Conto de Natal


Rui Rocha,

Uma Câmara Municipal deste nosso paraíso de perfil atlântico assumiu o desafio de celebrar em grande a quadra natalícia. Ideias, projectos, brainstormings e, tudo somado, manda-se vir, de paragens distantes e nevadas, duas renas. Das verdadeiras, com os respetivos chifres e tudo. Tudo correndo como planeado, os cervídeos desfilariam em parada triunfal pelas ruas da pequena cidade, puxando um trenó onde estaria principescamente instalado o Claudino, exímio entornador de copos de três, aqui em vezes de Pai Natal. E o Presidente da Câmara ali estaria, da varanda concelhia, a observar tudo com ar bonacheirão, como quem diz que se divirta o meu querido povo. O problema é que o estupor do Rudolfo, que a sermos sinceros nem tinha nariz vermelho e nem Rudolfo se chamava, foi de bater a bota na véspera do grandioso desfile. Esticou o pernil, se é que me entendem. Vai daí, reunião do executivo municipal no meio de grandessíssima urgência. Vereadores desesperados, crises, chiliques, desmaios. Tentou-se de tudo. Uma rena só puxa o trenó? Testes feitos conclui-se que não. No último ano, o Claudino levou o papel a sério e não há rena desacompanhada que puxe o veículo abundado com semelhante barriga. No meio do desespero, um milagre (não é este precisamente o tempo propício à eclosão de todo o tipo de deslumbramentos e maravilhas?): um Vereador vê a luz como se fosse uma estrela a mostrar a todos o caminho. Não há par de renas, substituem-se por cavalos. Então e a rena que sobra? Não tiramos partido dela? Tiramos, pois. Antes do desfile de trenó puxado por cavalos, o Pai Natal dá um passeio na Praça do Município com a rena pela mão. Faça-se assim então. E fez-se. Volta a pé com a multidão em delírio. Fosse toureiro o Pai Natal e teria saído em ombros com as duas orelhas e o rabo do animal. Menos mal que não é, que para desgraça já bem basta a morte do Rudolfo que afinal não o era. Há rostos felizes de Vereadores, com as bochechas vermelhas de entusiasmo e vá, também de alívio, porque houve ali momentos em que se temeu o pior. Há um Presidente da Câmara bonacheirão à varanda: safou-se de boa o Vereador Pires que se lembrou de trazer o estupor das renas. Passemos então ao desfile. O Claudino instalado. Os cavalos a postos. Povo, Veradores e Presidente a saborear o triunfo. Que iniciem a marcha os cavalos. E iniciam. E macacos me mordam se não tem chovido. E os mesmos macacos continuem a morder-me se os cavalos não escorregam e não tropeçam e não caem perante o olhar abismado do Povo, dos Vereadores e do Presidente. Temos então cavalos com ferimentos ligeiros e orgulhos com ferimentos profundos. Cancele-se o evento depressa que vem vento. Feliz Natal, Feliz Natal, Feliz Natal vamos todos para casa que se faz tarde. E pronto, foi isto. Bem sei que não é Dickens, mas concederão que é triste. Em contrapartida, é verdade e aconteceu assim, dando de barato que quem conta um conto, acrescenta um ponto. Com um bocadinho de sorte e paciência talvez encontrem no Google alguma evidência dos factos. Apenas um conselho: procurem por Natal, desfile, mas não procurem com renas no plural.

Like a Boss


Rui Rocha,

Hoje ainda não eram 8.30 e já estava na agéncia do BANIF aqui perto de casa. Custa um bocadinho levantar assim cedo, mas nestas coisas o exemplo deve vir de cima. Entrei, escolhi o maior gabinete, sentei-me, pus os pés em cima da secretária e pedi à colaboradora da caixa que me trouxesse um cafezinho. Deviam ter visto a cara dela. Que não sei quê, que chamava a polícia, que me pusesse dali para fora! Mas pronto. Temos de compreender a situação. Foi tudo tão rápido que é natural que o pessoal ainda não conheça o novo patrão.

Os espanhóis, uns meninos em matéria de amizade


Rui Rocha,

Há dias, deu brado em Espanha uma entrevista do Ministro do Interior, Jorge Fernandéz Diaz, em que este afirmou que tem um amigo imaginário, mais concretamente um anjo da guarda, a que chama Marcelo. Mais informou o Fernandéz Diaz que o dito Marcelo o ajuda a estacionar. Pelo espanto que a coisa causou, vê-se que os espanhóis estão na idade da pedra neste tipo de assuntos. Veja-se, em comparação, o caso de Portugal. Ao que parece, ainda esta noite, um antigo Primeiro Ministro que afirma que um amigo lhe emprestou uns milhões de euros com toda a naturalidade, dará uma entrevista à TVI. Amigos que ajudam a estacionar? Pfff. Estão mesmo muito atrasados.