elevou-o a vice-primeiro-ministro, no âmbito de uma remodelação governamental.

 

Num segundo lugar muito próximo, entre os factos nacionais de 2013, situou-se a enorme corrente migratória: cerca de 120 mil portugueses emigraram no ano que terminou. As vitórias eleitorais de independentes nas autárquicas de Setembro e a manifestação de polícias nas escadarias de São Bento, em Novembro, também foram votadas, havendo ainda um voto na frustrada tentativa de cantar a Grândola feita pelo ex-ministro Miguel Relvas.

Em 2010 elegemos como facto nacional do ano a crise financeira e em 2011 a chegada da troika a Portugal.

Foto Daniel Rocha/Público

Figura internacional de 2013


Pedro Correia,

PAPA FRANCISCO

O maior consenso, na votação das figuras e factos de 2013 realizada no DELITO DE OPINIÃO, ocorreu em torno da personalidade internacional do ano. Com a grande maioria dos votos a recair no Papa Francisco, eleito em 2013 no mais inesperado conclave católico dos últimos séculos, convocado de emergência devido à renúncia do Papa Bento XVI.

Ao surgir na varanda principal da Basílica de São Pedro, ao fim da tarde de 13 de Março de 2013, Jorge Mario Bergoglio suscitou espontâneos aplausos. Desde logo ao saudar com esta frase a multidão que o aclamava: “Parece que os cardeais foram buscar-me ao fim do mundo”. Uma referência ao facto de vir da Argentina, onde era cardeal de Buenos Aires.

Primeiro Papa oriundo do continente americano, primeiro em dois séculos oriundo do clero não secular, primeiro a escolher o nome Francisco em homenagem expressa a São Francisco de Assis, este jesuíta de 76 anos surpreendeu o mundo com o seu verbo fácil, o seu sorriso franco e os seus gestos inovadores que ultrapassam o plano simbólico. Recusou viver no palácio apostólico do Vaticano, iniciou uma profunda reforma da Cúria, lavou os pés a duas raparigas (uma das quais muçulmana) na semana da Páscoa, foi ao encontro de imigrantes africanos em Lampedusa e recusou limusinas na sua viagem triunfal ao Rio de Janeiro, para encerrar a Jornada Mundial da Juventude.

Em Outubro, divulgou a exortação apostólica Evangelii Gaudium, com críticas aos excessos do actual sistema financeiro dominante à escala planetária: “Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa.”

 

Em segundo lugar, na nossa votação, ficou Edward Snowden, o ex-consultor da CIA que tornou públicas as actividades de espionagem ilegal feitas no âmbito da Agência Nacional de Segurança norte-americana – uma denúncia que o levou a exilar-se na Rússia.

Em terceiro ficou Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa que escapou por um triz a um atentado talibã e agora percorre o mundo defendendo o direito à instrução das mulheres nas sociedades ditatoriais islâmicas, tendo recebido o Prémio Sakharov de Direitos Humanos que lhe foi conferido em Novembro pelo Parlamento Europeu.

Houve ainda um voto em Angela Merkel: a chanceler alemã, que saiu vencedora das legislativas de Setembro, já tinha sido eleita pelo DELITO figura internacional em 2010 (ex-aequeo com Julian Assange) e 2011.

Foto Associated Press

Figura nacional de 2013


Pedro Correia,

RUI MOREIRA

Pela primeira vez uma lista independente (embora com o apoio de um partido, o CDS) venceu uma eleição para uma grande cidade portuguesa, conquistando seis dos 13 mandatos em disputa. Aconteceu no Porto, nas eleições autárquicas de 29 de Setembro, quando Rui Moreira, obtendo 39% dos votos, derrotou o socialista Manuel Pizarro e o social-democrata Luís Filipe Menezes, num dos mais disputados confrontos eleitorais de que ali há memória.

Empresário e dirigente associativo, de 57 anos, Rui Moreira distinguiu-se sobretudo como presidente da Associação Comercial do Porto, sucedendo no município da Invicta ao social-democrata Rui Rio, que cumpriu três mandatos consecutivos. Rio foi, aliás, um dos protagonistas da campanha ao anunciar publicamente que não votaria em Menezes, o candidato oficial do PSD. Uma declaração que facillitou a vitória de Rui Moreira, conhecido adepto do FC Porto e ex-comentador de futebol na RTP.

