Camilo Castelo Branco começou muitos dos seus livros com uma grande frase, como por exemplo este “o progresso é uma voragem”, ideia que inicia uma obra menos conseguida, Vinte Horas de Liteira. Um dos textos maiores do autor, Romance de um Homem Rico, começa de forma simples, mas eficaz, pois já ali se resume a história: “Na Primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolónia, um bilhete de via férrea, para a ponte da Asseca”. Camilo lança alguns livros com uma gargalhada de desafio, basta citar O Retrato de Ricardina, que começa desta forma arrasadora e plena de ironia: “O abade de Espinho, um dos mais ricos da diocese de Viseu, pecara na mocidade. Coisa rara, senão singular, em abades”. Também gosto do começo de As Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, que em tão poucas linhas consegue transmitir o carácter essencial desta personagem cómica: “Basílio Fernandes é um sujeito de trinta e sete anos, com senso comum, engraçado a contar histórias da sua vida, activo negociante de vinhos do Porto, amigo do seu amigo, e bastante dinheiroso — o que é melhor que tudo já dito e por dizer”.
Amor de Perdição e O Bem e o Mal, duas das obras-primas de Camilo, começam com frases sintéticas, mas em comparação algo frouxas, demonstrando sem equívoco que um mau início nada nos diz sobre a qualidade geral da obra, sendo provavelmente errada aquela ideia feita de se avaliarem os romances pela força das primeiras palavras, um pouco à semelhança de se julgarem as pessoas pela primeira impressão, que pode ser um dos maiores erros das nossas vidas.
No caso do romance contemporâneo, a primeira impressão é geralmente enganadora, pois os autores ganharam consciência do valor dos inícios fulgurantes e, frequentemente, o tom alucinante do lançamento vai abrandando, as ideias enterram-se no pântano de um miolo mal resolvido, o autor não consegue fixar as personagens, que se diluem em contradições, e o livro arrasta-se num lamaçal de monotonia. As primeiras frases de impacto são fundamentais em crónicas, mas talvez não o sejam em romances.
Camilo escreveu muitas vezes no formato de folhetim, o que exigia grande velocidade na escrita e pouco tempo para pensar na estrutura, sabe-se lá com que sacrifícios: má iluminação, sofrimento físico, falta de dinheiro. Ele queria chegar depressa à acção, não tinha paciência para embelezar excessivamente com floreados as páginas iniciais, mas também era um daqueles raros génios literários, um em dez mil, escrevia como respirava, as coisas saíam-lhe da pena sem esforço aparente e obtinha aquele milagre que parece ser o mais difícil em literatura, o fluir da prosa como se fosse água a cantar num regato de província.
No seu tempo, ainda havia literatura nos jornais, daí o folhetim. Nos seus melhores livros, ele ia contra a moda: os escritores burgueses podiam ser didácticos e apreciavam longas introduções (que o mestre também praticou, sobretudo nas miscelâneas). Os romances davam indicações morais, faziam digressões labirínticas ao longo de um tema central, em textos pesados e remoídos, concentrados na questão da ‘boa escrita’, para impressionar os leitores e, sobretudo, as leitoras. Camilo, pelo menos assim parece, não precisava de se esforçar da mesma maneira: havia ali muito treino, muito trabalho, mas os textos têm aspecto límpido e natural, mesmo quando o tema é pobre e as personagens evoluem dentro de convenções limitadas, de equívocos amorosos, por exemplo, que hoje nos parecem antiquados.
O certo é que as modas vão evoluindo e a literatura das últimas décadas, reflectindo o seu tempo, tentou a complexidade. Sem dúvida que vivemos numa época inquieta e a literatura é o retrato disso mesmo: não há certezas, não há unidade, somos manipulados. O incipit contemporâneo ao gosto da época é trabalhado e remoído à sua maneira, de preferência sem espontaneidade; a espontaneidade, aliás, não é muito desejada pelos leitores, parece-se demasiado com a escrita de jornal, com a reportagem, género considerado menor, provavelmente morto (a sua objectividade é impossível num mundo de simulacros). Qual é a pior crítica que se pode fazer a um livro de ficção? Que tem estilo jornalístico, significando que é pouco trabalhado, pouco ‘literário’, de leitura excessivamente fácil.
Para fugirem a esta acusação devastadora, alguns autores apreciados procuram a falsa complexidade, que lhes permite esconder a falta de ideias e se confunde, aos olhos da crítica, com a verdadeira literatura. Pratica-se a frase poética (ou a imitação de poesia, outro género em crise), com sentido ambíguo e leitura imprecisa, mas com efeito garantido de beleza colorida: os romances são pequenos jardins cheios de flores risonhas e sentenças repletas de correcção política e bons sentimentos. Nada de polémicas! Vivemos numa época superficial, dominada pela cultura popular, que detesta a franqueza e cultiva a parte mais leviana da vida. Os autores não podem explorar zonas sensíveis, não devem ser excessivamente controversos ou discutir os problemas da sociedade em termos que sejam inaceitáveis para grupos que se melindrem. Os escritores contemporâneos estão a ficar confinados a espaços desinfectados e puros.
Os derradeiros românticos, como era o caso de Camilo, viviam nas altas esferas, mas tinham sentido do ritmo e contavam histórias repletas de peripécias. Hoje, o enredo é uma resistência e uma boa história parece ser um defeito. Privilegia-se a bela frase no interior de uma prosa obscura de interpretação difícil. A simplicidade é desprezada, como acontece com os diálogos, considerados uma antiguidade. O texto tem de parecer denso, o que é uma forma de ir afastando a literatura do mundo das ideias e, sobretudo, da criação de personagens. É nestas, aliás, que está o desafio porventura mais difícil de toda a escrita de ficção que queira escapar à banalidade suave que o público valoriza. As personagens da autêntica literatura clássica pareciam gente, não o sendo de todo; tinham alma, sem que se soubesse o que isso era; tinham multiplicidade sem mudar de aparência; resumiam a sociedade sem deixarem de ser quem eram, ou seja, permanecendo indivíduos imaginários que, curiosamente, também existiam.


Excelente análise. Excelente diagnóstico da crise da literatura, algo de paradoxal tendo em conta o volume de livros anualmente publicado. Muitos parabéns.
JCC
Obrigada, Luís, gostei muito deste seu texto.