Diário semifictício de insignificâncias (19)


escafandro,

O homem foi no carro dele, eu segui-o no meu. Ainda dentro da povoação, um semáforo accionado pela velocidade passou a vermelho. Ele ignorou-o. Eu parei. Quando surgiu a luz verde, arranquei devagar. O homem esperava mais à frente. Era dos que aceleram nas rectas e travam demasiado nas curvas. Antes de chegarmos ao destino, ignorou mais dois semáforos. Despoletava a mudança mas não fazia caso. Eu parava. Ele encostava na recta seguinte.

Primeiro, fiquei irritado. Depois comecei a divertir-me. Perguntei-me se ele não teria consciência da acumulação de situações, perdendo a memória do sucedido num semáforo antes de atingir o seguinte (o que faria dele uma espécie de Dory, em À Procura de Nemo), ou se, depois do primeiro semáforo, achava agora que parar ou conduzir mais devagar representaria perder a face.  Podes armar-te em cumpridor das regras, pensaria, mas eu não vou mudar por tua causa.

Estacionámos lado a lado. Saímos dos carros e fingimos que nada acontecera.

4 comentários em “Diário semifictício de insignificâncias (19)”

    1. Obrigado, Pedro. O que ainda me surpreende em algumas pessoas é a aparente falta de consciência dos próprios actos. É como se apenas se dessem ao trabalho de pensar quando perante acções alheias.
      Isto apesar de, meia hora depois, o homem em causa me estar a contar a vida quase toda. Suponho que podia estar a tentar limpar a imagem mas não me pareceu. Acho que estava apenas a tentar impressionar-me. 🙂

  1. Também gostei muito.

    Os condutores que não respeitam os semáforos acionados pela velocidade esquecem que põem em perigo os peões, principalmente crianças. Será que eles não pensam, por exemplo, que não teriam tempo de travar, se uma criança lhe surja numa passadeira? É uma grande falta de respeito!
    Mas mesmo não considerando o perigo, não há dúvida de que uma povoação fica bem mais aprazível e mais convidativa ao passeio a pé, quando os carros andam devagar. Só isso já é razão para que se respeitem esses semáforos.

    1. Há semáforos em certas rectas atravessando povoações que é muito difícil não activar, pelo menos de vez em quando e especialmente quando não se conhece o local. Dito isto, não parar é uma estupidez.

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