A carta dos escritores


#$&%#,

mw-860.jpg

186 escritores e uma instituição privada assinaram uma carta aberta contra “racismo, populismo, xenofobia, homofobia, emoções induzidas“, o “ataque à democracia, ao multiculturalismo, à justiça social, à tolerância, à inclusão, à igualdade entre géneros, à liberdade de expressão e ao debate aberto“. Entre eles vieram em nosso socorro 4 moçambicanos, mais alguns angolanos (3?) e vários brasileiros. Uns quantos também são bloguistas. Há autores que já li, de outros nunca ouvira falar, de uns pouco ou nada gosto e a outros muito aprecio. A alguns conheço, e até há quem me seja muito próximo. O grupo é grande, muito heterogéneo, e assim é espúrio vasculhar nomes para contestar o documento (mas apetece …) ou louvá-lo. Mas há alguns pontos do documento, dois pormenores e o fenómeno da sua recepção pública, que quero abordar. Como conversa com quem me é próximo e aquilo assinou.

1. Nesta campanha sobre “racismo” muito foi propagandeada a vigência do racismo sistémico português e do racismo de Estado (institucionalizado). Um dos documentos que mais é brandido para o afirmar é um estudo (cíclico) sobre as “representações raciais” no país – que nunca é esmiuçado pelos demagogos da “causa”. E um dos factores dessas “representações racistas” (da “racialização” alheia, como agora sói dizer-se) é o “racismo cultural”, curiosa expressão que firma como racista (e presumivelmente “populista, xenófobo, homofóbico, emotivo induzido” e quejandas falhas e malevolências) aqueles que julgam haver culturas melhores do que outras. Como tal vivemos num apartheid, segundo Miguel Vale de Almeida, o intelectual orgânico mais conhecido deste movimento. Só não reconhecido pelos “intelectualmente preguiçosos“, como consagrou.

Com efeito, ao ler esta “carta aberta” reconheço-o, a esse “racismo cultural”, vigente entre tão ilustre e empenhada comunidade. Pois quando se profere “Tais são as nossas grandes riquezas: a diversidade e a tolerância. Como o expressa a língua portuguesa, feita de aglutinação, inclusão e aceitação da diferença“, é óbvio o implícito: ainda que não usando a estafada noção “lusofonia” o texto proclama uma qualquer superioridade da nossa língua, e assim da “cultura”, dado que mais dada “à inclusão e aceitação da diferença” do que outras. Pois, se assim não fosse, se não houvesse essa graduação, para quê incluir este argumento? Ou seja, pode-se tirar o escritor do lusotropicalismo, mas não se tira o lusotropicalismo do escritor … Por mais meneios retóricos a que o grupo recorra. E vão ufanos com o textito, e com a “atitude” de o terem assinado.

2. O segundo pormenor textual – e pormaior ideológico – é este melífluo naco “apelamos … aos órgãos de justiça, que investiguem, processem e condenem os interesses económico-financeiros que se servem dos novos populismos para, a coberto da raiva e da intolerância, acentuarem as desigualdades de que sempre se sustentaram“. Não fosse a desfaçatez de quem botou isto, e a “insensibilidade” (o atrevimento?) de quem o assinou, nem deveria ser necessário grande elaboração, bastaria citar para apupar. Ou seja, num país em que o Estado foi atravessado – colonizado – pelos interesses privados, em que as sucessivas crises demonstram a patrimonialização do Estado, a influência das redes nepotistas (também muito vigentes no pequeno funcionalismo, do qual tantos destes escritores são [semi-]dependentes), e em que os obstáculos ao escrutínio judicial destes processos são conduzidos pelas elites políticas, o que afirmam os escritores portugueses e os seus colegas estrangeiros? Que “os interesses económico-financeiros” se servem dos “novos populismos”, assim deixando de fora a efectiva perversão do regime democrático levada a cabo por partidos e políticos do quais tantos deles (escritores) são apoiantes. É preciso lata … [já te estou a imaginar, “não é isso que queremos dizer!”. E eu respondo-te: mas é isso que dizes!]. 

