Já não sabem escrever português?


Pedro Correia,

«A configuração da nova prestação de deficiência materializar-se-á de forma a permitir uma integração de diferentes objectivos na arquitectura actual do sistema, tendo por referência a Lei de Bases, através de uma componente base, inspirada num princípio de cidadania, associada à compensação de encargos não específicos que derivam da condição de pessoa com deficiência ou incapacidade e de um complemento, que visa o reforço do princípio de solidariedade, enquanto elemento chave da cidadania.»

Excerto da proposta de lei do Orçamento do Estado para 2017 hoje destacado por António Bagão Félix no Público – já expurgado do acordês que o tornaria ainda mais ilegível.

40 comentários em “Já não sabem escrever português?”

  1. Claro que não sabem.
    E a coisa tende a piorar.
    As causas já vêm de longe e já aqui as abordei.
    Se analisarmos com algum cuidado os programas escolares de português, os manuais, o conceito e os instrumentos de avaliação, compreenderemos o fenómeno.
    Os professores também já foram (de)formados pelo mesmo processo.
    Não há saída.
    Não faltará muito para que os OE e as restantes leis tenham de ser redigidos em inglês.
    E, como a nossa pátria é a língua portuguesa, teremos perdido de vez o resto da nossa soberania.
    Ó apagada e vil tristeza!
    João de Brito

    1. A filosofia analítica decorre em razão do esqueleto técnico-táctico condizente com a substância paradigmática intrínseca à diferenciação caracteriológica da molécula governativa.
      Penso eu de que.

    1. Do ponto de vista epistemológico trata-se de um exemplo assaz ilustrativo de uma modalidade de escrita em colisão frontal com as consabidas formas de expressão adrede postas em crise pelo rigor da comprovação experimental que transcende as abordagens tradicionalistas contribuindo para a despistagem de potenciais estímulos dissuasores.
      Julgo ter sido claro.

  2. Será que a deficiência de comunicação assinalada constitui prova suficente para que o próprio redactor da proposta de lei venha a usufruir da dita nova prestação?

    1. Do meu ponto de vista, a intangibilidade desta inovação legislativa decorre das sinuosidade tecnico-tácticas adjacentes à linearidade do contexto e a a sua implementação depende em alto grau e larga medida da disponibilidade de todos os agentes envolvidos na condução do processo atendendo às contingências do momento presente mas principalmente às estruturas que enquadram este fenómeno capaz de mobilizar a massa adepta e também os milhões que se acumulam nos cofres da autoridade tributária em razão do qual eu não me calarei e sempre relatarei aqui tudo quanto sei e julgo saber ou talvez nem saiba nada por aí além mas mesmo assim contem com a minha voz que ressoará qual trombeta contra a investida castelhana nos plainos de Aljubarrota naquele ano em que a Ala dos Namorados conquistou a Taça Ibérica.

      1. Faltam-te aí vírgulas. O legislador português medíocre (não temos noutro tamanho) gosta mais de vírgulas do que da lebre e da perdiz na cantina da Assembleia da República. Não as sabem utilizar, mas gostam delas. E com elas polvilham ao acaso os seus amontoados de palavras, cuja correcção ortográfica (independentemente da discussão do AO) é assegurada não pela inteligência do escriba (pois não possui nem vestígios dela) mas pela boa vontade dos correctores ortográficos do processador de texto que usarem.

        Enfim, chegará o dia em que a cantina da AR substituirá as perdizes por fardos de palha. Sempre seria mais adequado.

        1. Eefectivamente, terei de concordar, não obstante, porém, sentir a premência de fazer um ponto, obviamente prévio, quanto à utilização, sem dúvida excessiva, das vírgulas, o que deve suscitar, parece-me, um debate, tão amplo quanto possível, sobre a necessidade de aumentar, num prazo muito curto, as receitas fiscais através da taxação destes sinais gráficos, de modo a prevenir, há que dizer, o seu uso indevido, mormente em textos disparatados como este.

          1. Assim já, nos entendemos.

            (ou, como muitos legisladores decerto escreveriam sem a ajuda do corrector ortográfico, “entende-mos”).

  3. De facto, dentro das possibilidades que o contexto presente oferece, e sem olvidar que a doutrina apresenta diferentes caminhos para solucionar o problema em apreço, o assunto requer reflexão adicional. Eventualmente, e após ponderada consideração, a resolução materializar-se-á na composição dos diferentes elementos, agora em constelação avulsa, num sistema ordeiro e racional, necessário à cabal compreensão das debilidades e virtudes que clarificarão, por fim, o tema em discussão. Se assim não for, o reforço dos princípios subjacentes à causa, vistos os argumentos a favor e em contra, culminarão numa redundância imperceptível, na manutenção das forças sinergéticas responsáveis pela incapacidade do tema se assumir como elemento de charneira.

    NOTA – O escárnio desde comentário oculta carinho e admiração. Bagão Félix foi um bom professor – sem o qual jamais teria terminado a cadeira de Finanças Públicas.

    1. Pois, Diogo. Concomitantemente o significado da problemática em relação ao qual é possível concretizar o desiderato há muito almejado pelas estruturas englobantes da matéria governativa.
      Penso eu de que.

  4. É sabido que o domínio da arte do hermetismo de linguagem constitui pré-requisito fundamental no acesso ao funcionalismo tuga.
    Todavia, grande parte dos candidatos consegue ser admitido pela simples manifestação de uma congénita falta de clareza textual.
    Somos imbatíveis na arte da aldrabice.

