Anti-americanismo primário (15)
Luís Naves,
O presidente eleito dos Estados Unidos anunciou numa entrevista que ia deportar dois a três milhões de imigrantes ilegais e logo se ouviram na imprensa nacional as inevitáveis comparações com o fascismo dos anos 30. Ninguém fez uma simples pesquisa sobre a realidade, pois poderia concluir facilmente que durante a administração Obama foram deportados 2,5 milhões de imigrantes ilegais. A notícia é que Trump pretende acelerar as deportações, aumentar o número anual em qualquer coisa como um terço, para poder atingir o valor prometido, mas não fará nada de original.
As comparações com os anos 30 são absurdas e, no fundo, uma forma de banalizar o horror do totalitarismo. Os números da Grande Depressão não têm semelhança com os da Grande Recessão de 2008. Passados oito anos desde o início do processo, o desemprego na América é agora de 4,9%; em 1938, era de quase 20%. Em todos os indicadores, as duas histórias são incomparáveis. No plano político, nem se fala: na nossa realidade não há milhões de veteranos sobreviventes das trincheiras da I Guerra Mundial nem rancores de vencidos, não há nacionalismo histérico nem recuo drástico do comércio mundial. A destruição e morte de vários regimes democráticos nos anos 30 não tem explicação fácil, mas nessa época as máquinas de propaganda fascista e comunista prometiam futuros brilhantes que, hoje em dia, poderão no máximo convencer franjas lunáticas.
É caso para nos interrogarmos para que serve esta narrativa, ensaiada a propósito da vitória de Trump, de que vem aí um novo fascismo e se prepara uma perigosa vaga populista na Europa? Populismo, aliás, que nunca é definido, pois a palavra serve apenas para rótulo. Segundo parece, os líderes sentem que o chão lhes está a fugir debaixo dos pés, que o poderoso descontentamento das classes médias implica mudanças na governação e que eles não estão em condições de proporcionar essa mudança. O liberalismo falhou na economia e a esquerda ficou refém da cultura politicamente correcta dominante nas academias, nunca tendo compreendido as reservas que o seu eleitorado de trabalhadores colocava às políticas de imigração ilimitada.
Vem aí uma vaga de votações em partidos conservadores e nacionalistas, também de populistas que vieram da extrema-direita, mas que não são iguais aos primeiros, como nos querem fazer crer. Façam o favor de dar alguma atenção aos discursos de Theresa May. O processo de erosão dos partidos tradicionais do centro já se verifica há vários anos, deverá agora acelerar, pois a fórmula de vitória de Trump está ao alcance de muitos grupos europeus.
Isto devia ser mais ou menos claro, mas ouvir o ministro português dos Negócios Estrangeiros dizer que os valores europeus não são compatíveis com deportações em massa só pode causar perplexidade. Onde estavam os protestos da diplomacia portuguesa em relação às deportações de Obama? E que dizer do acordo entre UE e Turquia, que prevê a devolução de refugiados à procedência? O ministro discordou?
A lenda é mais ou menos esta, de facto. Não vou comentar todas as coisas de que discordo no texto de Filipe Roque, mas lembro apenas que a mitologia dos conservadores húngaros se baseia na revolução de 1956 e, portanto, a amálgama feita pelo autor contém indícios de uma história mal contada. Sei que é inútil, mas também não posso deixar de insistir num ponto que abala a confortável narrativa de estarmos perante um poder autoritário na Hungria: o partido dominante, Fidesz, é conservador e democrata-cristão, europeísta, com um líder carismático (excelente orador político), que venceu as últimas oito eleições realizadas no País, algumas de forma arrasadora: todas as três europeias (2004, 2009 e 2014); as locais (2006, 2010 e 2014); e as parlamentares de 2010 e 2014, a primeira destas com maioria constitucional.