3. Nas últimas eleições o partido Livre elegeu uma deputada em Lisboa, com votos nas freguesias da burguesia. O partido Chega elegeu um outro deputado, muito assente no facto do candidato ser painelista da bola, e do Benfica. Teve menos votos do que a lotação do estádio da Luz. E o Livre menos do que a de Alvalade, já agora. No último ano tem sido um festival de demagogia. E os dois núcleos demagogos, num vil frenesim, ocuparam a cena política. Alimentam-se mutuamente. 

Há cerca de dois anos o Brasil teve o advento de Bolsonaro. Muitas causas existiram para tamanha mudança no cenário político – partidário e eleitoral – naquele país. Mas vários foram avisando, e depois constatando, que a diabolização do “capitão” e a pantominização “identitarista”, no folclorismo demagógico que campeia, foram o estrume que alimentou aquela eleição. 

É certo que um escritor não é, obrigatoriamente, alguém dotado de dotes para análises políticas. Muitos terão apreço por “posições”, “atitudes”. Mas são demiurgos (quando o conseguem ser) apenas nos seus textos, na refracção do mundo (quando a tal conseguem ascender, pois a maioria apenas o reflecte). Do resto pouco mais perceberão. E assim não entendem que nesta “carta aberta”, tão a jeito do “estado da arte”, só animam aquilo que julgam enfrentar, lambuzando-se no frisson da “atitude colectiva”. O “Público”, a “SIC” e tantos outros recebem esta novidade e difundem-na com punhos negros cerrados (o símbolo do “poder negro”, da potenciação [do empoderamento, como dizem os ignorantes, servis ao jargão sem o compreender] dos negros). Punho esse que neste país é lido como articulado com o comunismo. E que nas suas diferentes aparições agora agitará o “perigo negro”. E assim reduzindo os debates políticos, sobre o sistema político, sobre a organização social e políticas, a este “branco” vs “preto” que tanto jeito dá aos mariolas, de agenda bem óbvia. 

Os escritores, na sua insuficiência intelectual, seguem contentes (tu também, claro, e vales muito mais do que isto, porra). E os demagogos da “causa” rejubilam. Não pela carta, mas pelas reacções a estes “punhos negros”.

Ou seja, vai à merda.

10 comentários em “A carta dos escritores”

  1. Tenho em apreço particular uma escritora que subscreve a carta, que acredito reúne em si mesma essa transcende visão do mundo e da pessoa no mundo.

    Avançando agora para a temática: ela parece-me mais um movimento revivalista new age, muito característico dos anos 70/80, mas com a timidez também muito característica dos tempos hodiernos em não abordar o tema na sua dimensão espiritual. Ao presumirem-se racionalistas os autores eliminam de seu pensamento a dimensão extra-racionalista do tema. A presente carta aparenta ser mais política que humanista. E de políticas estão as pessoas fartas. Todos queremos obras.

    As sociedades são estruturalmente racistas, mas isto não significa a existência de um racismo sistémico com base no ódio e na perseguição. Um dos erros em que muitos intelectuais incorrem é confundirem a imaginação e ilusão com a realidade. Significa isto que muitas vezes vêem o que não existe e acreditam existir o que não vêem.
    A estrutura racista da humanidade, com base nos clãs e tribos, foi a forma de sobrevivência desenvolvida por o Homem considerar que o perigo abriga-se em si mesmo, nos outros e no domínio. Portanto, é uma reacção primária de sobrevivência e uma característica do Ser naturalmente dominante.
    Assim, não vejo que venha algum mal ao mundo neste instinto preventivo de sobrevivência.

