Apetites


cronicasnofeminino,

Nunca me tinha acontecido. Aconteceu-me um destes dias enquanto andava displicente de cabeça no ar, admirando salas e pormenores como se fosse a vez primeira que punha pé ali dentro e me aventurava além das fachadas imponentes, as mesmas que me acompanham há décadas, cobertas de neblina, tão góticas e tão misteriosas, e adentrava torreões e claustros prenhes de santos monumentais em esgares místicos. Assim, de repente, vindo do nada, e sei que foi enquanto andava mesmo de cabeça no ar, a vertigem breve da admiração de sempre Mas como? Como é que aqueles gajos naquela altura fizeram isto? pensamento recorrente sempre que me encontro com obras além do seu tempo. E terá sido aí que me apeteceu um livro. Apeteceu-me um livro como apetece uma peça de fruta lustrosa e voluptuosa, um naco de bolo de chocolate húmido, um copo de vinho tinto degustado à lareira em dias de invernia, e apeteceu-me tanto. Devorar palavras, galgar páginas, deglutir vírgulas e pontos e sentar-me depois tranquila e digerir o prazer de palavras e mundos. Era um vez uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez.

 

fotografia minha

8 comentários em “Apetites”

  1. Foi uma das obras de Saramago que mais gosto me deu ler. Verdadeiramente notável, sendo que, de todas as que li, talvez “O Evangelho…” seja de todas a mais bela. Degustar livros é bom, não é?

  2. saramago não construiu o convento de mafra, não o tornou mais belo, mas tornou-o “mais nosso”.

    é tão raro alguém lembrar isso. e o seu post fez-me recordar a forma como li o memorial.
    que prazer…

    1. É verdade, Carlos. Para mim que cresci em Mafra com aquele monumento a quem nunca dei importância, o Memorial veio humanizá-lo. No dia que descrevo no texto senti mesmo uma vontade de o reler ao ter revisitado o Convento, como aqui lhe chamamos, isto quando não é o Calhau 🙂

  3. Obrigada pela recordação que nos deixa esta boa foto do imponente Convento de Mafra que tão envolvido está na obra de Saramago. Li há muito tempo o excepcional “Memorial do Convento” do qual recordo, a história de amor entre Blimunda e Baltasar Sete-Sóis , a Passarola e pouco mais, mas, para mim ” O Evangelho segundo Jesus Cristo” superou aquele; de momento revisito Saramago na obra ” O Ano da Morte de Ricardo Reis” que já se tornou no livro que anda sempre por perto, a jeito de … a qualquer momento se lhe poder pegar, o que me leva a concluir que por alguma razão dizem ser a melhor obra do autor, cujas outras obras não me suscitaram tanto ou nenhum interesse/gosto. De facto, Saramago… tornou o Convento mais nosso como é referido por C.C.
    A excelente perspectiva do belíssimo convento, trazida aqui por L. Barros, que cumprimento, levou-me a este divagar que certamente não era o propósito da autora do post.

    1. É um prazer e uma honra que os meus posts levem os comentadores a divagar e a sentir, Ana. Eu é que agradeço. Além do Memorial do Convento, gosto muito d ‘As Intermitências da Morte. Estou agora curiosa com Clarabóia até pela distância. Muito obrigada e volte sempre.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *