Papéis inesquecíveis quase esquecidos (6)


escafandro,

 

Tatum O’Neal, em Paper Moon (Lua de Papel, 1973).

 

Paper Moon, de Peter Bogdanovich, é uma revisitação dos Estados Unidos da época da Grande Depressão, baseada no último livro do escritor e jornalista Joe David Brown. Passado entre grandes espaços (frequentemente no interior de um veículo descapotável), e pequenas cidades, filmado a preto e branco (com filtros vermelhos ou verdes em frente à objectiva, de modo a gerir o contraste), e sempre com elevada profundidade de campo, o filme abre com um funeral. No pequeno grupo de pessoas que ladeia a campa, encontra-se uma rapariga de oito ou nove anos. Subitamente, aproxima-se um carro barulhento. Dele sai um indivíduo que se junta ao enterro. Moses Pray (Ryan O’Neal, protagonista de filmes como Love Story, Barry Lyndon e The Driver), diz-se amigo da falecida mãe da rapariga. Ao mencionar que vai para St. Louis, os presentes propõem-lhe que leve a miúda, Addie Loggins, até casa de uns tios, únicos familiares conhecidos, situada em St. Paul, a curta distância de St. Louis. Após alguma resistência, Moses acaba por aceitar.

Addie (Tatum O’Neal, no seu primeiro desempenho) rapidamente percebe que na base da disponibilidade de Moses não se encontram noções de solidariedade mas um plano para extorquir dinheiro à família de um ex-amante da mãe, responsável pelo acidente de automóvel em que ela faleceu. Com uma segurança fenomenal, troca-lhe as voltas, impedindo-o de a despachar (sozinha, de comboio) para casa dos tios e forçando-o a incluí-la nas pequenas vigarices com que vai sobrevivendo. (A favorita: entregar a viúvas bíblias pretensamente encomendadas – mas ainda não pagas – pelos falecidos maridos.) Progressivamente, a situação complica-se e a polícia acaba atrás deles.

 

O filme nunca esclarece se entre Addie e Moses existem laços familiares. Ela desconfia que sim e pergunta-lhe logo de início se é o pai dela. A resposta vem negativa, mas sabemos desde cedo – como Addie também sabe – que ele mente com naturalidade. Mente tanto que poderá até estar a mentir sobre o nome, tão adequado a um vendedor de bíblias: «Moses», de Moisés, e «Pray», de rezar. Na verdade, o nome constitui todo um tratado de ironia. Estamos perante um Moisés muito fraco, péssimo enquanto guia (físico ou espiritual), raramente disponível para ouvir a voz da razão, e que pura e simplesmente não reza. Foneticamente, «Pray» também pode ser «presa», uma designação muito mais apropriada à personagem. Igualmente irónico – numa forma, digamos, metacinematográfica – é o facto dos actores serem mesmo pai e filha, e de existirem indícios de que Ryan não terá sido o que se classificaria de pai ideal.

Em 1974, Tatum O’Neal até venceu o Óscar de melhor actriz secundária pelo seu desempenho em Paper Moon (como noutros casos, o papel é claramente principal) mas acabou tendo uma carreira cinematográfica discreta. Hoje, será mais conhecida por acontecimentos ligados à sua vida privada: Michael Jackson nomeou-a como primeira paixão; foi detida por posse de droga; casou com o tenista John McEnroe em 1986 e, na sequência do divórcio, ocorrido em 1994, manteve com ele uma batalha feroz pela custódia dos 3 filhos (devido aos problemas de O’Neal com a droga, McEnroe conseguiu-a em 1998); lançou uma autobiografia (A Paper Life, 2005), polémica por nela descrever como viveu desde criança rodeada por drogas (num paralelo perturbador, em 1970 a mãe perdera a custódia de Tatum e do irmão Griffin precisamente por causa delas), como foi abusada aos 12 anos pelo dealer que as vendia ao pai, e como este constituiu sempre uma presença distante, mesmo nas ocasiões em que se encontrava fisicamente por perto. A relação de Tatum com o pai é difícil até hoje e ela deixa claro em entrevistas que ele não a tratava como uma criança deve ser tratada. Um exemplo menor, quase anedótico: quando Ryan participou em Barry Lyndon, forçou-a a ver todos os filmes anteriores de Kubrick (ela tinha pouco mais de dez anos). Outro: Ryan esteve ausente na cerimónia de entrega dos Óscares (que diabos tinhas vestido, miúda?), alegadamente irritado por a filha ter sido nomeada e ele não.

