“Por vontade expressa da autora, o livro respeita a ortografia anterior ao actual acordo ortográfico”
2 comentários em “Sugestão: um livro por dia”
Caro Pedro, sobre Angola de 1975, imediatamente antes da independência, permita-me que lhe deixe este texto:
«E em Luanda? O que há para fazer ao domingo na nossa cidade abandonada, cuja setença – como vem a saber-se já foi decidida? Pode-se dormir até ao meio-dia. Pode abrir-se a torneira e verificar – ah!-, no caso de haver água. Pode uma pessoa pôr-se em frente ao espelho a pensar: tantas cãs que já tenho na barba. Pode-se andar, transpirando de fraqueza e do esforço, pela Rua de Luís de Camões, em direcção ao aeroporto, ou descer até à baixa. No entanto, isto não é tudo – também se pode ir ao cinema! É verdade, porque ainda temos um cinema, apenas um, é certo, mas é panorâmico e ao ar livre e, ainda por cima grátis. O cineteatro fica na zona norte da cidade, perto da frente de combate. O proprietário fugiu para Lisboa, mas o projeccionista ficou, assim como uma cópia do famoso filme (…) Emmanuelle. O projeccionista mostra-o em sessões contínuas, umas atrás das outras, grátis para todos, e há sempre multidões de miúdos e de soldados que chegam da frente, a lotação está sempre esgotada, há atropelos e alvoroço e uma boa disposição indescritíveis. Para realçar o efeito, o projeccionista interrompe a projecção nos momentos mais escaldantes. A rapariga está nua – interrupção. (…) Se ele a possui numa posição absurda – risos e bravos da audiência. Se a possui numa posição de exagerada sofisticação, a audiência fica calada e analisa as imagens. Há tanta boa disposição e algazarra, que se torna difícil ouvir o eco pesado e distante da artilharia na frente vizinha. E, claro, não há maneira – não por causa de Emmanuelle, mas devido à grande distância – de ouvir o rugido dos motores da coluna blindada que se desloca ao longo da estrada.»
In: KAPUSCINSKI, Ryszard – Mais um dia de vida. 1ª ed. Lisboa : Tinta da China, 2013. pp.125, 126
Caro Pedro, sobre Angola de 1975, imediatamente antes da independência, permita-me que lhe deixe este texto:
«E em Luanda? O que há para fazer ao domingo na nossa cidade abandonada, cuja setença – como vem a saber-se já foi decidida? Pode-se dormir até ao meio-dia.
Pode abrir-se a torneira e verificar – ah!-, no caso de haver água. Pode uma pessoa pôr-se em frente ao espelho a pensar: tantas cãs que já tenho na barba.
Pode-se andar, transpirando de fraqueza e do esforço, pela Rua de Luís de Camões, em direcção ao aeroporto, ou descer até à baixa.
No entanto, isto não é tudo – também se pode ir ao cinema! É verdade, porque ainda temos um cinema, apenas um, é certo, mas é panorâmico e ao ar livre e, ainda por cima grátis. O cineteatro fica na zona norte da cidade, perto da frente de combate. O proprietário fugiu para Lisboa, mas o projeccionista ficou, assim como uma cópia do famoso filme (…) Emmanuelle. O projeccionista mostra-o em sessões contínuas, umas atrás das outras, grátis para todos, e há sempre multidões de miúdos e de soldados que chegam da frente, a lotação está sempre esgotada, há atropelos e alvoroço e uma boa disposição indescritíveis. Para realçar o efeito, o projeccionista interrompe a projecção nos momentos mais escaldantes. A rapariga está nua – interrupção. (…) Se ele a possui numa posição absurda – risos e bravos da audiência. Se a possui numa posição de exagerada sofisticação, a audiência fica calada e analisa as imagens. Há tanta boa disposição e algazarra, que se torna difícil ouvir o eco pesado e distante da artilharia na frente vizinha. E, claro, não há maneira – não por causa de Emmanuelle, mas devido à grande distância – de ouvir o rugido dos motores da coluna blindada que se desloca ao longo da estrada.»
In: KAPUSCINSKI, Ryszard – Mais um dia de vida. 1ª ed. Lisboa : Tinta da China, 2013. pp.125, 126
Grato, António. Eis um autor que nunca é de mais mencionar.