Um problema Gordillo


Rui Rocha,

Sanchez Gordillo e outros sindicalistas apoderaram-se de bens alimentares em supermercados do sul de Espanha com a intenção declarada de os distribuírem por pessoas carenciadas. A acção tem diversos níveis de enquadramento. Se cingirmos a análise à óptica da relação entre esses agentes e as empresas de onde os bens foram retirados, estamos, naturalmente, perante um delito. Se valorizarmos o aspecto da relação com os cidadãos em geral, nomeadamente com os eleitores, concluiremos que se trata de uma acção demagógica (atenho-me à definição de demagogia que remete para discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político). Todavia, ter em conta apenas a dimensão ilícita ou demagógica destes actos é perder, voluntária ou involuntariamente, uma parte da questão. O que está em causa é, para além do mais,  uma crise do poder. Do poder do Estado e de tudo quanto está na sua órbita. Uma crise que desperta nas pessoas simples (como diria Passos Coelho) um sentimento de indignação que a maior parte ainda vai engolindo em seco. Esse sentimento relaciona-se com a apropriação do Estado por uma clique cujo objectivo único é a satisfação de interesses próprios que se realizam apesar do interesse comum. Uma ferida aberta na relação entre os cidadãos e o Estado de onde vai supurando cada vez mais desconfiança. Uma ferida por onde é fácil que se infiltrem agentes oportunistas como Sanchez Gordillo. Que Sanchez Gordillo pague então pelo seu delito e que se desmonte publicamente a sua intenção. Mas que não se esqueça que a ferida está aí. Em Espanha como em Portugal. E que se tenha em conta que quanto mais pagarem os Gordillos, mais legítimo será perguntar quanto pagaram os outros. Os que não assaltam mercearias à luz do dia, nem praticam demagogia com a distribuição de alimentos. O problema essencial é pois esse de saber quanto pagaram até agora os políticos desbragados, os ideólogos da promessa fácil feita para não ser cumprida, os compinchas venais e os protegidos do regime por toda a sua desmedida cupidez. O problema não é pois declarar a ilegitimidade dos actos de Gordillo. O problema é constatar  que a legitimidade dessa declaração depende mais da autoridade formal do Estado do que da sua autoridade moral.

Ainda sobre a pena de morte


Rui Rocha,

A execução de uma pena de morte implica sempre o regresso a um estado de barbárie. A boa discussão não é aquela em que se questiona a pena de morte quando ela é aplicada a alguém privado da capacidade básica de querer e entender, como alguns alegam que aconteceu hoje no Texas. Aliás, neste tema não há boas discussões. A única posição aceitável é a negação radical da pena de morte em qualquer circunstância, mesmo naqueles casos em que os crimes cometidos são tão hediondos que despertam em nós a vertigem de fazer Justiça com as nossas próprias mãos. A oposição à pena de morte não acrescenta nada à indignidade de quem comete certos crimes. Mas diz tudo sobre a dignidade da comunidade que se opõe à execução.

Em busca da produtividade


Rui Rocha,

A produtividade é o Santo Graal da economia portuguesa. Todos a procuram mas ela não se deixa encontrar. Agosto é uma boa altura para falar dela. Para uns, a causa da baixa produtividade portuguesa é a indolência (ou mesmo a malandrice) dos trabalhadores. Para outros, é o sistema de ensino que não prepara profissionais qualificados. Muitos referem os custos de contexto e a incapacidade de o Estado fazer a sua parte, nomeadamente ao nível da burocracia e da celeridade da Justiça. Outros tantos referem a falta de visão dos empresários. Vejamos todavia alguns dados interessantes. O quadro seguinte, obtido aqui, compara Portugal com a média da UE a 27 em alguns aspectos: 

 


Por outro lado, o gráfico seguinte, obtido aqui, ilustra a produtividade média em 20 países da UE tendo em conta o número de trabalhadores das empresas:

 