Um palavra também sobre Bogdanovich. Fez parte de uma geração de realizadores que despontava no início da década de 70 e vinha altamente influenciada por todo o cinema que acontecera antes. Incluía pessoas como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Michael Cimino, Francis Ford Coppola e William Friedkin(*). Todos eles marcaram a época e o cinema, mas vários acabaram por ter carreiras irregulares. Bogdanovich nunca mais atingiu o nível dos seus três primeiros filmes: este Paper Moon, de 1973, e os anteriores The Last Picture Show, de 1971 (com uns muito novos Jeff Bridges, Cybill Sheperd e Cloris Leachman) e What’s Up, Doc?, de 1972, que (tanto quanto recordo, dado não o ver há uma eternidade) conseguia tornar Barbra Streisand suportável. (As minhas desculpas à verdade histórica, se por acaso a minha memória se adocicou com o tempo, e aos fãs da senhora, em qualquer circunstância.)

 

Apesar da situação em que Addie se encontra, Paper Moon não é sentimentalista. Pelo contrário, todo o filme é perpassado por uma recusa em vitimizar Addie. A Grande Depressão fizera os tempos difíceis para quase toda a gente. Outras crianças haviam perdido os pais ou, mantendo-os, sofriam maiores dificuldades. A própria Addie tem consciência disto. Sabe que, em termos puramente materiais, não se está a sair mal. Chega mesmo a propor-se ajudar pessoas em pior situação – enquanto simultaneamente cobra mais pelas bíblias àquelas que lhe parecem estar bem na vida (Moses detesta ambas as ideias, no primeiro caso por não querer dispensar dinheiro, no segundo por recear que o excesso de ganância faça com que sejam apanhados – e também por a ideia não ter sido dele). Esta falta de sentimentalismo estende-se a várias cenas politicamente incorrectas: a polícia dispara sem pejo sobre um veículo onde se encontra uma criança, Addie fuma (é verdade que, de início, contra a vontade de Moses) e viaja nos automóveis de um modo que só pode causar desconforto nestes tempos de cadeirinhas obrigatórias e sistemas Isofix. Ainda que também sirvam propósitos de comédia (mas a comédia é uma recusa do sentimentalismo), estas cenas contribuem para situar a acção numa época e para deixar no espectador uma imagem indelével de Addie Loggins. De certo modo, Addie (esplêndida Tatum O’Neal ainda com tudo pela frente) poderia ser uma personagem de Dickens: agreste, voluntariosa, manipuladora, sincera, indomável, carente. Uma criança orfã a fingir de adulto em tempo de dificuldades.

 

Uma das cenas mais difíceis de rodar. Filmada em contínuo numa estrada deserta, bastava um erro no diálogo para ter de voltar-se ao início.

 

_________

(*) Os dois últimos foram produtores executivos de Paper Moon.

Eu discordo frequentemente do LA-C, mas há momentos em que só resta aplaudir…


escafandro,

Se a esquerda quer mesmo perceber como raio é possível alguém inteligente apoiar Trump, pode começar por perguntar a muita malta inteligente de esquerda por que raio gostava tanto de Hugo Chávez.

Luís Aguiar-Conraria, n’A Destreza das Dúvidas.

Cohen, a paz antes da partida


escafandro,

 

In his chair, Cohen waved away any sense of what might follow death. That was beyond understanding and language: “I don’t ask for information that I probably wouldn’t be able to process even if it were granted to me.” Persistence, living to the last, loose ends, work—that was the thing. A song from four years ago, “Going Home,” made clear his sense of limits: “He will speak these words of wisdom / Like a sage, a man of vision / Though he knows he’s really nothing / But the brief elaboration of a tube.”

The new record opens with the title track, “You Want It Darker,” and in the chorus, the singer declares:

Hineni Hineni

I’m ready my Lord.

Hineni is Hebrew for “Here I am,” Abraham’s answer to the summons of God to sacrifice his son Isaac; the song is clearly an announcement of readiness, a man at the end preparing for his service and devotion. Cohen asked Gideon Zelermyer, the cantor at Shaar Hashomayim, the synagogue of his youth in Montreal, to sing the backing vocals. And yet the man sitting in his medical chair was anything but haunted or defeated.

“I know there’s a spiritual aspect to everybody’s life, whether they want to cop to it or not,” Cohen said. “It’s there, you can feel it in people—there’s some recognition that there is a reality that they cannot penetrate but which influences their mood and activity. So that’s operating. That activity at certain points of your day or night insists on a certain kind of response. Sometimes it’s just like: ‘You are losing too much weight, Leonard. You’re dying, but you don’t have to coöperate enthusiastically with the process.’ Force yourself to have a sandwich.

“What I mean to say is that you hear the Bat Kol.” The divine voice. “You hear this other deep reality singing to you all the time, and much of the time you can’t decipher it. Even when I was healthy, I was sensitive to the process. At this stage of the game, I hear it saying, ‘Leonard, just get on with the things you have to do.’ It’s very compassionate at this stage. More than at any time of my life, I no longer have that voice that says, ‘You’re fucking up.’ That’s a tremendous blessing, really.” 

 

O final de um excelente perfil de Leonard Cohen, surgido na The New Yorker de 17 de Outubro. A juventude, Marianne, outras mulheres, Dylan, a enganadora simplicidade da música, os concertos ao vivo, as drogas, a transcendência, a ideia da morte. E, a propósito desta, faz-me uma certa impressão – fica sempre a ideia do vatícinio (sorry, IsabelPS) – ter referido há exactamente duas semanas que ele se declarara pronto para morrer.

Coisas, pessoas, fronteiras


escafandro,

Ontem à noite, na SIC Notícias, Mariana Mortágua – estrela da «geringonça», ideóloga em formação – recusava comparações entre o proteccionismo do Bloco e o proteccionismo de Donald Trump. Explicava ela, com trejeitos de nojo, que Trump quer fechar fronteiras às pessoas enquanto o Bloco defende um mundo onde estas possam movimentar-se livremente. O proteccionismo do Bloco, a sua recusa da «globalização», aplica-se apenas à circulação de produtos e destina-se a proteger e a «dignificar» a produção local contra as «grandes multinacionais». Como de costume, a verve resulta ligeiramente encantatória – desde que não se reflicta muito sobre o assunto. Não parece ocorrer a Mortágua que várias das economias com maior crescimento nas últimas décadas, aquelas onde mais gente saiu da pobreza, dependem precisamente das exportações. Não parece ocorrer-lhe que fechar as fronteiras aos produtos originados nesses países (sejam de índole industrial, sejam de índole agrícola ou pecuária), representaria desemprego e regresso à pobreza. Não parece ocorrer-lhe que a pobreza reforçaria os fluxos de migração, nem que o excesso de imigração gera tensões sociais, custos para o erário público e fenómenos populistas como Trump, o Brexit ou Marine Le Pen. Ou então ela sabe-o perfeitamente – afinal, dizem-na inteligente – e, tal como os seus colegas do Bloco, é apenas muito mais revolucionária do que tenta parecer.

O futuro é um lugar imprevisível


escafandro,

donald-trump-flag.jpg

 

1.

Será interessante ver se Donald Trump – claramente alguém que não se preocupa com o detalhe ou com a coerência – irá aplicar muitas das medidas que defendeu. Sendo certo que o Partido Republicano controlará Câmara dos Representantes e Senado, muitos dos seus elementos discordam de Trump; porém, o poder tende a atenuar divergências. E os eleitores estão à espera de mudança – em parte, a que Obama prometeu e não concretizou.

 

2.

Se Hillary Clinton perdeu, Obama é o outro grande derrotado da noite. A eleição de Trump permite verificar quão insatisfeitos estão os norte-americanos com a sua presidência. Tivesse Obama conseguido os resultados que muitos por cá – e por lá – lhe atribuem, Clinton teria vencido. Pessoas satisfeitas não querem mudança – ainda por cima, com elevadíssimo grau de risco.

 

3.

Algumas medidas parecem certas. Por exemplo, o fim do Obamacare e o adiamento de qualquer medida para controlar a venda e posse de armas. Do ponto de vista de um europeu, são questões irrelevantes, exclusivamente de política interna. Há, no entanto, três temas com alcance global: o eventual proteccionismo económico, a política externa e a política monetária. Em nenhum deles o comportamento de Trump pode ser dado como adquirido.

 

4.

No campo da Economia, depois de tudo o que disse e das expectativas que criou, Trump está forçado a fazer algo. O TTIP já morrera durante a presidência Obama, mas veremos o que sucede com o NAFTA, que muitos congressistas republicanos têm apoiado, e em que bases se estabelecerá a relação com a China. Seja como for, o comércio global irá quase certamente ressentir-se. Quem hoje celebra, poderá rapidamente constatar que fechar fronteiras não significa mais riqueza – especialmente no caso de países pequenos como Portugal, que apenas poderão crescer captando recursos no exterior.

 

5.

Vladimir Putin foi o outro grande vencedor do dia. Uns Estados Unidos focados na política interna e desinteressados da NATO abrem-lhe as portas para todos os impulsos. Resta saber em que moldes Trump procurará cumprir a promessa de acabar com o Daesh. E se, mais cedo ou mais tarde, como sucedeu a George W. Bush, não acabará arrastado para conflitos que deseja evitar. Para Israel (mas também para a Palestina), os riscos acabam de aumentar exponencialmente.

 

6.

Para o bem e para o mal, a acção dos Bancos Centrais tem sido decisiva no equilíbrio do castelo de cartas em que a Economia se transformou. Irá Trump permitir uma correcção dos mercados, que terá sempre reflexos violentos na vida diária das pessoas? Parece-me improvável. Trump anunciou investimento público; necessita de uma Economia capaz de lhe fornecer o dinheiro necessário (ainda que artificialmente). E mais: Trump é um especulador e um milionário; fará tudo para evitar prejuízos.

Evidentemente, os desejos dele podem mostrar-se irrelevantes. Ninguém segura um castelo de cartas depois de ele estar em queda.

 

7.

Nos países mais prósperos, onde as últimas décadas criaram a ilusão de que era possível manter os níveis de enriquecimento e protecção social sempre a subir, as pessoas andam insatisfeitas. É compreensível. Menos compreensível é que exprimam a insatisfação de forma irracional, votando para acabar com algo em vez de para construir uma alternativa coerente. Inevitavelmente, uma alternativa surgirá; contudo, numa época em que globalmente se vive muito melhor do que em qualquer outra na História, ela pode revelar-se bastante pior do que a situação de partida. Será então demasiado tarde para lamentos. Isto aplica-se à eleição de Trump, mas também à vitória do «sim» no referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, à vitória do Syriza na Grécia, à quase-eleição de Norbert Hofer na Áustria (no dia 4 de Dezembro ver-se-á se o «quase» está a mais), à eventual vitória de Marine LePen em França, aos resultados do Podemos em Espanha ou do AfD na Alemanha, etc., etc., etc.. Quando se unem todos os pontos, a imagem final é assustadora. Mas é o que é, e não vale a pena cair em lamentos. Ou talvez apenas para constatar que a expressão «que possas viver em tempos interessantes» terá resultado da adulteração de uma mensagem defendendo exactamente o contrário.

 

(Foto recolhida na net; não consegui determinar o autor.)

Diário semifictício de insignificâncias (21)


escafandro,

Os canais de séries estão a repetir episódios pela centésima vigésima oitava vez. Nos canais de notícias debate-se a polémica do momento – política ou futebolística, nem quero saber. Eu devia ir para a cama, mas não tenho vontade. Também não tenho vontade de ler, nem de ouvir música, nem de arrumar os livros e os filmes que se amontoam na mesa existente entre mim e o televisor, nem de fazer qualquer outra coisa de que me consiga agora lembrar – mas decididamente não tenho vontade de ir para a cama.

Em nenhum outro instante fica a inutilidade do ciclo da vida tão exposto como nos momentos de deitar e levantar. É, aliás, irónico: a maioria das pessoas detesta ir para a cama e depois detesta sair dela. É como se a vida fosse um trajecto no vazio, a velocidade constante, e cada momento de deitar e levantar exigisse vencer a inércia.

Um dia destes hei-de procurar confirmar na internet uma ideia antiga: a de que os portugueses se deitam mais tarde do que a maioria dos outros povos. Fazem-no tardíssimo, chateando os vizinhos não apenas com o ruído das vozes e da televisão, mas com pancadas repentinas e arrastares estranhos, parecendo ter decidido mudar os móveis de sítio às duas da manhã – noite após noite após noite. Desconfio que, para os portugueses, ir cedo para a cama (ou ir para a cama, tout court) equivale a desistir de esperar pelo instante em que a vida se alteraria indelevelmente para muito melhor e a reconhecer o falhanço de ter decorrido mais um dia em que ela permaneceu igual. Depois, claro, andam irritadiços e à base de café.

É tarde. Eu devia mesmo ir para a cama.

Do princípio ao fim (28)


escafandro,

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Samuel Spade’s jaw was long and boney, his chin a jutting v under the more flexible v of his mouth. His nostrils curved back to make another, smaller, v. His yellow-gray eyes were horizontal. The v motif was picked up again by thickish brows rising outward from twin creases above a hooked nose, and his pale brown hair grew down – from high flat temples – in a point of his forehead. He looked rather pleasantly like a blond satan.

