Um primeiro balanço


Rui Rocha,

Os resultados eleitorais abrem a porta a um Portugal melhor. José Sócrates tornou-se, por demérito próprio, uma presença nociva para o país. Ele é, evidentemente, o principal derrotado nestas eleições. Com ele, Francisco Louçã, um líder que parece ter um promissor passado à sua frente. E estas duas derrotas desanuviam o ambiente político, abrindo agora (no caso de Sócrates) ou mais tarde (no caso de Louçã), espaço para novas lideranças e para a indispensável renovação. Mas estas são umas eleições especiais. Em rigor, o grande vencedor, Passos Coelho, tal como o país, não têm nada para festejar. Para lá do ruído das claques partidárias, está lá fora um Portugal devastado. E um desastre não se festeja. O esforço no sentido de controlar os danos e de reconstruir sobre as ruínas não se compadece com foguetório e espectáculos de variedades. Neste cenário, o próximo governo não terá, desta vez, um minuto de estado de graça. Na verdade, o que o espera, e a nós com ele, é um estado de desgraça que vai exigir que todos sejamos capazes de nos transcendermos.

9 comentários em “Um primeiro balanço”

  1. Exactamente, Rui. Espero que a sobriedade se mantenha, porque não faz nenhum sentido festejar. Que as bases (os jovens que fizeram a campanha, sobretudo) se manifestem nas ruas, é normal e esperado. Mas, da parte dos líderes, espero que haja discrição e sensatez.

    1. Rui, O Passos Coelho leu-te! Disse no discurso que os portugueses iam ter de se transcender (“a si próprios”, é certo, mas não se pode ter tudo e um pleonasmozito nunca matou ninguém…).

      Fora de brincadeiras, o discurso foi sóbrio e contido. Acho que começou bem.

  2. Salvo melhor opinião, as derrotas de Sócrates e de Louçã não são comparáveis.

    O PS perdeu por causa do Sócrates. Não pela sua personalidade (sempre assim foi e obteve 2 vitórias anteriormente) mas por causa da péssima governação que fez. É certo que a personalidade de Sócrates ajudou, tendo o povo demorado a perceber como ele realmente é (só à 3ª – em legislativas). Todavia, não não se tratou da punição da sua personalidade, mas sim das consequências dessa personalidade, reflectida pelos seus actos (e omissões!).

    Quanto a Louçã, não se tratou de nada disso. Salvo melhor opinião, esteve ao seu melhor nível… dentro da estratégia que foi definida. O problema do BE foi o seu posicionamento estratégico na cena política. Tenho uma explicação para isso, mas não sei se corresponde à realidade.
    Acho que o Louçã tb tem uma explicação para isso, qd enfatizou a afirmação de que se aprende mais com as derrotas do que com as vitórias. Nesse momento gostaria de ter a capacidade de ler mentes para poder saber exactamente a que é que ele se estava a referir.Ou seja, o que é que aprendeu com esta derrota, isto é, onde é que o BE errou.
    Os 4 partidos tradicionais com assento parlamentar têm-se dividido entre direita (CDS e PSD) e esquerda (PS e PCP) – não concordo com esta nomenclatura, mas assim é mais fácil entender (há quem prefira”direita”, “centro-direita”, “centro-esquerda” e “esquerda”, com correspondência respectiva aos partidos citados). De entre esses 4 partidos, 3 são do chamado “arco da governação” e 1 é “do contra” (nunca governou nem tenciona governar – não tem eleitorado suficiente para governar, nem faz acordos com os seus parceiros mais próximos com vista a viabilizar uma coligação governativa) – refiro-me, obviamente, ao PCP.
    O BE surgiu mais recentemente e posicionou-se entre o PS e o PCP: é um partido assumidamente de esquerda, mais à esquerda do PS e menos radical que o PCP. Ou seja, veio intercalar-se entre um partido de governo (o PS) e um partido do “não governo” (do contra – o PCP). Até ao resultado eleitoral razoavelmente expressivo que alcançou em 2009 (quase 10%), não teve de fazer uma opção clara sobre a sua natureza: se era um partido suficientemente consensual para constituir uma opção governativa em coligação com um partido maior (como é apanágio da linha política seguida pelo seu “homólogo” de direita – o CDS), ou se era mais um partido “do contra” (como o PCP).
    Ora, no actual contexto político e eleitoral, o BE teve (finalmente) de deixar clara qual era a sua linha de actuação (ou teve de optar por uma das referidas linhas de actuação). Essa opção ficou definida aquando do pedido de ajuda externa. O BE rejeitou essa opção, não aceitou dialogar com a “troika” e declarou peremptóriamente que não cumpriria o acordo que o Estado Português (pela mão do PS) celebrou com a “troika”. Ao proceder desse modo, o BE fez uma clara opção como partido “do contra” (tal como o PCP) e não como um partido apto e disposto e governar (como o PS o PSD e o CDS).
    Tendo seguido coerentemente essa linha de orientação na sua campanha eleitoral, o BE deixou bem claro que a opção era contra a “troika” (tal como o PCP – com o qual conviveu muito pacificamente) ou pela “troika” pretendida pelo PS, PSD e CDS. Ou seja, assumiu-se claramente como um partido do “contra”, tal como o PCP.
    Os seus resultados eleitorais deram a resposta: para partido do “contra” já existe o PCP (que tem um eleitorado bastante rígido e fiel) e chega. O país não quer (não precisa!) de mais nenhum partido “do contra”. Se é esse o papel do BE, vai arrastar-se até aos fim dos seus dias com um eleitorado próprio diminuto e com umas “sobras” de alguns descontentes ocasionais (aliás poucos) à sua esquerda (do PCP) e à sua direita (do PS).
    Aliás, suponho que foi essa estratégia do BE que evitou um maior desaire nas urnas do PS. Pois, bem vistas as coisas, os socialistas não estavam apenas no PS, mas tb no BE. E, com a estratégia seguida, o BE afastou para a sua direita (para o PS) o eleitorado que tinha conseguido nas últimas eleições. De resto, só assim se compreende que o PSD e o CDS tenham aumentado a sua percentagem mais do que o PS perdeu. Ou seja, o eleitorado deslocou-se para a direita: do BE para o PS e deste para o PSD e CDS (e, em alguns casos…
    CONTINUA