    Como acima escrevi “naturalmente dominante”, importa uma abordagem ao tema. O cristianismo não é um movimento, é a Pessoa em movimento. Mas para que tal movimento exista convém distinguir o natural do espiritual.
    Em breve síntese, o único que conhece o que habita o natural (motivações, interesses, perversidades…) é o espírito do homem, isto é, o espírito/consciência conhece o que habita no interior e que não é visível ao exterior (é a capacidade de filtrar, ocultar e mascarar, denominada por hipocrisia).
    Na parte espiritual é o Espírito que conhece a dimensão ou natureza do que é Espiritual, denominado por Deus, e o propósito dessa dimensão.
    Assim, quando o cristão pede o auxílio do Espírito Santo, ele pede que esse mesmo Espírito lhe traga o conhecimento d´Aquele que É. E o conhecimento d´Aquele que É não é sabedoria que enfuna, porque esta última está mais ligada à ciência e aos cientistas das mais diversas áreas que à realidade que os rodeia.
    Deste modo, conhecer Aquele que É nada mais é que receber o que Lhe pertence por natureza para dedicar um serviço de amor ao próximo. Serviço esse que é oferecido mesmo quando tudo e todos estão mal e mesmo quando tudo e todos estão errados, mas que não torna ingénuo o que o carrega. Neste sentido, amar também é um acto de teimosia, porque só teimando no amor se pode evitar tudo quanto a este amor não pertence.

    Em conclusão, a carta aparenta errar pelo seu legalismo, que é próprio das sociedades estalinistas e esquerdistas ditatoriais, e procura impor uma doutrina legal e igualitária para o que somente se alcança por via espiritual.

    O cristianismo, em Jesus, deu este primeiro passo, mas os cristãos e não cristãos ainda lá não chegaram. E não chegarão nunca por via do farisaísmo hipócrita que presta um serviço que se serve e não um serviço que outros alimenta.
    O Bom Pastor, figura cristã, é Aquele que alimenta as ovelhas e não o que se alimenta delas. Os clérigos e os políticos e a sociedade em geral precisam perceber que só é grande no reino do espírito o que se faz pequeno diante de todos. É o Espírito do Bom Servo que a todos serve sem destes ser servo: ´e a natureza de Deus que só o Seu Espírito nos faz conhecer e viver.
    Porra, mais de 2 mil anos e ainda não se aprendeu uma “merdita” tão básica.

    1. “ainda não se aprendeu uma “merdita” tão básica.” De facto eu não aprendi. E a ler textos como o seu, cada vez fico mais longe de entender.

      1. Foi exactamente isso que refere em seu comentário que eu escrevi. Mas não desespere, se fizer um esforço para movimentar-se e não ficar em movimentos que param certamente chegará ao que os olhos nunca viram, os ouvidos nunca escutaram e o coração nunca pensou.
        Não se esqueça também que o coração era visto como o órgão do pensamento.
        O cristianismo é para quem quer usar a cabeça, a mente; pela renovação. Não é para acomodados.

  2. É simples, a industria do anti-racismo precisa como pão para a boca do racismo.
    Se não há, cria-se e inventa-se.

    lucklucky

  3. Vai ao tal Miguel Vale de Almeida que ele ensina-te as merdicas que só ele sabe e assim aumentas a tua sabedoria. Bajuladores há muitos!

  4. Se ainda fosse uma carta a alertar a expansão the Meca em África, na Guiné… Mozambique… mas afinal é mais uma corrente que quer que Portugal veja África com os olhos da África Islâmica e da Africa atrofiada pentacostal dos USA.. A África civilizada é a Católica e essa está a ser perseguida e esses escritores nem piam…palhacos é o que são!!! O mamadou assinou!!??

  5. Seria conveniente esses animais , que querem ( porque lhes foi encomendado) , à viva força, introduzir o racismo numa sociedade onde ele esteve sempre arredado, lerem o hoje convenientemente ignorado António José Saraiva.
    E entenderem um pouco, só um pouco, o país e o povo de que a maioria faz parte.

    JSP

    1. “…o racismo numa sociedade onde ele esteve sempre arredado,”
      Boa piada!
      “… lerem o hoje convenientemente ignorado António José Saraiva.” Você deve ter lido demais é o José António Saraiva.

  6. Esta carta, mais do mesmo, assinada por tanto escritor com currículos tão diferenciados, não passa de uma imbecilidade.

    Simplesmente inacreditável.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *