Cravo & Ferradura, José Bandeira/DN
Consultando Costa
Bandeira,
Plutarco: Vida de Sólon (Vidas Paralelas)
Há uns
2600 anos (tanto assim? Como o tempo passa), já havia em Atenas sérios problemas de endividamento. Flagelados por um sem-número de contrariedades, muitos cidadãos não conseguiam pagar luxos como cereais e coisas assim, e viam-se reduzidos pelos seus credores à condição de escravos.
Temendo os episódios sanguinolentos e, sobretudo, as competições de lira que sempre acompanhavam os períodos de ruptura na Grécia antiga, os atenienses, pobres como ricos, concordaram em pedir a Sólon (um dos sete sábios da antiguidade – à data ele ainda não havia ganho o concurso, mas os conterrâneos tiveram olho) para reformar as leis da cidade e restaurar a periclitante paz social.
Sólon aceitou, mas impôs letras pequeninas: por um período de dez anos, nem um iota das suas leis poderia ser alterado sem que antes lhe fosse solicitado um parecer. Os atenienses acolheram a cláusula com um encolher de ombros (o parecer era de graça, hoje isso não aconteceria) e pelas costas riram-se muito e disseram que ele era um narigudo picuinhas, mas com carinho.
O legislador pôs mãos à obra e substituiu a maior parte das leis de Draco, que condenavam um grego à morte por cortar uma unha, mesmo que fosse sua, por outras menos, enfim, draconianas. Criou novas classes de censo baseadas na capacidade de produção agrícola e já não no nascimento; proibiu a escravidão por dívidas; por fim (a inovação foi aqui, preste atenção a este precedente histórico), anulou todas as dívidas existentes à data – quem devia alguma coisa ficou a dever coisa nenhuma.
Os cidadãos escravizados foram libertados e ficaram contentes. As grandes famílias da aristocracia perderam privilégios e ficaram possessas. Os pobres queriam mais direitos políticos e ficaram chateados. Os ricos ficaram um pouco menos ricos – e furiosos.
Então Sólon desligou o telemóvel e viajou para parte incerta por um período de dez anos.
Henry David Thoreau: Walden, ou A Vida nos Bosques
Dantes, isto é, no tempo de Dante e precedentemente, a vida podia ser chata mas as pessoas sentiam-se em harmonia com a natureza; e tirando a servidão, as pragas, a guerra ininterrupta, o ocasional enforcamento e a fraca qualidade dos transportes públicos, ò, eram felizes.
Henry David Thoreau (1817-1862) quis saber o que era isso de “natureza” e construiu com as próprias mãos (e alguma madeira) uma cabana no bosque, “completamente isolada da civilização”, nas margens de um laguinho no Massachusetts.
Lendo Walden, o livro em que Thoreau relata a sua experiência – e que é uma delícia, note, contendo inspiradíssimas considerações poéticas sobre os reflexos no lago ao anoitecer e coisas interessantes sobre peixes e análises económicas, etc. –, apura-se que o eremita ia todos os dias à cidade mais próxima, não dispensava a leitura do jornal e as “visitas de estudo” aos agricultores da região (à hora de jantar, coincidência, coincidência). Mais: garantem os maledicentes que ele se abastecia de uísque, empadão de cabrito e tartes de maçã em casa da mãe (que ficava a três ou quatro quilómetros) e fazia grandes noitadas de sueca à luz do candeeiro de azeite com os muitos amigos que todas as tardes, decerto por se terem perdido, lhe tropeçavam no barraco.
Mas não desdenhe, anacoreta leitor, não desdenhe: quantos de entre nós podem dizer que plantam a sua própria batata? Eu não, compro tudo na mercearia paleo mais próxima de mim.
Ambrose Bierce: The Devil’s Dictionary
As primeiras entradas do dicionário satírico de Ambrose Bierce, jornalista e autor (quando não estiver seguro quanto ao que alguém fez ou não fez e não lhe apetecer ir conferir, escreva “autor”), surgiram em 1881, no hebdomadário The Wasp, de São Francisco.
Após carreira irregular na imprensa, o dicionário viria a ser publicado em 1906 sob o título The Cynics Word Book, “um nome que o autor não teve o poder de rejeitar nem a felicidade de aprovar” (do prefácio do próprio Bierce, ou talvez do diabo, jamais o saberemos) e que se terá ficado a dever a pruridos religiosos do editor. O senhor das moscas, naturalmente, achou graça a isso e fez brotar das profundezas dos infernos legiões de Cynic books fraquinhos, muito lamentados por Bierce e por todas as criaturas de gosto refinado pelo mau nome que deram à palavra “cínico”.
Em 1911, para grande felicidade de Bierce, o livro viria a ser publicado sob o título por que hoje o conhecemos, constituindo a alta bitola contra a qual esbarram todos os dicionários satíricos que se lhe seguiram, à excepção talvez do da Academia, que me custou 40 contos em moeda antiga e ainda hoje se ri disso.
Exemplos do rigor científico de The Devil’s Dictionary são as definições de “egoísta” (uma pessoa de mau gosto, mais interessada nela do que em mim), “rezar” (pedir que as leis do universo sejam revogadas em favor de um único peticionário, confessadamente indigno do benefício) e “dicionário” (um dispositivo literário malévolo para entravar o crescimento da língua e torná-la difícil e inelástica, sendo o dicionário de Bierce a óbvia excepção).
(Nota: está disponível edição supimpa da Tinta da China em português.)