A Spatha e o Gladius


Bandeira,

Como deve ter sido aterradora para um disciplinado legionário romano, essa visão de milhares de bárbaros inteiramente nus, deslizando nos seus escudos como snowboarders pelas pistas nevadas dos Alpes, os corpos e os cabelos pintados e urrando como alguém que acaba de descobrir que lhe cobraram duas garrafas a mais na conta do restaurante. Mas suponho que o efeito se diluísse um pouco após a primeira carga do inferior ferro celta no scutum romano. Imagine um gigante – quero dizer, gigante quando comparado com um legionário baixinho: com 1,60m um romano já arranjava namorada –, guedelhudo, pintado com motivos de papel de parede do início dos anos 70, meio enterrado na neve, querendo muito emprestar alguma dignidade ao acto de tentar endireitar a lâmina da sua espada.

The times they are a’changin’


Bandeira,

Escorrego na calçada molhada e quase caio, mas aguento-me. Um taxista pára o carro, abre a janela do passageiro e diz “Grande tombo que ia dando, hã?”, e eu querendo fugir ao dilúvio, “Pois, mas não houve azar”, e o enorme bigode insistindo, “Não pisou merda, era o chão mesmo, ali não havia merda”, e eu já ensopado, “Pois não, obrigado pelo cuidado”, e ele “Estava a ver que tinha de ir levantá-lo do chão”, e eu a pensar que já cá faltavam a cultura clássica e a literatura.

E isto para não chegar a lado nenhum


Bandeira,

José Bandeira - Pilos, Messénia, Grécia
Região de Pilos, Messénia, Grécia (Foto José Bandeira) 

Garantir que os gregos não inventaram a democracia como hoje a conhecemos é dizer que os sumérios não inventaram a jante de liga leve. Depois de uns Bushmills dá para aceitar, mas há necessidade? Fiel a mim mesmo, serei pedante e lembrarei que até os romanos, cuja civilização em certa medida se construiu contra a dos gregos (leia a Eneida outra vez, vá), perceberam a relevância do tremendo legado. E se Popper apodou Platão de totalitarista, não deixou de escrever também que a primeira filosofia grega era quase “demasiado boa para ser verdade”.

 

Em Os Cavaleiros, o poeta (muito) cómico Aristófanes arrasa Cléon, o grande demagogo da democracia ateniense. Eleito em acalorada discussão comandante militar, Cléon acabara de chegar de Pilos com mais de trezentos espartanos acorrentados e, sobretudo, humilhados; gente nada habituada a tratos de polé. Eis que a cidade se vê já a vencer a guerra (se quer saber, não a venceu) mas Aristófanes arrasa o seu próprio líder, ao mesmo tempo que retrata os seus conterrâneos, o povão ateniense, com condescendência aristocrática (quase todas as fontes que nos chegaram do período democrático, incluindo Aristófanes, são de certa forma hostis à democracia, quando não admiradoras confessas do regime totalitário em vigor em Esparta). Superando uma ou outra dificuldade – o autor queixa-se de não ter encontrado quem se dispusesse, com receio de represálias, a fazer-lhe uma máscara de Cléon –, a peça foi a concurso no teatro de Dioniso e ganhou o primeiro prémio.

 

O primeiro prémio! Mas então esse Cléon, tratado na aba da Acrópole de corrupto e ladrão por um poeta cómico aplaudido por uma multidão em delírio, perdeu o poder, certo? É claro que não. O mesmo povo que deu o primeiro prémio a Aristófanes colou as costas do seu demagogo ao espaldar da cadeira do poder. Pelos padrões de hoje, tudo perfeitamente normal. Até na parte em que Aristófanes, apesar de um processo ou outro nos tribunais, se permitia usar de liberdade de expressão, uma coisa que a gente se habituou a achar muito recente, muito nossa, muito luxo de primeiro mundo.

 

Não a percam jamais


Bandeira,

Amigos do serviço de urgência do Hospital de S. Francisco Xavier: Não me conheceis, nem isso importa; sou filho da velhinha que foi deixada ao vosso cuidado por dois diligentes bombeiros ao princípio da chuvosa noite de ontem, vítima de um desmaio e subsequente queda que lhe rasgou um corte feio na cabeça e fez perigar o recobro das intervenções duras que a senhora havia sofrido, semanas antes, noutro hospital. Durante todo o tempo que a minha velhinha passou no interior do vosso serviço, entre análises e exames de imagiologia, percebi – no fundo já o sabia – o quanto são duras as vossas tarefas, difícil o trato humano. Sempre que tenham de lidar com uma velhinha assustada, um alcoolizado violento, um acidentado grosseiro ou um adolescente em pânico, por favor sintam o meu respeito e admiração. Obrigado por terem tratado a minha velhinha como se fora a vossa velhinha; por esse vosso espírito estranhamente jubiloso que vos permite acumular lucidez para os momentos mais difíceis; e sobretudo pela vossa gentileza, a vossa incomensurável gentileza: não a percam jamais.

