Eu teria uns dezanove ou vinte anos e queria muito escrever em jornais, mais até do que desenhar, talvez porque desenhar sempre soube e desenho melhor do que parece (perdoe este momento de soberba que pagarei em rigorosos planos prestacionais aos balcões da Eternidade); sucede que devemos reservar o melhor do que sabemos para mostrar às mães nas horas difíceis.
Já a escrever eu não nasci ensinado; foi o professor Branco, digníssimo avô de branquíssimas cãs e alvíssima bata (como um anjo de alguma idade) do actual reitor da Universidade do Algarve, quem me deu o privilégio — jamais esqueça que saber escrever é um privilégio — das primeiras letras, na escola número 33 do bairro lisboeta de Alvalade.
Mas tergiverso, perdoe, perdoe. Dizia eu que teria uns dezanove ou vinte anos e um dia chegou o convite do homem magro de brasão ao peito e cabelo empastado. Não desdenhe, na altura usava-se muito e agora talvez se volte a usar se o Vitória ganhar o campeonato. O convite era para um encontro e o encontro foi num dos bares do casino do Estoril; eu faltei à faculdade porque oportunidades assim não as havia todos os dias. Eu não tinha fato mas levei camisa, o que decerto deixou o empresário impressionado; tive também o cuidado de estacionar o velho Austin bem longe para que não se percebesse o quanto estava enferrujado, tanto que do lado do morto já não havia onde poisar os pés — alguns amigos mais sensíveis ainda se lembram disso, o asfalto correndo sob os pés deles e os calafrios bons que isso lhes causava.
O empresário pediu, digo, exigiu o seu uísque “em balão aquecido” e eu, ignorante que era das coisas do mundo, uma simples cerveja: sabia lá quanto custava um uísque. Eu fazia parte da categoria social a que então se dava o nome de “remediada”. Tinha uma única nota no bolso, acho que de 500 escudos, para gasolina e uma ou outra necessidade.
O cavalheiro, quero dizer, ele e “uns investidores ali do Estoril”, queriam lançar um semanário e contavam com o meu talento (como era ralo, o meu talento!) para escrever e ilustrar duas páginas “para a juventude”. Em poucos meses, “máximo um ano”, o mercado — ao tempo não se dizia “mercado”, seria a mesma coisa com outro nome qualquer — era nosso. Eu estava comprado e vi os tons azuis e a gravata riscada de vermelho do homem magro erguer-se para dar por terminada a conferência. Então ele levou as mãos aos bolsos, pôs uma expressão contrafeita e disse, com ar de importância nenhuma, “Zé, não sei onde deixei a carteira, pague aí o meu uísque, sim?”
Paguei, lívido mas paguei; e voltei para Lisboa pela marginal — ainda não havia a A5 — rezando a santinhos em que não acreditava para que se não me acabasse a gasolina.
O jornal saiu quê, dois ou três números, depois fechou, foi como se nunca houvera existido, nem do título me lembro, nunca percebi o que sucedeu e eu se recebi alguma coisa foi uns tostões, que aliás não mereceria pelos meus méritos literários ou artísticos.
Mas até hoje, sabe, venho pagando esse uísque.

Talvez tenha tido menos azar ainda fez alguma coisa que pode colocar no currículo.
Quando são reuniões, mais reuniões e mais ainda mais reuniões para depois tudo acabar em nada. E no fim não há coisa alguma. Nada.
É certo, lucklucky. Duas palavras, sozinhas, resolviam tudo: decência, respeito. Abraço
Não há dúvida que foi uma canalhice mas por vezes em vez de calar por vezes vale picar serio com humor. Talvez pudesse ter feito um cartoon sobre a situação?
Provavelmente fiquei sem dinheiro para papel e tinta 😉
Que bela crónica, Zé. Dava para mote de uma série sobre o chico-espertismo tuga. Muita coisa muda, mas isto não.
Em mais de 30 anos de carreira perdi a conta a episódios deste calibre, e a alguns bem piores, amigo. Como disse ao comentador acima, é tudo questão de decência e respeito. Forte abraço
Istória engraçada e bem contada.
Pessoa chique que marca encontro em casino mas na hora de pagar o seu wisky não tem a carteira? Sei… era para ter fugido logo e dito Não obrigado.
Sim, o algodão não engana… abraço