A Síndrome de Évora


Rui Rocha,

A mente humana, sabemo-lo, é capaz de produzir determinadas anomalias como estratégia de sobrevivência. Na Síndrome de Estocolmo, por exemplo, a vítima de cativeiro desenvolve um estado psicológico em que cria laços afectivos com o agressor. Não espantaria, portanto, que as notícias que chegam de Évora constituíssem uma nova manifestação dessa Síndrome já razoavelmente descrita. José Sócrates teria desenvolvido, eventualmente, uma especial afeição ao juiz Carlos Alexandre, ao Director do Estabelecimento Prisional ou (o que sabemos nós dos caminhos tortuosos da mente?) a algum carcereiro.  E estaria, por isso, inclinado a rejeitar, contra qualquer racionalidade (um pombo anilhado com movimentos restritos ao perímetro de um pombal é relativamente mais livre do que um pombo confinado a uma gaiola), uma forma mitigada de privação de liberdade. Todavia, uma análise mais detalhada revela que o tipo de anomalia aqui presente não corresponde à descrição da Síndrome de Estocolmo. Vejamos. Sócrates procurou, desde o princípio, passar para a opinião pública a ideia de que era um prisioneiro político. Ora, a encenação desse drama convive mal com a imagem de um pequeno-almoço em roupão na Rua Castilho ou, para nos mantermos fiéis ao guião, numa mansão cedida a título gratuito por algum amigo. Portanto, confirmada a decisão de não aceitar a prisão domiciliária, estamos, é certo, perante uma anomalia ditada por uma estratégia de sobrevivência. Mas, ao contrário do que acontece na Síndrome de Estocolmo, não temos aqui qualquer tipo de afeição pelo agressor, mas antes uma lealdade exacerbada de Sócrates a si mesmo. Se virmos bem, trata-se do entumescimento do eu socrático, agora enquanto réu e, mais do que isso, refém de si próprio: um Sócrates preso, com a porta da cela aberta, mas algemado ao espelho onde contempla a sua imagem de perseguido. A solidariedade absoluta de Sócrates com a estória que construiu. Uma escalada formidável de compromisso. Uma espécie de Mito de Narciso encrustado nas grades da prisão. Em suma, um fenómeno épico de auto-ejecção da realidade que, à falta de melhor, designaremos por Síndrome do Prisioneiro 44 ou, simplesmente, por Síndrome de Évora.

Presidenciáveis (Edição FIFA)


Rui Rocha,

Certo. O ponto a que a FIFA chegou impõe alterações profundas. Mas poder-se-á, num organismo desta natureza, pura e simplesmente apagar o passado, pôr-se o contador a zero? Há certamente vantagens numa revolução na continuidade. Para isso, há um nome que pode destacar-se dos demais. Nem mais nem menos do que o nosso Cristiano Ronaldo. Haverá então alguma coisa de comum entre Blatter e CR7? Deve haver. E, se houver dúvidas, é perguntar à Irina.

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Presidenciáveis (Edição FIFA)


Rui Rocha,

Como se sabe, a FIFA encontra-se em profunda convulsão. A carreira de um dirigente do órgão que supervisiona o futebol mundial tem, hoje em dia, dois momentos marcantes: o caminho começa com a eleição para a FIFA e depois, mais tarde ou mais cedo, acaba na prisão. De entre os muitos candidatos possíveis, José Sócrates afigura-se, no momento presente, como o melhor preparado para inverter este percurso.

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Carta ao Padre Portocarrero de Almada


Rui Rocha,

Reverendo Padre Portocarrero de Almada,  

Li com atenção o texto lúcido que haveis publicado sobre o Diabo. Através dele cheguei finalmente à explicação para uma questão que me atormentava: se Deus é bom e tudo criou, como pode ele ter criado o Diabo? E desta dúvida a questionar a própria existência do Diabo era, ai de mim, apenas um passo. O vosso texto, bondoso sacerdote, derramou definitivamente luz sobre o assunto. Antes de mais, fiquei com a certeza de que o Diabo existe. Pois se vós assim o afirmais, que mais dúvidas podem subsistir? O tema é de suma importância e vós não irieis mentir sobre tão melindroso assunto, isso está claro. O Diabo existe e pronto. E devo dizer-vos que ver assim confirmada a sua existência me deixa muito aliviado. Isto é, a ver se me explico para não ser mal interpretado. Não é que eu fique contente com o facto de o Diabo existir, valha-me Deus. Mas, se tem de existir, então que se assuma que é assim. O pior de tudo é andar na dúvida. Como eu andei até esbarrar no vosso texto: existe, não existe, é isto obra do Diabo ou estará a minha sogra a agir sozinha? Agora que vejo tudo com meridiana clareza até me custa perceber como pude ser tão imbecil: era humanamente impossível que uma mulherzinha de pouco mais de metro e sessenta pudesse acumular por si só tanta ronha. A segunda revelação que me haveis trazido com as vossas palavras sabiamente escritas é a solução para a tal questão que me acompanhava: Deus é efectivamente bom. E, por isso, todos somos ontologicamente bons. Incluindo o próprio Diabo. E a minha sogra. Outra coisa são as acções. O problema, assim o haveis esclarecido sem margem para dúvidas, não é de fabrico. É de utilização. Deus pode ir à sua vida ilibado de quaisquer acusações. Fez o que tinha de fazer e fez bem feito. Agora que ninguém o chateie. Até pode estar a jogar Candy Crush que não temos nada com isso.  A terceira boa notícia é a de que as possessões têm cura. Eu já tinha lido que Padre Sousa Lara  fazia exorcismos à sexta-feira nas traseiras do Santuário de Lamego. Não fiquei muito convencido porque na entrevista também dizia que o Sousa Lara júnior gostava de Coca-Cola. Mas, agora que o haveis confirmado, já não hesito. Dá-me ideia que o caso da minha sogra não vai lá só com orações. Para a semana, meto-a na carreira e vai até Lamego. Algo me diz que a coisa está tão avançada que vai ser preciso amarrá-la à cama. Mas nestas coisas não podemos vacilar. Faça-se o que tiver de ser feito. Agora, bondoso padre, confesso-vos que tenho comigo uma outra grande inquietação que sinto dever partilhar convosco. Contra o vosso sábio conselho, fiz aquela coisa do Charlie mexicano através da internet. Eu bem sei que o Diabo tem barbas. Mas confesso que fiquei muito surpreendido quando chamei por ele e o que me apareceu foi isto:

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