Clássicos para a Prainha (VI)


Bandeira,

Henry David Thoreau: Walden, ou A Vida nos Bosques

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Dantes, isto é, no tempo de Dante e precedentemente, a vida podia ser chata mas as pessoas sentiam-se em harmonia com a natureza; e tirando a servidão, as pragas, a guerra ininterrupta, o ocasional enforcamento e a fraca qualidade dos transportes públicos, ò, eram felizes.

Henry David Thoreau (1817-1862) quis saber o que era isso de “natureza” e construiu com as próprias mãos (e alguma madeira) uma cabana no bosque, “completamente isolada da civilização”, nas margens de um laguinho no Massachusetts.

Lendo Walden, o livro em que Thoreau relata a sua experiência – e que é uma delícia, note, contendo inspiradíssimas considerações poéticas sobre os reflexos no lago ao anoitecer e coisas interessantes sobre peixes e análises económicas, etc. –, apura-se que o eremita ia todos os dias à cidade mais próxima, não dispensava a leitura do jornal e as “visitas de estudo” aos agricultores da região (à hora de jantar, coincidência, coincidência). Mais: garantem os maledicentes que ele se abastecia de uísque, empadão de cabrito e tartes de maçã em casa da mãe (que ficava a três ou quatro quilómetros) e fazia grandes noitadas de sueca à luz do candeeiro de azeite com os muitos amigos que todas as tardes, decerto por se terem perdido, lhe tropeçavam no barraco.

Mas não desdenhe, anacoreta leitor, não desdenhe: quantos de entre nós podem dizer que plantam a sua própria batata? Eu não, compro tudo na mercearia paleo mais próxima de mim.

0 comentários em “Clássicos para a Prainha (VI)”

      1. Não – porque escreveu que eram infelizes (servidão, tortura, guerras permanentes); tirando as pragas, tudo isto foi revisto no século XX por historiadores que estudaram a documentação, o que permitiu desmontar uma quantidade enorme de patranhas; a impostura a que se refere o título é o facto de se designar com um só nome mil anos de História, já para não falar da expressão ‘Idade Média’…
        Curiosamente, a harmonia com a natureza é que não era minimamente sentida, pelo menos até S. Francisco de Assis e ao seu belíssimo ‘Cântico do Sol’ – a natureza era algo de que tinham que se defender: secas, inundações, pragas, etc.
        E agora (sem ironia) leia o livro que vai ver que não se arrepende!

        1. (Sem ironia) já tinha lido. Muito interessante e Heers estava decerto coberto de razão, mas – como se diz em certas regiões do Brasil – êta home brabo esse, hein?

          1. Um capítulo de um livro citado pelo Heers (A Renascença, W. K. Ferguson), tem como título ‘A revolta dos medievalistas’ : já antes dele havia muito ‘home brabo’ (e mulheres também 😀 ).

          2. Maria Joana, porque o rigor histórico tem em mim bastião irredutível, alterei ligeiramente o texto. Onde se lia ‘tortura’ lê-se agora ‘a fraca qualidade dos transportes públicos’.
            🙂
            Quanto ao Heers: julgo que o problema com o livro (o tom zangado, a gente, enfim, aguenta) é o querer sobrelevar os feitos da Idade Média *contra* outras eras. porquê, por exemplo, achincalhar os feitos culturais da Atenas clássica com base apenas na tentação imperial? Ou reduzir a obra de Petrarca à virulência da luta política da época? Em que geração os aristas e intelectuais não foram pedantes? (Ò pra mim agora levando-me a sério, hora de parar;)