Fala-se já dele para novos voos políticos, mas por enquanto o novo autarca portuense – que tomou posse a 22 de Outubro e obteve entretanto o apoio do PS para obter maioria nos processos de decisão – promete concentrar todas as energias no trabalho camarário do Porto, a que chamou “cidade livre”. Um dos seus primeiros actos como autarca foi normalizar as relações entre o município e o FCP, interrompidas no início do mandato de Rio.

 

Rui Moreira foi considerado a figura nacional de 2013 em votação interna do DELITO DE OPINIÃO, sucedendo a José Mourinho (figura nacional de 2010) e Vítor Gaspar (figura nacional de 2011).

Logo a seguir nesta votação ficou o povo português, no seu conjunto, pelos sacrifícios que enfrenta e a forma como os tem suportado. Em terceiro lugar, o presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim Sousa Ribeiro. Seguiu-se Vítor Gaspar, que se demitiu de ministro das Finanças no início de Julho.

Houve ainda votos isolados em Rodrigo Leão, Cristiano Ronaldo, Paulo Valente Gomes e Bruno de Carvalho.

Foto Paulo Pimenta/Público

O balanço do ano


Patrícia Reis,

Este ano, o atelier 004, a empresa com a qual durmo (sim, que é uma espécie de casamento) há cerca de 17 anos viveu os seus momentos maus e momentos bons. Os bons estão centrados, em especial, nas pessoas. Os maus também.

Em retrospectiva, depois de ter acreditado que estava a viver o final de um mundo que me deu tanto trabalho a construir, o atelier sobreviveu.

Melhor: ergueu-se com uma dignidade maior graças à equipa e aos apoios de amigos e família.

Não houve espaços para grandes psicoterapias de grupo, lamúrias ou considerações sobre traições, roubos, mentiras e até acusações de bruxaria. Nada disso.Foi só andar para a frente (até por saber que eu cumpro com os meus compromissos e não tenho avenças chorudas com nenhuma empresa, nunca tive, ao contrário do que se possa dizer ou pensar).

Como eu fui criada por um senhor que acreditava piamente que é urgente ensinar a bondade, ouvir o outro e sonhar com uma ilha no Pacífico, mesmo que se termine em Cacilhas, virámos o mundo ao contrário, trabalhos que nem cães, recuperámos clientes, tivemos boas ideias e até conseguimos fazer mais uma edição – a 51ª – da Egoísta.

Uma coisa é certa: se a crise existe, nada está fácil, há pessoas muito estúpidas, o avesso também anda por cá e com força tripla. Portanto, para quem esteve connosco, bem hajam. Para quem nos mandou bugiar e nos deixou numa alhada, da qual saímos rapidamente, espero que estejam a ler isto e a pensar que, afinal, sempre recebemos o que damos.

Posto isto, meus caros amigos, hoje é um dia especial, o meu tio avô faria anos e sem ele, eu seria outra pessoa.

Escapei às agruras do frio de Lisboa e cheguei à chuva do Rio de Janeiro. Volto para o Natal. Tenciono consumir o maior número possível de vitaminas de abacate:) Dizem-me que choveu desalmadamente nos últimos dias. Não me importa. Viemos em viagens que não pagámos e estamos no melhor apartamento do mundo, por termos uma amiga SENSACIONAL (obrigada, Paula!). Depois de um ano a ver como é que tudo se resolveria, é um alívio chegar aqui. Que venha 2014, estamos preparados, somos gladiadores, podemos até fazer o pino. Fazemos é o pino com imensa pinta. Se não se importam, este post é para a minha equipa. Eles, mais do que ninguém, merecem.

‘Blogger’ do ano


Pedro Correia,

 

ANA CRISTINA LEONARDO

 

O blogue dela foi considerado o melhor de 2011 pelos autores do DELITO DE OPINIÃO. E, em sintonia com esta votação, também a Ana Cristina Leonardo mereceu o título de blogger do ano pelo que vai escrevendo na imprescíndível Meditação na Pastelaria. Tudo isto aconteceu após uma renhida votação (quatro votos contra três), acabando o segundo lugar por recair em Pedro Mexia, autor da Lei Seca.

As restantes opiniões cá de casa dispersaram-se em várias direcções. Com dois votos: Maria do Rosário Pedreira (blogue Horas Extraordinárias); João José Cardoso (blogue Aventar); Rui Bebiano (blogue A Terceira Noite). Com um voto: Patrícia Fonseca (blogue Blogkiosk); Francisco Mendes da Silva (blogue Contra Mundum); João Gonçalves (blogue Portugal dos Pequeninos); JCS (blogue Imprensa Falsa); Rui Tavares (blogue Rui Tavares); Samuel de Paiva Pires (blogue Estado Sentido).