Como se pode perceber neste comunicado, a narrativa do texto de Filipe Roque sobre o perigo que o fecho de um jornal representa para a liberdade de imprensa passa ao lado de factos importantes (leiam a versão inglesa do comunicado, que está logo abaixo da versão húngara). O jornal Népszbadság perdeu 74% da circulação em dez anos e já só vendia à volta de 30 mil exemplares diários quando a sua produção foi suspensa; repare-se que os proprietários austríacos admitem o regresso do título. Na realidade, o jornal perdera grande parte dos seus melhores jornalistas e também o apoio do próprio Partido Socialista (MSZP, na oposição). No início da década de 2000, o Népszabadság vendera mais de 200 mil exemplares diários.
A decisão da empresa austríaca que adquiriu o grupo não tem, desta forma, qualquer relação com uma suposta intenção governamental de “silenciar os canais de comunicação independentes”. Tratou-se de uma decisão empresarial, pois o jornal acumulara um prejuízo de 5 mil milhões de forint (16 milhões de euros); o grupo manterá os seus 12 jornais regionais e mais de 1100 trabalhadores; esses jornais regionais são responsáveis por três quartos do negócio (receitas de 80 milhões de euros). Repare-se ainda como a compra é recente e como o novo grupo austro-húngaro terá a sede no edifício do defunto jornal, edifício certamente valioso. Convém não esquecer que, em 1956, o Népszbadság era o órgão oficial do partido único que sufocou a rebelião popular húngara. A imagem em cima mostra a destruição de exemplares da publicação durante a revolta. Em democracia, perdeu os seus leitores e os seus melhores jornalistas, mas por culpa própria. É sempre uma pena que um jornal morra (e neste caso, o encerramento final, sendo provável, nem é garantido), mas os jornais dependem dos leitores e não podem vender gato por lebre ou deixar que os factos sejam ignorados por causa de uma linda história.
O nosso mundo é dominado por dois fenómenos que correm em paralelo, a ruptura e a dessacralização. Vemos a tendência da ruptura em notícias diárias sobre rebeliões populistas nas democracias, em delirantes projectos para criar regimes teocráticos ou ainda nas cenas caóticas envolvendo migrações em massa: no fundo, as sociedades contemporâneas não têm soluções para as ‘selvas’, para o ocasional demagogo ou para os delírios homicidas dos fanáticos. Todos estes exemplos estão ligados a mundos em extinção, que não têm resposta para o que aí vem.
A dessacralização é menos óbvia, mas está presente na linguagem politicamente correcta que cada vez mais trava as discussões, está também presente na forma algo estranha como instituições conservadoras acompanham os tempos (tentando adiar o seu declínio) surpreendendo os próprios críticos com a ousadia das inovações. Os papas da literatura, para citar um exemplo recente, guardiães do templo, atribuíram em dois anos consecutivos o Prémio Nobel da Literatura a um trovador e a uma repórter, dois excelentes exemplos da cultura popular.
Pode ser menos evidente, mas esta cultura popular vive dias revolucionários, a dessacralização garante-lhe um lugar proeminente na linha do tempo, para além de existir uma nova e agressiva corrida à criação de impérios que vão dominar ainda mais o seu futuro. Por razões tecnológicas, não haverá sobrevivência para quem não tiver massa crítica. O que se aplica, aliás, ao jornalismo ou à literatura: acabou a era dos autores obscuros que vendiam meia dúzia de exemplares e iam ganhando lentamente a fama; hoje, sem garantir escala, ninguém é publicado. Assim será com a televisão, com o cinema. Os países ocuparão pequenos nichos de exotismo. Isto aplica-se a todas as elites que dominaram o passado, até nas descobertas científicas, que dependem do dinheiro para experiências complexas.