          3. :)))
            Neste aspecto não posso deixar de lhe dar razão! O problema é o uso da História como combate político/ideológico/religioso – este combate arrasta-se há 500 anos e vai acumulando erros sobre erros, e por mais que os estudos dos especialistas venham desmentir preconceitos, o resultado do seu trabalho não passa para o público em geral (convenhamos que os ‘maus fígados’ do Heers são compreensíveis).
            O autor que referi, a propósito dos estudos dos medievalistas no séc. XX, diz o seguinte: ‘Eles empenharam-se mais conscientemente a defender a Idade Média contra as injustas acusações formuladas contra ela desde há séculos por uma longa série de historiadores humanistas, protestantes e racionalistas que, na sua maioria, se tinham, eles próprios, exposto ao ataque, dada a sua evidente parcialidade ou a sua ignorância, não menos palpável.'(W. K. Ferguson, ‘La Renaissance(…), Payot, Paris, 1950).
            Isto foi escrito em 1950, ou pouco antes, mas as coisas não ficaram por aqui, agravando-se nos anos 70, com a história marxista – e regresso ao ‘home brabo’: (citando C. Mazauric, discípulo de Albert Soboul, a propósito duma questão de história económica), ‘…Mas só o uso do termo feudalidade para qualificar o regime de exploração feudal (o feudalismo) é progressista ao associar à definição do referente a conotação pejorativa sem a qual o trabalho histórico sobre o Antigo Regime não seria mais do que uma constatação, e não um combate.’ Constatação, descrição objectiva e análise, ou combate, tudo deriva daqui, como é óbvio. Cada um faz as suas opções.’ (188/189 da edição da ASA, 1994).
            Ó pra mim a ficar ‘braba’!

          4. Maria Joana, não tenho dúvidas quanto à justeza do combate. Eu mesmo já teria escrito sobre alguns clássicos medievais se afazeres mais prementes me não tivessem vindo coarctar as intenções. Mas eles não perdem pela demora, os clássicos, e não ficará pedra sobre pedra, será uma revolução na historiografia e na crítica literária, e nessa altura espero poder contar consigo 🙂

          5. Conte com toda a minha boa vontade!!!
            Já não direi o mesmo quanto aos meus conhecimentos – e, acredite, não digo isto por falsa modéstia.

  1. Não sei se as pessoas dantes eram felizes. A crença medieval de que nascíamos para sofrer, neste vale de lágrimas, e que a recompensa só vinha depois da morte, foi precisamente criada por a vida, nessa altura, ser quase impossível de suportar. Apesar de não haver estatísticas, arrisco dizer que haveria poucos suicídios, mas só porque o suicídio era castigado com a entrada direta no inferno. Os suicidas não tinham direito a serem sepultados nos cemitérios, nem a exéquias fúnebres.
    As pessoas não se queixariam muito, aceitavam a miséria e o sofrimento como inevitabilidade. Se isso é ser feliz… Enfim, uma questão de interpretação.

    1. A ideia dessa crença também tem mais de ficção do que de realidade; nos ‘Études d’Esthétique Médiévale’, Edgar de Bruyne cita textos dos principais autores dos séculos V a XIII, em que vemos como a Beleza é sentida como caminho previlegiado para Deus, que a criou para nosso benefício (só não aconselho a leitura do livro porque é extensíssimo e muito centrado num tema específico, e nem todos são tão tolos como eu, que sou apaixonada pelo tema).

      1. Maria Joana, eu também sou apaixonada pela época medieval e, apesar de ainda não ter lido o livro que menciona, li muito, nomeadamente, quase toda a obra do Professor Mattoso e alguns autores estrangeiros, como Robert Fossier e Arno Borst. Claro que havia gente sábia, na Idade Média, gente que apreciava a Beleza. Não, nem tudo era trevas! Havia arte, filosofia, gente erudita (como não podia deixar de ser). A prova, são as obras que nos deixaram. E muitas outras, valiosas, se terão perdido. Mas aí é que está o problema: quem sabia ler e escrever (mesmo considerando os diferentes períodos, porque, neste caso, penso que podemos considerar toda a época, desde o século V ao XV)? Se dissermos 1% da população, talvez já estejamos a exagerar; se contarmos só as mulheres, então, deveriam ser 0,001% (se tanto)! O Professor Mattoso chama precisamente a atenção para esse ponto: é um erro avaliar a vida medieval através dos escritos que pensadores e filosófos nos deixaram; até mesmo, no caso nacional, através de crónicas, como a de Fernão Lopes. Esses autores nada escreveram sobre o quotidiano, muito menos, sobre o quotidiano do povo.

        1. É aí que entra o Jacques Heers: prazos, escrituras de compra e venda, cadastros de bens, etc. – dizem muito sobre o quotidiano, deitando por terra muitas coisas dadas como assentes. Além disso, quanto à cultura, não podemos esquecer que as universidades são uma criação medieval, que Suger, o abade a quem se deve o acompanhamento pormenorizado, e posto por escrito, da primeira catedral gótica, Saint-Denis, era filho de servos, e que – quanto às mulheres – várias foram doutoras da Igreja, como Santa Gertrudes ou Santa Hildegarde de Bingen. Tenho pena de ser pré-histórica informática – se descobrir como é que se faz, ponho aqui o link duma iluminura onde se vê uma mulher a ensinar geometria a um grupo de homens.