Em 2010, a nossa eleita tinha sido Helena Matos.

Blogue do ano


Pedro Correia,

 

MEDITAÇÃO NA PASTELARIA

 

Para manter a tradição, aqui no DELITO elegemos aquele que para nós foi o melhor blogue do ano que acabou. E a escolha recaiu num blogue individual: Meditação na Pastelaria, de Ana Cristina Leonardo, recolheu quatro votos.

O segundo lugar, com três votos, coube a outro blogue individual: Lei Seca, de Pedro Mexia.

Com dois votos, destacaram-se dois blogues colectivos, de pendores ideológicos muito diferentes: Aventar e Cachimbo de Magritte.

Foram igualmente mencionados, com um voto cada, mais estes: A Terceira Noite, Blasfémias, Blogkiosk, Câmara Corporativa, O Insurgente, Tempo Contado, 31 da Armada e o entretanto extinto É Tudo Gente Morta.

Este último, recorde-se, havia sido o nosso eleito em 2010.

Frase do ano


Pedro Correia,

“Estou-me marimbando para os nossos credores.”

Pedro Nuno Santos (PS)

 

O antigo líder da Juventude Socialista, actual vice-presidente da bancada rosa em São Bento, ganhou projecção nacional quase no final de 2011 com esta frase que chegou a ter repercussão além-fronteiras. Foi esta a escolha maioritária dos autores do DELITO DE OPINIÃO para frase do ano, com seis seis votos. Mantém-se assim a tradição: já em 2010 a frase do ano fora de um socialista, Almeida Santos, por ter declarado: “O povo tem de sofrer as crises como o Governo as sofre.”

 

Também mereceram destaque cinco outras frases:

“Portugal não precisa de ajuda externa.”

José Sócrates

“As medidas são minhas, mas o défice não é meu.”

Pedro Passos Coelho

“Ó senhor primeiro-ministro, você sabe lá o que é a vida.”

Jerónimo de Sousa

“Os nossos políticos, se fossem treinadores, estavam pouco tempo a governar o País.”

Jorge Jesus

“Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao género feminino.”

Dilma Rousseff

 

Cada uma recolheu dois votos. E houve ainda votos solitários em frases de Otelo Saraiva de Carvalho, Cavaco Silva, Assunção Esteves, Lili Caneças e Fernando Nobre. Para o ano (este ano) há mais.

Facto internacional do ano


Pedro Correia,

 

AS REVOLTAS NO MUNDO ÁRABE

Tudo começou na Tunísia, logo no início do ano. A 14 de Janeiro, caía Ben Ali, que governava ditatorialmente a Tunísia desde 1987. A 11 de Fevereiro, outro general-ditador era derrubado igualmente por um fortíssimo movimento popular: Hosni Mubarak cessava enfim as funções de presidente do Egipto, após 30 anos de poder tirânico. Quatro dias depois, começava na Líbia outra revolta que seis meses mais tarde conduziria ao fim do regime do coronel Muammar Kadhafi, iniciado em 1969. Outros países árabes, como o Iémene e a Síria, foram também varridos por gigantescas manifestações de rua contra poderes opressores. E as monarquias marroquina e jordana viram-se forçadas a fazer reformas políticas.

A democracia chega enfim ao Magrebe e ao Médio Oriente? É cedo para avaliar, embora na Tunísia tenha já ocorrido a primeira eleição democrática desde a independência do país, em 1956 — uma eleição que ocorreu de forma transparente, pacífica e muito participada. Este movimento, que muitos analistas baptizaram de ‘Primavera árabe’, foi o acontecimento político internacional de 2011 segundo a maioria dos membros do DELITO DE OPINIÃO, com 15 votos. Em segundo lugar (quatro votos) ficou a crise do euro, sob o espectro do colapso financeiro da Europa que alguns prevêem e outros nem por isso. O tsunami no Japão, que causou pelo menos 15 mil vítimas mortais, foi igualmente mencionado (dois votos), tal como a designação do fado como património imaterial da humanidade (um).

Em 2010, o facto internacional do ano para nós tinham sido as revelações da WikiLeaks.