 

A tradução (de Baptista de Carvalho, para o nº 34 da colecção Vampiro original) é fraquinha:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verde-claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado, caprichosamente invertido. O cabelo castanho-claro tinha como fronteira uma testa alta e despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava, assim, no centro, um «bico de viúva». À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine:

– Que se passa, meu amor?

 

Na primeira vez que li O Falcão de Malta, de Dashiell Hammett, o início não me chamou a atenção. Poucos adolescentes gostam de descrições, excepto se forem de partes anatómicas mais sugestivas do que a face das personagens. Lembro-me, porém, de ficar fascinado – e horrorizado – com a frieza de Sam Spade, o detective privado no centro do enredo. James Ellroy, que muitos consideram herdeiro de Hammett – começando talvez pelo próprio, pouco dado a demonstrações de modéstia -, afirmou numa entrevista à The Paris Review preferir Hammett a Chandler por este ter escrito do ponto de vista do homem que gostaria de ser enquanto Hammett escrevera do ponto de vista do homem que temia ser(*). Eu admito que Chandler era globalmente melhor escritor do que Hammett mas, ainda assim, compreendo Ellroy. E, pegando novamente há uns anos n’O Falcão de Malta, descobri com surpresa que o jogo estava claro desde o primeiro parágrafo. Sam Spade é o diabo. Ou, vá, um diabo. Uma versão refinada do Continental Op dos livros anteriores, no sentido em que é fisicamente atraente, como qualquer verdadeiro diabo terá de ser (representá-lo com formas grotescas não passa de um truque para tornar mais fácil resistir-lhe). Nenhum humano normal, passível de compromissos, distracções, hesitações, ingenuidades e emoções, chega a ter qualquer hipótese de enganar Spade. A mulher fatal, que Hammett praticamente inventara em Red Harvest e que, pelo menos ao nível psicológico, desgraça o detective em tantos outros livros e filmes, está condenada desde o início(**). No momento-chave, Spade é-lhe imune e, pouco depois, parece já nem se lembrar da sua existência. Não é impossível que as garantias de amor dela fossem verdadeiras. Mas é irrelevante. Ao contrário de Philip Marlowe, o alter ego de Chandler, Spade não é homem para permitir-se actos sentimentais. Não é homem para arriscar o pescoço sem que exista algo tangível a ganhar. Para Spade, o amor seria sempre – e apenas – um benefício colateral.

 

P.S.: O carácter pouco heróico de Sam Spade está bem presente na adaptação cinematográfica de 1941, realizada por John Huston, com Humphrey Bogart no papel principal. De resto, Huston poucas vezes mostrou heróis tradicionais nos seus filmes e o próprio Bogart – em 1941, ainda longe do nível de estrelato que viria a atingir – desempenhou frequentemente personagens antipáticas (recorde-se outra colaboração com Huston: O Tesouro de Sierra Madre). Se alguém vir um herói no Spade do filme, tal dever-se-á provavelmente ao charme que o cinismo possui e ao peso que, não obstante a carreira variada, o nome Bogart adquiriu.

 

Aviso: o texto da edição actual, cuja capa se reproduz acima, está em «acordês».

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(*) Chandler wrote the kind of guy that he wanted to be, Hammett wrote the kind of guy that he was afraid he was. Chandler’s books are incoherent. Hammett’s are coherent. Chandler is all about the wisecracks, the similes, the constant satire, the construction of the knight. Hammett writes about the all-male world of mendacity and greed. The Paris Review, nº 201.

 

(**) Segundo algumas opiniões, o destino da mulher fatal é precisamente ser punida pelo herói, que castigaria assim o uso de comportamentos pouco consentâneos com o tradicional papel feminino. Pode haver nesta interpretação algum fundo de verdade (um dos receios – mas também uma das fontes de excitação – dos homens sempre foi a possibilidade de as mulheres usarem o sexo como elemento manipulador) mas a generalização – e a inerente acusação de misoginia – parece-me um pouco abusiva.

Música recente (41)


escafandro,

Teresa Salgueiro, álbum O Horizonte.

Apontamentos e sensações apoiados em música apenas pontualmente escapando a um onirismo que, associado à voz quase demasiado límpida de Teresa Salgueiro, por vezes se me torna cansativo. Talvez por isso acabo preferindo os temas mais percussivos, com “Desencontro” à cabeça. Mas em doses moderadas é sublime.

 

(Note to self: ouvir nas colunas ou experimentar outros auscultadores.)