          1. Completamente de acordo, Maria Joana!
            Em relação à época medieval, há clichés sem fim e, quando me falam das trevas, eu dou precisamente o exemplo das catedrais góticas e das universidades e, para ficar pelo nosso país, não esqueçamos que foi D. Dinis, um rei medieval, que fomentou o uso da língua portuguesa nos documentos oficiais, muito contribuindo para a sua uniformização e desenvolvimento.
            Santa Gertrudes, Santa Hildegarde de Bingen (no meu último livro, há uma personagem criada em sua homenagem, até lhe dei o nome de Hildegarda, apesar de não saber se ele existia no nosso país), Santa Teresa de Ávila, Cristina de Pisano, são exemplos de mulheres extraordinárias, que conseguiram singrar num mundo de homens. Nem precisamos de ir mais longe, pensemos na nossa D. Teresa, que muitos consideram ter sido a primeira rainha de Portugal.
            Não esqueçamos, porém, que se trata de exceções. A vida de 90% da população era de facto quase (ou mesmo) insuportável e as mulheres muito subjugadas e maltratadas.
            Diga-se, no entanto, que certos castigos e técnicas de tortura que, normalmente, são atribuídos à Idade Média, só surgiram no final desta e foram muito mais utilizados no Renascimento e noutras épocas posteriores. Mas nada disso contradiz a miséria em que vivia a esmagadora maioria da população.
            Os documentos oficias, como prazos, escrituras, etc. e, no caso português, as cartas de foral, dizem realmente bastante sobre a vida quotidiana. Por vezes, porém, por omissão. Dou um exemplo: durante décadas, os historiadores portugueses assumiram que, nas vilas e concelhos, havia mais cavaleiros (os cavaleiros vilãos) do que peões, já que as cartas de foral e outros documentos raramente referem os últimos. O Professor Mattoso é de opinião que os documentos não os referem, porque não se via essa necessidade e que a esmagadora maioria dos habitantes dos concelhos seriam peões, a viver miseravelmente, sem meios de adquirirem um cavalo.
            Uma outra fonte muito digna de crédito, segundo o Professor Mattoso, talvez ainda mais do que os documentos oficiais, são as cantigas de escárnio e mal dizer que tanto nos dizem sobre as formas de divertimento preferidas das pessoas daquele tempo, acima de tudo, sobre o que elas riam. A sátira é sempre um bom indicador das mentalidades.

            Conclusão: se nos referimos às “elites” (pessoas que sabiam ler e escrever e/ou que detinham o poder – salvo exceções) não há razões para dizer que a Idade Média foi uma época de trevas, porque a cultura também floresceu. Por seu lado, o povo comum foi sempre miserável, tendo a sua vida, no fundo, pouco se modificado, desde o século V até ao século XVIII, ou, nalgumas regiões, mesmo XIX, ou seja, bem para lá da época medieval.

          2. Apaguei, não sei como, um comentário enorme!!! Mas deixo-lhe aqui a indicação de um livro que já referi acima, ‘A Renascença no Pensamento Histórico’,de W. K. Ferguson, com os títulos dos capítulos, para a Cristina ver se lhe interessa: a primeira tradição humanista em Itália; o Humanismo e a Reforma; a tradição racionalista no séc. XVIII; a reacção romântica; a revolta dos medievalistas: a Renascença interpretada como uma continuação da Idade Média.
            O Jacques Heers escreve o livro dele num ataque de desespero, mas o Ferguson tem um distanciamento e uma frieza que chegam até a irritar…

          3. Lamento que lhe tenha desaparecido o comentário, gostaria de ter lido. Também já me aconteceu e é de dar em doida, principalmente, se é grande e o escrevemos com dedicação.

            Obrigada pela sua sugestão de leitura.

            Aproveito para fazer uma correção: Santa Teresa de Ávila, por mim mencionada, viveu no século XVI, ou seja, fora da época medieval. O título “Doutora da Igreja”, porém, entusiasma-me tanto, quando é concedido a uma mulher, que nem parei para pensar…

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