Facto do ano nacional


Pedro Correia,

 

INTERVENÇÃO DA ‘TROIKA’ EM PORTUGAL

“Crise? Que crise?”, perguntavam os Supertramp no título de um álbum muito escutado na década de 70. No Portugal dos nossos dias, ninguém precisa de perguntar se há crise: ela está hoje bem evidente, aos olhos de todos, mesmo daqueles que procuraram negá-la até ao último minuto. A palavra crise terá mesmo sido a mais pronunciada entre nós ao longo de 2011, sobretudo a partir do momento em que o anterior Governo, liderado por José Sócrates, solicitou assistência de emergência a um trio de entidades supranacionais: a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. A célebre troika — outra palavra que andou na boca de todos durante o ano passado.

Sem surpresa, a intervenção da troika em Portugal foi eleita facto do ano nacional pelos autores do DELITO DE OPINIÃO, registando-se neste caso uma rara unanimidade (embora tivesse havido uma ‘menção honrosa’ ao aumento das dádivas ao banco alimentar). Bastante diferente do balanço feito em 2010, já sob o signo da crise mas muito mais variado.

Figura internacional de 2011


Pedro Correia,

 

ANGELA MERKEL

A tradição ainda é o que era: Angela Merkel repetiu em 2011 o protagonismo como figura do ano que já tivera no ano anterior, segundo o critério da equipa do DELITO DE OPINIÃO. Com uma diferença: desta vez a líder do Governo alemão venceu isoladamente (em 2010 fora designada ex-aequeo com o responsável máximo da WikiLeaks, Julian Assange).

A vitória da Senhora Europa — como lhe chamam cada vez mais os analistas políticos, dentro e fora do Velho Continente — foi categórica: 14 votos, mais dez do que os obtidos pelo fundador da Apple, Steve Jobs, falecido em 2011, aos 55 anos. Mereceram ainda destaque a Presidente brasileira Dilma Rousseff (três votos), primeira mulher a ocupar o Palácio do Planalto, e o jovem tunisino Mohamed Bouazizi (um voto), cuja morte — em 4 de Janeiro de 2011 — funcionou como detonador das revoltas árabes que varreram o Magrebe e o Médio Oriente no ano que terminou.

Figura nacional de 2011


Pedro Correia,

 

VÍTOR GASPAR

Ilustre desconhecido da generalidade dos portugueses até há seis meses, o ministro das Finanças tornou-se uma figura dominante da cena política nacional no último semestre de 2011, suplantando todos os outros protagonistas, na opinião da maioria dos membros do DELITO DE OPINIÃO, na já tradicional votação em jeito de balanço do ano que terminou. Pelas severas medidas de austeridade que determinou em resposta à situação de emergência que levou o anterior Executivo a solicitar auxílio internacional. E também pelo seu original estilo de comunicar com os portugueses. Inconfundível, embora não inimitável.

Vítor Gaspar, com dez votos, destacou-se largamente, passando a ocupar o posto que em 2010 os autores do DELITO reservaram a José Mourinho. Em segundo lugar, com três votos, ficou a nova presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, a primeira mulher a ocupar o segundo posto mais relevante do Estado português. Dois votos recaíram no primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, vencedor das legislativas de 5 de Junho, e outros dois no ensaísta Eduardo Lourenço, galardoado em 2011 com o prestigiado Prémio Pessoa. Os restantes cinco votos foram distribuídos pelas seguintes personalidades: Eduardo Souto Moura, Henrique Medina Carreira, Isabel Jonet, José Manuel Coelho e José Sócrates.

Um primeiro balanço


Rui Rocha,

Os resultados eleitorais abrem a porta a um Portugal melhor. José Sócrates tornou-se, por demérito próprio, uma presença nociva para o país. Ele é, evidentemente, o principal derrotado nestas eleições. Com ele, Francisco Louçã, um líder que parece ter um promissor passado à sua frente. E estas duas derrotas desanuviam o ambiente político, abrindo agora (no caso de Sócrates) ou mais tarde (no caso de Louçã), espaço para novas lideranças e para a indispensável renovação. Mas estas são umas eleições especiais. Em rigor, o grande vencedor, Passos Coelho, tal como o país, não têm nada para festejar. Para lá do ruído das claques partidárias, está lá fora um Portugal devastado. E um desastre não se festeja. O esforço no sentido de controlar os danos e de reconstruir sobre as ruínas não se compadece com foguetório e espectáculos de variedades. Neste cenário, o próximo governo não terá, desta vez, um minuto de estado de graça. Na verdade, o que o espera, e a nós com ele, é um estado de desgraça que vai exigir que todos sejamos capazes de nos transcendermos.