Música recente (40)


escafandro,

Lisa Hannigan, álbum At Swim. 

O terceiro álbum da irlandesa que Neil Jordan me permitiu descobrir não foge muito ao registo presente nos outros dois. Será talvez um pouco mais ambiental, mais líquido (swim in your current, flow on every word you say, canta ela em Undertow), mas não deixa de incluir, de forma quase displicente, frases como hang the rich and spare the young (oh, Lisa…). Foi produzido por Aaron Dessner, dos The National, mas, ao contrário do sucedido noutras produções dele (ver último trabalho dos Frightened Rabbit), a sonoridade dos The National não fica evidente. Dessner terá mesmo desempenhado um papel crucial na realização do álbum, ajudando Lisa a vencer o bloqueio criativo em que estava mergulhada.

Transparência à socialista


escafandro,

1.

Faltavam dados no orçamento de Estado para 2017. Dados que, legalmente, o governo estava obrigado a fornecer e cuja ausência tornava difícil perceber a lógica por trás das previsões. Enquanto pôde, o governo resistiu a entregá-los. Não surpreende: sabemos há muito que a definição de «transparência» muda durante os governos socialistas. Perante a complacência geral, a verdade tende a assumir a forma das declarações oficiais.

 

2.

Mas, afinal, o que assusta o governo? Talvez que se perceba a inconsistência das previsões. E a mentira criada para a esconder.

 

3.

Em duas semanas, sem que tivesse ocorrido o anúncio de qualquer nova medida, receitas e despesas mudaram. Centeno, a estrela da Economia que iria pôr o país a crescer a mais de 3% ao ano, parece hoje limitar-se a ajustar números no Excel, de acordo com as conveniências.

 

4.

E era conveniente passar a ideia de um orçamento muito mais cor-de-rosa do que na verdade ele será. Veja-se o exemplo do ministério da Educação; em duas semanas, um crescimento das verbas disponíveis de 3,1% transformou-se num corte de 2,7%. O valor orçamentado é agora ligeiramente inferior ao de 2013. Porém, enquanto na altura Bloco, PCP e Frenpof anunciavam o «ataque à escola pública», hoje assinam de cruz e Mário Nogueira permite-se mesmo chamar «cretino» a quem se atreve a referir as suas incoerências. Televisões, rádios e jornais, entretanto, referem apenas que Centeno, embora no limite do prazo com que se comprometera, até enviou os dados. Alguém lhe ofereça um cartão de parabéns, por favor.

 

5.

E depois há a execução de 2016 e o truque das cativações. Elas existiram em anos anteriores, mas hoje, neste período pós-austeridade em que deveriam mostrar-se desnecessárias, são afinal cruciais para o cumprimento dos objectivos do défice – os únicos em que, ironicamente (falhados que foram os de crescimento, investimento e consumo), o governo está empenhado. Mais uma vez, Bloco e PCP parecem ter-se tornado panglossianos: este é o melhor dos mundos possíveis.

 

6.

De resto, as ironias acumulam-se. Nos montantes e termos actuais, as cativações – despesa orçamentada que o governo não deixa utilizar – significam serviços públicos em degradação acelerada. Hospitais, escolas, transportes públicos. Rui Ramos escreveu-o melhor do que ninguém: O governo devolve salários ao funcionalismo, mas tira-lhe, ao mesmo tempo, os meios para desempenhar o seu papel. Não poderia haver melhor sinal de que o Estado social só interessa ao governo e à maioria como uma bolsa de clientelas e de dependentes, e não como prestador ou garante de serviços à sociedade. A geringonça – formalmente de esquerda – não parece notá-lo. A comunicação social também não.

 

7.

As cativações representam igualmente atrasos nos pagamentos ao sector privado. Este foi um cancro dos últimos anos do governo Sócrates que a Troika tentou imediatamente corrigir, consciente dos seus efeitos: preços mais elevados para o Estado e dificuldades financeiras para inúmeras empresas. Na ânsia de fingir que tudo vai bem, a «geringonça» garante ao Estado custos superiores no futuro e a Portugal um menor crescimento económico desde já.

 

8.

Pouco importa. A lógica do governo é a sua própria sobrevivência, gerida dia a dia. Com uma comunicação social domada, com os sectores mais reivindicativos razoavelmente satisfeitos, com um sociedade cujo grau de conformismo pouco evoluiu desde os tempos do Estado Novo (para não recuar mais), a «geringonça» está à vontade.

 

9.

Nunca saberemos quais teriam sido os resultados de uma política que tivesse incentivado o investimento em vez de o afugentar, que tivesse devolvido os cortes de salários e pensões num ritmo mais lento para que essa devolução não se reflectisse na qualidade dos serviços e nos prazos de pagamento do Estado, que tivesse garantido gestão profissional e apolítica nos transportes públicos, que tivesse enfrentado a necessidade de reformar a Segurança Social. Mas sabemos que, em meados de 2015, tendo provavelmente aplicado um «efeito multiplicador» negativo ao cenário, Centeno garantia que essas opções representariam um crescimento de 1,7% em 2016. Quase o dobro do que ele se prepara para conseguir.

 

10.

Governar é assumir compromissos. Uma grande parte de governar em democracia é assumi-los em transparência. Numa perspectiva de futuro, os compromissos deste governo são péssimos, a sua falta de transparência assustadora. Mas os portugueses nunca foram de pensar no futuro e, desde que sintam estar a receber algumas migalhas, convivem bem com a dissimulação e com a mentira. É tradicionalmente a sorte dos caciques, é também a sorte da «geringonça». Até ao momento em que as migalhas acabem.

Música recente (38)


escafandro,

 Phantogram, álbum Three.

Sinceramente, é o pior dos três álbuns dos Phantogram. O mais comercial, o que apresenta mais temas que fazem o ouvinte franzir a testa e perguntar-se o que raio lhes passou pela cabeça. O desejo de sucesso, talvez. Aproveitam-se duas ou três boas canções, com este primeiro single destacado na frente.

Diário semifictício de insignificâncias (20)


escafandro,

  

Time’s fun when you’re having flies.

Velho adágio batraquiano.

 

Na escola secundária recusei dissecar uma rã. Quando a professora de Biologia fez o anúncio, protestei com tamanha veemência que ela admitiu que eu não necessitaria de participar – e depois acabou por desistir da ideia. Os meus colegas com tendências mais sanguinárias ficaram desiludidos mas eu encarei o desagrado deles com a impassividade dos batráquios – depois de pular para longe.

No domingo, em mais uma volta no Jardim Botânico do Porto, constatei que os sapos e as rãs já estão quase todos fora de vista, à espera do tempo frio. O Outono conferia ao jardim uma melancolia que me agrada mas, ainda assim, tenho de reconhecer: pelo menos até encontrar o espírito de Sophia de Mello Breyner (é muito mais provável que deambule por aquelas veredas, que conheceu em jovem, do que entre as paredes frias do Panteão), os batráquios são o que mais aprecio no local. (Também me é fácil identificar o que menos aprecio: o ruído do trânsito na VCI, mesmo ao lado). Gosto mais dos batráquios do que dos cactos, das tílias e do liquidâmbar centenário, o que não deixa de ser um bocadinho irónico porque, como o nome deixa entender, ali a ideia é destacar as plantas. Azar. Eu prefiro os sapos e as rãs que, com a tranquilidade de alentejanos particularmente zen, habitam os laguinhos cobertos por nenúfares.

A expressão dos sapos e das rãs é uma ode à calma e à paz de espírito. Observo a expressão facial (terão face?) de um sapo e, não obstante a existência de piadas como «o que irrita um sapo? Não encontrar uma mosca na sopa», sou incapaz de o imaginar caindo em histrionismos. Isto faz do Cocas dos Marretas uma incongruência pelo menos tão grande como ele ser do mesmo tamanho da porca com a qual mantém uma relação amorosa, mas encaixa perfeitamente nas rãs cépticas e irónicas de Aristófanes. Paul McCartney também lhes entendeu a maneira de ser em We All Stand Together (bóme, bóme), o velho êxito para crianças que dominou o Top Mais durante semanas a fio há um quarto de século. (Quantos anos viverão sapos e rãs? Tenho que pesquisar, depois de acabar este texto.) Ainda por cima, os sapos e as rãs comem moscas e eu detesto moscas. Até acredito que sejam gostosas (todas aquelas estruturas – cartilagens ou lá o que são – devem fazê-las saber a carapauzinhos fritos engolidos inteiros) mas, ainda assim, não as suporto. A avaliar pela beatífica fisionomia dos sapos, porém, devem ter propriedades extremamente calmantes. Um dia destes, quando me encontrar irritado, hei-de experimentar mastigar uma, em vez de beber um chá de camomila, comer um maracujá ou fechar os olhos, respirar fundo e pensar na Romy Schneider em La Piscine (sim, entrei na idade em que esse tipo de visões já é relaxante). Claro que também há pessoas que comem batráquios – les cons – mas prefiro não pensar nisso. E felizmente há muitas outras que, como eu, os apreciam por razões estéticas e filosóficas. Um exemplo: que outro motivo levaria alguém a chamar «Sapo» a um portal de internet? (A rapidez na captura? Bah, isso terá sido uma desculpa arranjada à pressa para disfarçar o que poderia parecer uma tara.) Um segundo exemplo: alguém abriria uma Frog Store apenas por ânsia de lucro?