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    … e, em alguns casos, com passagem directa de eleitorado do BE para o PSD e para o CDS).

    Por isso, a reflexão que o BE terá de fazer (e essa é a grande ilacção a tirar dos resultados eleitorais, pois a derrota do PS de Sócrates a favor do PSD era previsível, compreensível e justificada) é a de saber se tem razão de existir como partido do “contra”, ou se já basta o PCP para esse efeito.
    Parece-me que o resultado eleitoral do BE neste contexto eleitoral totalmente adverso para o seu maior adversário (o PS) é bem sintomático: o país não quer (nem precisa) de mais nenhum partido do contra. Para esse efeito já basta o PCP, que desempenha (aliás, bem!) esse papel.
    É certo que recentemente o BE teve uma má experiência em aliar-se ao PS: as eleições presidenciais. Todavia, tal não deveria determinar a opção para passar a ser um partido do contra. As eleições presidenciais são muito específicas (principalmente tratando-se de uma reeleição) e a figura escolhida não só tinha perdido o consenso alargado da eleição anterior como nem sequer reunia o consenso necessário dentro do próprio PS, que o apoiou com pouca convicção (e com pouca vontade).
    Separemos as águas: uma coisa são as eleições presidenciais, outra são as eleições legislativas.

    O BE perdeu uma oportunidade de ouro para se afirmar como uma opção governativa de esquerda diferente do PS. E esta era uma oportunidade de ouro, pq tão cedo não será fácil encontrar tantos socialistas descontentes (ou gente mais ou menos do centro que não se revê nos partidos “de direita”), que constituiriam um terreno eleitoral fértil.
    Mas foi uma eleição esclarecedora, pq ficamos a saber que o BE é incapaz de constituir uma opção governativa, nem que seja como “muleta” de um partido maior (principalmente o PS, que é o que lhe está mais próximo – sendo de excluir o PCP por tb ser do contra). E tb deverá ser esclarecedora para o próprio BE, que ficou a saber que o eleitorado não precisa nem quer mais nenhum partido do contra.

    É certo que no contexto “anti Sócrates” que se vive, o BE pode ter pensado ser preferível sobreviver como partido do contra. Mas deveria ter uma estratégia mais a longo prazo e pensar em funcionar como uma opção partidária susceptível de integrar um governo, por ser isso que o eleitorado quer e precisa.
    Como partido encostado a um extremo, O BE sempre teria (ou terá, se vier a modificar a sua postura e estratégia) as dificuldades de um partido insusceptível de governar sozinho. Mas pode aproveitar para apreender com o CDS, que, apesar de sofrer o mesmo problema, tem vindo progressivamente a afirmar-se.

    De resto, é notória a cada vez maior concentração dos votos nos partidos do “arco da governação” e a tendência (a meu ver positiva) de ser necessário gerar consensos (coligações) para se poder obter uma maioria parlamentar que gere um governo estável.
    Por outro lado, seria conveniente que à esquerda pudesse haver um equilíbrio de forças partidárias semelhante à direita, isto é, com 2 partidos susceptíveis de assumir funções governativas (ainda que em coligação). Isto pq penso que essa solução é preferível à das maiorias absolutas monopartidárias. Actualmente, como à esquerda apenas há um partido apto e disposto a governar (o PS), quando o país não quer ser governado pela direita apenas lhe resta a opção de dar maioria absoluta a esse partido, cujos resultados podem ser desastrosos (como aconteceu na anterior legislatura – embora não tenha tido o correspondente reflexo nos resultados eleitorais).

    Em termos simples: acho preferível que a estabilidade governativa seja alcançada através de coligações e não através de maiorias absolutas monopartidárias.
    Para esse efeito, o nosso sistema está “manco”, pois falta um partido de esquerda que se possa coligar com o PS para governar.
    Por isso, a alternância à esquerda, para ter estabilidade, tem de ser feita com uma maioria absoluta do PS, enquanto que à direita pode ser obtida com a coligação de 2 partidos (o PSD e o CDS).
    Era esse o interesse que o BE poderia ter. Não querendo ocupar esse espaço e não conseguindo concorrer com o PCP como partido do contra, estará condenado à extinção.

    1. Parece-me uma análise quase perfeita da situação, Alberto. Acrescento apenas que há uma franja de eleitorado de protesto que o PCP não cobre. A dos jovens urbanos. Mas, se for essa a opção do BE, tem que habituar-se a votações mais reduzidas.

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