Vivemos numa época dominada pela ideia imprecisa de que ninguém controla os acontecimentos. As eleições americanas, onde a oligarquia parece ter perdido o pé, é um bom exemplo deste triunfo da imprevisibilidade. O caminho que parecia fácil para a vitória de Hillary Clinton transformou-se ontem num gigantesco ponto de interrogação. O anúncio de que o FBI investiga novos e-mails do servidor particular que a candidata manteve enquanto secretária de Estado fez cair a bolsa de Nova Iorque e desencadeou um clima de pânico entre as elites políticas. A nove dias das eleições presidenciais, a democracia americana mergulhou de novo na irrealidade. Já não bastavam os sinais de chapelada eleitoral, a retórica delirante, a argumentação absurda, as manipulações mediáticas; na recta final da corrida surge um escândalo que ameaça mudar a opção de muitos americanos que iam votar de forma relutante na candidata e agora talvez não lhe concedam o benefício da dúvida.
Ninguém em seu perfeito juízo pode dizer como é que isto acaba, uma coisa é certa: seja quem for o vencedor das eleições, sabemos que o próximo presidente dos EUA será uma criatura detestada por mais de metade do país, talvez o mais isolado presidente da história americana, com grandes hipóteses de nem sequer concluir o primeiro mandato. A insurreição eleitoral que Trump cavalgou é mais funda do que parece, tem a ver com um poderoso descontentamento em relação às elites, mas não ultrapassa um terço da população. Se vencesse por causa da abstenção, Trump teria a hostilidade dos outros dois terços da América. Em condições normais, os democratas deviam ganhar com facilidade, mas foi escolhida uma candidata com demasiados esqueletos no armário, que defraudou eleitores entusiasmados com a rebelião populista de Bernie Sanders. Se sobreviver aos próximos dias, Clinton terá a presidência, mas sem direito a estado de graça, pois é perseguida por escândalos e já perdeu de vez a benevolência dos compatriotas.
Camilo Castelo Branco começou muitos dos seus livros com uma grande frase, como por exemplo este “o progresso é uma voragem”, ideia que inicia uma obra menos conseguida, Vinte Horas de Liteira. Um dos textos maiores do autor, Romance de um Homem Rico, começa de forma simples, mas eficaz, pois já ali se resume a história: “Na Primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolónia, um bilhete de via férrea, para a ponte da Asseca”. Camilo lança alguns livros com uma gargalhada de desafio, basta citar O Retrato de Ricardina, que começa desta forma arrasadora e plena de ironia: “O abade de Espinho, um dos mais ricos da diocese de Viseu, pecara na mocidade. Coisa rara, senão singular, em abades”. Também gosto do começo de As Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, que em tão poucas linhas consegue transmitir o carácter essencial desta personagem cómica: “Basílio Fernandes é um sujeito de trinta e sete anos, com senso comum, engraçado a contar histórias da sua vida, activo negociante de vinhos do Porto, amigo do seu amigo, e bastante dinheiroso — o que é melhor que tudo já dito e por dizer”.
Amor de Perdição e O Bem e o Mal, duas das obras-primas de Camilo, começam com frases sintéticas, mas em comparação algo frouxas, demonstrando sem equívoco que um mau início nada nos diz sobre a qualidade geral da obra, sendo provavelmente errada aquela ideia feita de se avaliarem os romances pela força das primeiras palavras, um pouco à semelhança de se julgarem as pessoas pela primeira impressão, que pode ser um dos maiores erros das nossas vidas.
No caso do romance contemporâneo, a primeira impressão é geralmente enganadora, pois os autores ganharam consciência do valor dos inícios fulgurantes e, frequentemente, o tom alucinante do lançamento vai abrandando, as ideias enterram-se no pântano de um miolo mal resolvido, o autor não consegue fixar as personagens, que se diluem em contradições, e o livro arrasta-se num lamaçal de monotonia. As primeiras frases de impacto são fundamentais em crónicas, mas talvez não o sejam em romances.
