Apetites


cronicasnofeminino,

Nunca me tinha acontecido. Aconteceu-me um destes dias enquanto andava displicente de cabeça no ar, admirando salas e pormenores como se fosse a vez primeira que punha pé ali dentro e me aventurava além das fachadas imponentes, as mesmas que me acompanham há décadas, cobertas de neblina, tão góticas e tão misteriosas, e adentrava torreões e claustros prenhes de santos monumentais em esgares místicos. Assim, de repente, vindo do nada, e sei que foi enquanto andava mesmo de cabeça no ar, a vertigem breve da admiração de sempre Mas como? Como é que aqueles gajos naquela altura fizeram isto? pensamento recorrente sempre que me encontro com obras além do seu tempo. E terá sido aí que me apeteceu um livro. Apeteceu-me um livro como apetece uma peça de fruta lustrosa e voluptuosa, um naco de bolo de chocolate húmido, um copo de vinho tinto degustado à lareira em dias de invernia, e apeteceu-me tanto. Devorar palavras, galgar páginas, deglutir vírgulas e pontos e sentar-me depois tranquila e digerir o prazer de palavras e mundos. Era um vez uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez.

 

fotografia minha

Solidariedades


cronicasnofeminino,

Na sequência da comunicação de ontem de Miguel Macedo, já falada aqui e aqui, hoje foi a vez de Aguiar-Branco acrescentar os seu dois cêntimos. Diz então que, em solidariedade com os seus colegas de negregura, também ele renunciará aos mil euros, ai mil euros, o que eu dava para receber importância igual em 2012 e em 2013, lá quando são Nicolau aparece e os corpos se desnudam, que é como quem diz, no Natal e no Verão. O insólito é esta prova de solidariedade. Pensei que estávamos de tanga e que era esperado que todos fizéssemos sacrifícios e, se assim fosse, Aguiar-Branco e todos os outros não fariam mais do que é que pedido aos portugueses em geral.

Legalidade e ética


cronicasnofeminino,

O Primeiro-Ministro Passos Coelho, esse mesmo que vai extirpar alguns portugueses de uma vida condigna por uns anos, atribuiu subsídio de alojamento a nove governantes por não terem “residência permanente na cidade de Lisboa ou numa área circundante de 100 km”. Acontece que Miguel Macedo, segundo o que se diz aqui e aqui, tem casa própria em Algés e é nela que habita durante a semana. Levantada a polémica a assessoria do Ministro diz que a atribuição do subsídio é legal. Nada de novo, isso sabemos nós. O que sabemos também é que legal não significa eticamente correcto e que, nos tempos que correm e em qualquer outros, o Ministro está a fazer o que muitos outros fizeram antes dele e que contribuiu para este estado misérável de coisas: aproveitar-se indecentemente do Estado, de todos nós, do nosso dinheiro. O que se exige numa altura destas é que Passos Coelho faça o seu trabalho, respeitando tudo e todos e acabe com isto. Já.

 

Nós também estamos muito chateados, Sr. Ministro.

Óbvio


cronicasnofeminino,

Se tivessem resolvido isto e isto, talvez fosse mais fácil aceitar que não havia alternativa para a subtracção dos subsídios de férias e de Natal. Enquanto não o fizerem continuarei a achar que fui roubada e que são os papalvos de sempre a pagar.

Uns e os outros


cronicasnofeminino,

Se és funcionário público, és um merdoso manga-de-alpaca, proxeneta de todos os trabalhadores honestos e cumpridores deste país. Não fazes nada, faltas sempre que podes, recorres a atestados médicos falsos, tens regalias sem limites, vais passar férias para as Caraíbas com o dinheiro do vizinho, tens casas, carros, telemóveis, ganhas acima da média e, mau, funcionário mau e ranhoso, filho da puta mor, culpado de todos os males deste país, tens o que mereces agora. Se te reduzem o salário é porque o mereces, se te roubam o subsídio de férias e subsídio de natal por tempo que se prevê indefinido, é bem feito. Querias o quê, ó chulo de merda? Não interessa que tenhas filhos ou compromissos, sim quem te mandou, ó presunçoso projecto de gente que ainda tem o topete e a ousadia de ter vida como os outros? Reduz-te à tua insignificância de capacho onde a elite produtora deste país limpa os cumpridores pés.
Se trabalhas para o privado, és um lindo cumpridor. Chegas a horas, um modelo de pontualidade e eficiência, não vais para o Facebook e blogues em tempo de trabalho, arfas e abanas o rabo à passagem do chefe, trabalhas com afinco e empenho, és eficiente e produtivo, ajudas e participas na construção deste país, não vives acima das tuas possibilidades, carregas contigo um velho telemóvel dos anos 90, e és tu, meu lindo menino, coisinha linda da mãe, ó minha fofurinha eficaz, séria e competente, que estás a levar o país para a frente e a acarretar com essa massa indigna e rasteira de funcionários públicos, os tais que merecem tudo o que têm agora e ainda mais.
E no meio destes dois não há mais nada. É fácil conclui-lo pelas caixas de comentários deste blogue. Lamentavelmente.