Ou seja, em geral, a produtividade cresce com a dimensão da empresa. Portugal, todavia, emprega 80,9% dos trabalhadores em PME (a média é de 66,9% na UE a 27). Ora, isto não é um problema de qualificação ou de produtividade individual de cada um dos trabalhadores. E dificilmente poderá ser responsabilidade do próprio Estado. Será, em boa parte, uma condicionante de contexto relacionada com a dimensão do próprio mercado. Mas, é muito provável que seja, antes de mais, uma questão cultural relacionada com os próprios empresários. Não de falta de visão, como é usual referir-se. Mas, ao contrário, de excesso de visão. De muitos empresários se considerarem capazes de financiar, gerir e fazer crescer os seus negócios sozinhos. De se verem maiores do que aquilo que na realidade são. E de serem incapazes de juntar forças com outros para ganharem dimensão, explorarem mercados mais amplos, aumentarem a produtividade, tornarem-se competitivos e assegurarem a viabilidade dos seus negócios. Esta é, apenas, uma das vias de análise. Todavia, não parece fazer menos sentido do que defender que a competitividade da economia portuguesa beneficiará muito com a diminuição do número de feriados.

Ligaram a máquina de lavar


Rui Rocha,

Estamos a falar de dinheiro, muito dinheiro, que ao longo de anos saiu ilegalmente de Portugal. Desde património que saiu depois do 25 de Abril até rendimentos escondidos incluindo, suspeita-se, rendimentos ilícitos. Estamos a falar de dinheiro não declarado ao Fisco, de capitais que saíram pelas enormes nesgas dos sistemas financeiros e dos seus intermediários. Com esta amnistia fiscal, mais de 2,7 mil milhões de capitais que tinham fugido ilegalmente de Portugal vieram, nas últimas semanas, absolver-se de culpa. 2,7 mil milhões. É mais do que o Estado corta este ano em pensões e salários dos funcionários públicos. 


Pedro Santos Guerreiro, no editorial de hoje do Jornal de Negócios

Férias remuneradas


Rui Rocha,

Daqui a uns dias, iniciarei um período de 15 dias úteis de férias remuneradas. São a contrapartida de um ano de trabalho. Mas são também o resultado de centenas de anos de lutas políticas e sindicais. E se é verdade que o sentimento actual é de desilusão com políticos e sindicalistas, que sinto que uns e outros perderam algures o fio da história e que não me revejo no modelo da luta de classes que constitui o mainstream do movimento sindical, devo todavia reconhecer que sem essa luta histórica não teria sido possível alcançar algumas das marcas de civilização que  caracterizam o mundo do trabalho actual. E mais. Perto de vinte anos de experiência profissional em diversas empresas deixam-me a certeza de que o equilíbrio entre os interesses de trabalhadores e o dos empregadores nunca seria possível se fosse deixado ao critério destes últimos. Agora que está quase a chegar a minha vez de gozar férias, nada mais justo do que reconhecê-lo.

O politicamente correcto chegou à secção de brinquedos?


Rui Rocha,

 

A Harrods acabou de inaugurar a primeira secção de brinquedos que será, alegadamente, de género neutro. No  Toy Kingdom, ao contrário do que costuma suceder, os brinquedos estão organizados por temas e não por género. A remodelação implicou um investimento de vários milhões de libras e foi conduzida por uma empresa especializada. O espaço inclui uma floresta encantada, um mundo de brinquedos em miniatura e uma sala de leitura. A julgar pelas fotografias, todavia, trata-se sobretudo de um golpe de marketing que visa aproveitar a onda dos jogos olímpicos e a vaga do politicamente correcto. Sem levar esta última, todavia, às últimas consequências. Na verdade, se virmos bem, se o espaço quer ser neutro, os brinquedos são os de sempre. Ali estão de um lado os carrinhos e os tractores e do outro as Hello Kitty cor-de-rosa. E também não falta a loja das guloseimas, questionando as regras elementares da alimentação saudável…