Os canais de séries estão a repetir episódios pela centésima vigésima oitava vez. Nos canais de notícias debate-se a polémica do momento – política ou futebolística, nem quero saber. Eu devia ir para a cama, mas não tenho vontade. Também não tenho vontade de ler, nem de ouvir música, nem de arrumar os livros e os filmes que se amontoam na mesa existente entre mim e o televisor, nem de fazer qualquer outra coisa de que me consiga agora lembrar – mas decididamente não tenho vontade de ir para a cama.
Em nenhum outro instante fica a inutilidade do ciclo da vida tão exposto como nos momentos de deitar e levantar. É, aliás, irónico: a maioria das pessoas detesta ir para a cama e depois detesta sair dela. É como se a vida fosse um trajecto no vazio, a velocidade constante, e cada momento de deitar e levantar exigisse vencer a inércia.
Um dia destes hei-de procurar confirmar na internet uma ideia antiga: a de que os portugueses se deitam mais tarde do que a maioria dos outros povos. Fazem-no tardíssimo, chateando os vizinhos não apenas com o ruído das vozes e da televisão, mas com pancadas repentinas e arrastares estranhos, parecendo ter decidido mudar os móveis de sítio às duas da manhã – noite após noite após noite. Desconfio que, para os portugueses, ir cedo para a cama (ou ir para a cama, tout court) equivale a desistir de esperar pelo instante em que a vida se alteraria indelevelmente para muito melhor e a reconhecer o falhanço de ter decorrido mais um dia em que ela permaneceu igual. Depois, claro, andam irritadiços e à base de café.
É tarde. Eu devia mesmo ir para a cama.

Eu também … e lá terá que ser.
Bom, nesta altura só me resta esperar que tenha dormido bem… 🙂
Pois eu só me agora vou deitar. Dilatei o serão ler. Boa noite e até à manhã!
A leitura é uma boa justificação. Embora, no meu caso, renda pouco antes de deitar (sinto o dobro da dificuldade para entender frases menos óbvias).
Muito bom, José António. Qualquer dia tens livro.
Obrigado, Pedro. Mas não são textos suficientemente bons para um anónimo conseguir editar – e vender.
O processo iniciado com o ir para a cama, o deitar, o adormecer e, finalmente, o dormir é, em boa verdade, o “estado mais próximo da morte”, ainda que se esteja vivo. Mas não deixa de ser uma proximidade indesejada.
Por isso, eu decididamente nunca tenho vontade de ir para a cama.
Bem visto. Talvez recusemos a ideia de adormecer por medo da morte e depois a de acordar por estarmos sob o seu encanto.
Nunca tinha pensado na Morte sob essa perspectiva que designou de encanto. Mas, provavelmente até poderá ser isso.
Bom texto.
Obrigado.
Irritadiços, à base de café e, parece, consumindo crescentemente antidepressivos e afins. E, convenhamos, sem fim à vista para o que leva a essas condições. Creio que tem razão, quando escreve que o falhanço generalizado de se ser português e de cada dia de cada português (suponho que não ofendo intoleravelmente o espírito do seu texto) terá algo a ver com essa desistência que a ida para a cama poderá representar.
Também acontecerá amiúde algo oposto, acredito. Acordar e imediatamente ansiar pelo momento em que, de novo na cama, se apagará a luz e – espera-se – se abandonará isto tudo por umas horas. Despachado mais um dia frustrante e antes de enfrentar o seguinte. Se, grande “se”, se conseguir dormir pacificamente.
Tempos interessantes, os nossos.
Costa
Sim, acordar para mais um dia banal e sem esperança pode dar vontade de continuar a dormir. E o café já não resolve tudo. No fim do dia, torna até mais difícil volta a adormecer.
É curioso como as pessoas (pelo menos as da classe média) parecem preocupar-se cada vez mais com comidas saudáveis, exercício físico, meditação, etc. (são modas, eu sei, mas ainda assim) e, no entanto, descuram completamente o sono. Não obstante toda a negatividade que anda no ar (infelizmente, muita dela justificada), deitar cedo e (aprender a) dormir mais tempo ajudaria a desanuviar a cabeça – e a tomar decisões mais racionais.
Gostei tanto, Jaa! Cinco estrelas:)
Ora bolas, cinco estrelas era bom quando não havia hotéis de sete… 🙂
(Obrigado, Teresa.)