À Humanidade


Bandeira,

Porque John Donne está a morrer, ele escreve algumas Lamentações; nelas se queixa inclusive de que as dores o impedem de gozar na sua plenitude a experiência da morte. Escreve que “nenhum homem é uma ilha” e outras coisas lindas, quase sempre porém melancólicas e tristes.
Séculos depois, Hemingway usa em prefácio um trecho da 17a Lamentação, algo como: “Não perguntes por quem dobram os sinos; eles dobram por ti”. Com isto queria Donne dizer que partilhava da Humanidade, e que morrendo um qualquer homem morria Donne um pouco também (já Terêncio, por outras palavras, sugerira algo assim).
Em Hollywood fez-se um filme e o trecho prosaico da Lamentação de Donne ficou na memória que hoje sói chamar-se colectiva, muitas vezes tomado por verso, porque Donne era, antes de prosador morrendo, um poeta; e os poetas, não sendo ilhas, serão talvez penínsulas.
À Humanidade, uma Páscoa feliz.

As coisas que começam e as coisas que acabam


Bandeira,

Eu teria uns dezanove ou vinte anos e queria muito escrever em jornais, mais até do que desenhar, talvez porque desenhar sempre soube e desenho melhor do que parece (perdoe este momento de soberba que pagarei em rigorosos planos prestacionais aos balcões da Eternidade); sucede que devemos reservar o melhor do que sabemos para mostrar às mães nas horas difíceis.

Já a escrever eu não nasci ensinado; foi o professor Branco, digníssimo avô de branquíssimas cãs e alvíssima bata (como um anjo de alguma idade) do actual reitor da Universidade do Algarve, quem me deu o privilégio — jamais esqueça que saber escrever é um privilégio — das primeiras letras, na escola número 33 do bairro lisboeta de Alvalade.

Mas tergiverso, perdoe, perdoe. Dizia eu que teria uns dezanove ou vinte anos e um dia chegou o convite do homem magro de brasão ao peito e cabelo empastado. Não desdenhe, na altura usava-se muito e agora talvez se volte a usar se o Vitória ganhar o campeonato. O convite era para um encontro e o encontro foi num dos bares do casino do Estoril; eu faltei à faculdade porque oportunidades assim não as havia todos os dias. Eu não tinha fato mas levei camisa, o que decerto deixou o empresário impressionado; tive também o cuidado de estacionar o velho Austin bem longe para que não se percebesse o quanto estava enferrujado, tanto que do lado do morto já não havia onde poisar os pés — alguns amigos mais sensíveis ainda se lembram disso, o asfalto correndo sob os pés deles e os calafrios bons que isso lhes causava.

O empresário pediu, digo, exigiu o seu uísque “em balão aquecido” e eu, ignorante que era das coisas do mundo, uma simples cerveja: sabia lá quanto custava um uísque. Eu fazia parte da categoria social a que então se dava o nome de “remediada”. Tinha uma única nota no bolso, acho que de 500 escudos, para gasolina e uma ou outra necessidade.

O cavalheiro, quero dizer, ele e “uns investidores ali do Estoril”, queriam lançar um semanário e contavam com o meu talento (como era ralo, o meu talento!) para escrever e ilustrar duas páginas “para a juventude”. Em poucos meses, “máximo um ano”, o mercado — ao tempo não se dizia “mercado”, seria a mesma coisa com outro nome qualquer — era nosso. Eu estava comprado e vi os tons azuis e a gravata riscada de vermelho do homem magro erguer-se para dar por terminada a conferência. Então ele levou as mãos aos bolsos, pôs uma expressão contrafeita e disse, com ar de importância nenhuma, “Zé, não sei onde deixei a carteira, pague aí o meu uísque, sim?”

Paguei, lívido mas paguei; e voltei para Lisboa pela marginal — ainda não havia a A5 — rezando a santinhos em que não acreditava para que se não me acabasse a gasolina.

O jornal saiu quê, dois ou três números, depois fechou, foi como se nunca houvera existido, nem do título me lembro, nunca percebi o que sucedeu e eu se recebi alguma coisa foi uns tostões, que aliás não mereceria pelos meus méritos literários ou artísticos.

Mas até hoje, sabe, venho pagando esse uísque.

O Congresso


Bandeira,

Imaginei que o grande Braga cobria o congresso:
“Depois de dois dias de debates ficou assentado que Portugal é um lindo país. Também se deliberou, depois de vários oradores, que estava um clima muito agradável. A palestra foi decaindo, então, para assuntos muito escabrosos – discutiu-se até política.”