A lenda é mais ou menos esta, de facto. Não vou comentar todas as coisas de que discordo no texto de Filipe Roque, mas lembro apenas que a mitologia dos conservadores húngaros se baseia na revolução de 1956 e, portanto, a amálgama feita pelo autor contém indícios de uma história mal contada. Sei que é inútil, mas também não posso deixar de insistir num ponto que abala a confortável narrativa de estarmos perante um poder autoritário na Hungria: o partido dominante, Fidesz, é conservador e democrata-cristão, europeísta, com um líder carismático (excelente orador político), que venceu as últimas oito eleições realizadas no País, algumas de forma arrasadora: todas as três europeias (2004, 2009 e 2014); as locais (2006, 2010 e 2014); e as parlamentares de 2010 e 2014, a primeira destas com maioria constitucional.
Como se pode perceber neste comunicado, a narrativa do texto de Filipe Roque sobre o perigo que o fecho de um jornal representa para a liberdade de imprensa passa ao lado de factos importantes (leiam a versão inglesa do comunicado, que está logo abaixo da versão húngara). O jornal Népszbadság perdeu 74% da circulação em dez anos e já só vendia à volta de 30 mil exemplares diários quando a sua produção foi suspensa; repare-se que os proprietários austríacos admitem o regresso do título. Na realidade, o jornal perdera grande parte dos seus melhores jornalistas e também o apoio do próprio Partido Socialista (MSZP, na oposição). No início da década de 2000, o Népszabadság vendera mais de 200 mil exemplares diários.
A decisão da empresa austríaca que adquiriu o grupo não tem, desta forma, qualquer relação com uma suposta intenção governamental de “silenciar os canais de comunicação independentes”. Tratou-se de uma decisão empresarial, pois o jornal acumulara um prejuízo de 5 mil milhões de forint (16 milhões de euros); o grupo manterá os seus 12 jornais regionais e mais de 1100 trabalhadores; esses jornais regionais são responsáveis por três quartos do negócio (receitas de 80 milhões de euros). Repare-se ainda como a compra é recente e como o novo grupo austro-húngaro terá a sede no edifício do defunto jornal, edifício certamente valioso. Convém não esquecer que, em 1956, o Népszbadság era o órgão oficial do partido único que sufocou a rebelião popular húngara. A imagem em cima mostra a destruição de exemplares da publicação durante a revolta. Em democracia, perdeu os seus leitores e os seus melhores jornalistas, mas por culpa própria. É sempre uma pena que um jornal morra (e neste caso, o encerramento final, sendo provável, nem é garantido), mas os jornais dependem dos leitores e não podem vender gato por lebre ou deixar que os factos sejam ignorados por causa de uma linda história.


O texto que anexa, o de F. Roque, vem em linha com algumas outras opiniões a respeito da Hungria.
Para mim perdem todo o sentido quando se afirmam como contraponto os valores da UE.
As dúvidas que existiam em minhas análises iniciais dissiparam-se com o tempo, pois os valores de que tanto falam e escrevem nunca são apontados.
Creio que o que hoje se lê sobre a matéria, a dos valores da UE, situa-se na linha da ficção. Contudo, nunca se discutem os dogmas de fé. Porque esta fé assenta na crença da existência de realidades invisíveis, que eles mesmo dão corpo.
Não é uma linda história é ideologia. A mesma razão porque não há textos sobre os sucessivos adiamentos das eleições Presidenciais Austríacas.
Aí já não existe suspensão de democracia.
Da serie, noticias que nao passam porque nao entram na narrativa:
http://www.portfolio.hu/en/economy/hunga rian_pm_orban_wants_visa-free_entry_of_u krainians_into_eu.31983.html
Da serie, porque e que o palhaco do Orban ganha as eleicoes:
http://www.portfolio.hu/en/economy/insta nt_view_moodys_removes_hungary_from_junk _grade_what_next.32048.html
http://www.portfolio.hu/en/economy/house hold_debt_reduction_hungary_in_the_top3.3 2051.html
http://www.bloomberg.com/news/articles/2 015-01-16/hungary-s-orban-makes-world-s-b est-trade-on-swiss-franc-loans