Camilo escreveu muitas vezes no formato de folhetim, o que exigia grande velocidade na escrita e pouco tempo para pensar na estrutura, sabe-se lá com que sacrifícios: má iluminação, sofrimento físico, falta de dinheiro. Ele queria chegar depressa à acção, não tinha paciência para embelezar excessivamente com floreados as páginas iniciais, mas também era um daqueles raros génios literários, um em dez mil, escrevia como respirava, as coisas saíam-lhe da pena sem esforço aparente e obtinha aquele milagre que parece ser o mais difícil em literatura, o fluir da prosa como se fosse água a cantar num regato de província.
No seu tempo, ainda havia literatura nos jornais, daí o folhetim. Nos seus melhores livros, ele ia contra a moda: os escritores burgueses podiam ser didácticos e apreciavam longas introduções (que o mestre também praticou, sobretudo nas miscelâneas). Os romances davam indicações morais, faziam digressões labirínticas ao longo de um tema central, em textos pesados e remoídos, concentrados na questão da ‘boa escrita’, para impressionar os leitores e, sobretudo, as leitoras. Camilo, pelo menos assim parece, não precisava de se esforçar da mesma maneira: havia ali muito treino, muito trabalho, mas os textos têm aspecto límpido e natural, mesmo quando o tema é pobre e as personagens evoluem dentro de convenções limitadas, de equívocos amorosos, por exemplo, que hoje nos parecem antiquados.
O certo é que as modas vão evoluindo e a literatura das últimas décadas, reflectindo o seu tempo, tentou a complexidade. Sem dúvida que vivemos numa época inquieta e a literatura é o retrato disso mesmo: não há certezas, não há unidade, somos manipulados. O incipit contemporâneo ao gosto da época é trabalhado e remoído à sua maneira, de preferência sem espontaneidade; a espontaneidade, aliás, não é muito desejada pelos leitores, parece-se demasiado com a escrita de jornal, com a reportagem, género considerado menor, provavelmente morto (a sua objectividade é impossível num mundo de simulacros). Qual é a pior crítica que se pode fazer a um livro de ficção? Que tem estilo jornalístico, significando que é pouco trabalhado, pouco ‘literário’, de leitura excessivamente fácil.
Para fugirem a esta acusação devastadora, alguns autores apreciados procuram a falsa complexidade, que lhes permite esconder a falta de ideias e se confunde, aos olhos da crítica, com a verdadeira literatura. Pratica-se a frase poética (ou a imitação de poesia, outro género em crise), com sentido ambíguo e leitura imprecisa, mas com efeito garantido de beleza colorida: os romances são pequenos jardins cheios de flores risonhas e sentenças repletas de correcção política e bons sentimentos. Nada de polémicas! Vivemos numa época superficial, dominada pela cultura popular, que detesta a franqueza e cultiva a parte mais leviana da vida. Os autores não podem explorar zonas sensíveis, não devem ser excessivamente controversos ou discutir os problemas da sociedade em termos que sejam inaceitáveis para grupos que se melindrem. Os escritores contemporâneos estão a ficar confinados a espaços desinfectados e puros.
Os derradeiros românticos, como era o caso de Camilo, viviam nas altas esferas, mas tinham sentido do ritmo e contavam histórias repletas de peripécias. Hoje, o enredo é uma resistência e uma boa história parece ser um defeito. Privilegia-se a bela frase no interior de uma prosa obscura de interpretação difícil. A simplicidade é desprezada, como acontece com os diálogos, considerados uma antiguidade. O texto tem de parecer denso, o que é uma forma de ir afastando a literatura do mundo das ideias e, sobretudo, da criação de personagens. É nestas, aliás, que está o desafio porventura mais difícil de toda a escrita de ficção que queira escapar à banalidade suave que o público valoriza. As personagens da autêntica literatura clássica pareciam gente, não o sendo de todo; tinham alma, sem que se soubesse o que isso era; tinham multiplicidade sem mudar de aparência; resumiam a sociedade sem deixarem de ser quem eram, ou seja, permanecendo indivíduos imaginários que, curiosamente, também existiam.