    1. Nem mais. Outrossim é possível postergar para um futuro incerto a implementação de medidas destinadas a colher os frutos da narrativa conceptual possibilitadora de novos influxos para que possamos todos encher o saco.
      Tenho dito.

  5. O tom proclamatório, reiterador, circular e enunciativo de virtudes nos considerandos e preâmbulos dos actos legislativos podem, por vezes, induzir alguma prolixidade. Contudo, são elementos que se consubstanciam em auxiliares hermenêuticos para juristas desesperados.
    Coisa, como todos sabemos, muitíssimo útil em determinadas circunstancias igualmente desesperadas.
    Todavia, convém acrescentar, a prolixidade era, tradicionalmente, vertida num português exemplar, que se tem perdido ultimamente. Daí o prolixo ao invés do profícuo.

    1. Do meu ponto de vista as contingências de ordem tecno-analítica tiveram reflexos na dimensão ofensiva da legislatura em curso forçando o esqueleto organizacional a decompor-se em movimentações erráticas prejudicando a transparência republicana em razão da qual a redacção do documento orçamental acabou por se tornar incerta o que muito tem afectado a minha capacidade de descortinar o desiderato almejado pelos dirigentes máximos dos diversos partidos e passem-me aí um copo cheio de água porque já tenho a garganta mais seca do que o deserto da Namíbia de tanto estar neste quiquiriqui.

  6. Nossa! O que p`raí vai de escrita criativa. Mas nada que supere o “excerto da proposta de lei do OE 2017”, um naco de prosa a todos os títulos genial, na sua clareza e eficácia. Muito provavelmente para não destoar do “core” de propostas do dito OE…

    1. Do meu ponto de vista o vector subjacente às coordenadas políticas bacteriologicamente puras é desenvolvido em razão dos silogismos analógicos no miolo do terreno governativo enquanto o losango da oposição anquilosa a filosofia ofensiva determinante para rubricar resultados consonantes com a derivação semântica em função da concentração de conteúdos associados às fontes jornalísticas tão copiosas que podemos tomar duche nelas.
      Será rigorosamente assim se não for ao contrário.

      1. Eu concordo. E acho a ideia dos duches muito bem sacada, sobretudo se forem frios, devido ao efeito de arrefecimento que produzirão nas cucas mais empolgadas com as sempre surpreendentes manifestações do génio luso, e, também, por questões higiénicas, lato sensu. Quanto ao resto, nada contra, salvaguardadas, claro, as refinadas sensibilidades em presença e que nos devem merecer, sempre, a maior atenção.

  7. Um conjunto de comentários cada um melhor que o anterior.

    Albert Einstein bem nos disse que se não conseguíssemos explicar algo de forma simples era porque não o tínhamos percebido suficientemente bem mas, nestes casos como noutros semelhantes, esta gente mostra bem que ou não os percebeu de todo ou escolhe este caminho propositadamente para que ninguém perceba o que querem.

    E esta última hipótese parece-me a mais provável: embrulhados nestas coisas, os interessados nunca chegarão a obter nada daquilo a que teriam direito porque na realidade não terão nunca direito a nada daquilo.

  8. Parabéns pela sua capacidade de mimetizar a novilíngua, bem patente nos seus excelentes comentários. Falando apenas do texto, de cada vez que leio coisas de tal calibre, em textos políticos, literários, académicos, etc., pergunto como Calisto Elói: o que é que isso significa em vernáculo?
    JCC

    1. Serei claro e conciso: a definição de camadas sedimentares através da descrição de testemunhos e afloramentos fornece a base para a construção de modelos de ideológicos calibrados através do persistente ancoramento de reivindicações prontas a deglutir pelo sistema. O realismo e a precisão de tais modelos dependem de informação substancial sobre as liturgias partidárias, incluindo descrição detalhada das estruturas dirigentes dessas agremiações.
      Com cem milhões de mil macacos. Hic!

  9. Muita da fruta madura já foi apanhada.

    Agora é preciso complicar para justificar empregos inuteís quando já poderíamos estar a trabalhar 4 dias por semana.
    Por isso têm que colocar muitas palavras.
    Quanta mais colocam mais se sentem realizados e mais o departamento cresce, mais funcionários tem de contratar e mais sub departamentos tem de ser criados.

    A arte e academia seguem esses passos também.

  10. Ocorre-me que P.C. (Pedro Correia) está insufismavelmente capaz de ser o redator de serviço naqueles casos (todos) em que o pessoal na AR quer mostrar trabalho -via kilos de palavras- sem se comprometer nem um bocadinho, com nada nem ninguém.
    Candidate-se sff.

    1. Acabou de dar-me uma excelente ideia. Obrigado, JS.
      Ou melhor:
      Grato por me ter fornecido um pertinente ponto de introspecção, ao qual tenciono dar sequência, após a reflexão que a questão impõe.

  11. No Marxismo quando escolhem uma comida podem estar a incorrer em “sexismo” :

    “Reporting the results of semi-structured interviews with adults and teenagers in twentytwo urban and rural families in British Columbia, Canada, this paper explores how gendered divisions of food consumption continue to exist within a supposedly “non-sexist” ideological context. With a photo elicitation technique used to stimulate discussions of food and gender, investigators found that most interview participants reproduced stereotypically gendered categories of food and ate in typically gendered ways; they did so even as they resisted the naming of particular foods as gendered. We therefore argue that while food and foodways remain gendered, the denial of them, through a process we call “performing individualism,” strengthens gender inequality by allowing gender disparities to appear not as systematic instances of inequity but rather as isolated instances of “natural” tastes and personal choice.”

    http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.2752/175174412X13276629246046

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