(Raios partam. Quando comecei a escrever isto, tinha – ou, pelo menos, acho que tinha – uma forma inteligente para lhe colocar um ponto final. Entretanto pus-me a divagar e agora já não me lembro de qual era o plano. Vou tirar a tal dúvida. Pode ser que entretanto me regresse a inspiração ou seja lá o que for que me dá quando me ponho a escrever estas coisas.)

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Ora bem. No site All about frogs ponto org (há um ponto org sobre sapos!) diz-se que varia bastante mas o normal é viverem entre quatro e quinze anos. Mesmo considerando variações entre espécies, estranho uma amplitude tão grande. Parece-me improvável que um sapo que tenha vivido apenas quatro anos possa ter esticado o pernil – e neles a expressão faz todo o sentido – de morte natural. Se os estudos foram realizados em laboratório (o ponto org admite que os dados são de batráquios em cativeiro), é provável que muitos sapos e rãs tenham cometido suicídio, alarmados com os relatos de dissecações em salas de aula. O máximo, informa também o ponto org, anda pelos quarenta anos. Será a versão Manoel de Oliveira. E, a propósito – os pensamentos seriam como as cerejas se eu apreciasse cerejas -, Oliveira até tinha uma aparência calma, inteligente, ponderada, batraquiana. Sendo que batraquiana não é o mesmo que balzaquiana, obviamente. Isto, Manoel de Oliveira não era, e os batráquios também não são. Assim de repente, classificá-los-ia antes como woolfianos (de Virginia – a pessoa, não o estado): reflexivos, contemplativos, atraindo apenas aqueles que são capazes de ultrapassar as primeiras impressões e perseverar até atingirem um prazer subtil mas intenso. Digamos que as rãs são como mulheres excessivamente magras, com óculos de massa e postura desajeitada (bibliotecárias típicas, portanto), cuja beleza e fogo interior passam despercebidos num simples relance. Digamos que os sapos são como homens com nariz ligeiramente torto, cabelo desgrenhado e óculos (os óculos dão sempre jeito para estas imagens), que depois mostram elevados níveis de sensibilidade (para homens) e abdominais surpreendentemente bem definidos. No fim de contas, é a história do príncipe dentro do sapo. O beijo terá nascido com a Disney, os irmãos Grimm passaram ao papel a versão em que o sapo se transforma em príncipe ao ser atirado contra uma parede pela princesa (o temperamento feminino…) mas o conto é bastante mais antigo do que a empresa do tio Walt ou os manos alemães e, especialmente quando adicionado ao Aristófanes, revela bem que desde há séculos vários povos têm conseguido detectar o encanto dos batráquios (os franceses, por seu turno… oumpff!).

Resta-me uma dúvida e, não tendo arranjado melhor alternativa, penso que vou fechar com ela: nascido há 61 anos, como é que o Cocas ainda está vivo?

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Mais uma coisa, afinal: a Miss Piggy, essa sim, é um pouco balzaquiana.

Diário semifictício de insignificâncias (19)


escafandro,

O homem foi no carro dele, eu segui-o no meu. Ainda dentro da povoação, um semáforo accionado pela velocidade passou a vermelho. Ele ignorou-o. Eu parei. Quando surgiu a luz verde, arranquei devagar. O homem esperava mais à frente. Era dos que aceleram nas rectas e travam demasiado nas curvas. Antes de chegarmos ao destino, ignorou mais dois semáforos. Despoletava a mudança mas não fazia caso. Eu parava. Ele encostava na recta seguinte.

Primeiro, fiquei irritado. Depois comecei a divertir-me. Perguntei-me se ele não teria consciência da acumulação de situações, perdendo a memória do sucedido num semáforo antes de atingir o seguinte (o que faria dele uma espécie de Dory, em À Procura de Nemo), ou se, depois do primeiro semáforo, achava agora que parar ou conduzir mais devagar representaria perder a face.  Podes armar-te em cumpridor das regras, pensaria, mas eu não vou mudar por tua causa.

Estacionámos lado a lado. Saímos dos carros e fingimos que nada acontecera.