Votos, bola e puxões de orelhas


Pedro Correia,

Depois dos caderninhos “sexistas” postos fora de circulação por imposição do Governo, surge outra medida de carácter proibicionista, tão ou mais estrambólica: o Executivo admite tornar os dias eleitorais interditos à prática do futebol profissional.

Ideia absurda. Como se um jogo que dura hora e meia colidisse com a ida às urnas, que estão abertas durante onze horas. E como se os eleitores portugueses, após mais de quatro décadas de prática democrática, não pudessem ser em simultâneo fervorosos adeptos de futebol.

Noutros países, em dias eleitorais, vigora a Lei Seca – abstenção total da venda de bebidas alcoólicas. Aqui, nessas ocasiões, o Governo quer impor o jejum absoluto aos espectáculos desportivos. E porque não interditar também o acesso a cinemas, teatros, templos, praias e piscinas?

É sina portuguesa: confundindo protecção com paternalismo, o Estado insiste em tratar-nos como meninos pequeninos a precisar de puxões de orelhas.

Com o aplauso entusiástico dos habituais basbaques. Há coisas que nunca mudam.

52 comentários em “Votos, bola e puxões de orelhas”

  1. As atitudes desta corja política estão rapidamente a ultrapassar o estigma da incompetência. Tratam agora os eleitores como se estivessem a apascentar gado, tal é o respeito que aparentemente (não) merecemos.

  2. Tem toda a razão. O governo, em vez de procurar soluções para o abstencionismo no voto não presencial, adopta medidas restritivas da liberdade dos cidadãos.
    Tiques ditatoriais, é o que parece. Que nunca resultam.

    1. procurar soluções para o abstencionismo no voto não presencial

      Ficaria como nas eleições internas no PSD, em que um só indivíduo pode votar por muitos. É porreiro.

      Há pessoas que emprestam o cartão de crédito à mulher para ela poder fazer compras por eles. Passariam a também poder emprestar o cartão de eleitor.

        1. O voto por correspondência, tal como os outros votos não presenciais, está sujeito à possibilidade de uma pessoa votar por outras.
          Além disso, é caro. Cada pessoa tem que receber, para além do boletim de voto, dois envelopes. Tem que se confirmar assinaturas, etc. É uma coisa que é praticada (nas forças armadas, etc), mas não é muito conveniente estender essa possibilidade a toda a população (embora na Alemanha, por exemplo, isso seja feito).
          Num país como o nosso, que tem uma longa tradição de caciquismo (de uma pessoa votar por outras), parece-me inadequado generalizar qualquer voto não presencial.

          1. Ora aí está um bom argumento a favor das ditaduras. São mais baratinhas que as democracias.

  3. Isto deriva do grande equívoco republicano de confundir o País com o Estado — e de, nas mãos da esquerda social-fascista, de confundir deliberadamente o que é público e o que é privado. Pior ainda vindo de um governo que nem votado foi e que não tem legitimidade política. Dia de reflexão cívica? Vão é dar uma curva. Que paternalismo imundo. Nenhum dos clubes e nenhum cidadão livre tem de obedecer. Se o fizerem é porque pertencem à mesma estirpe de canalhas a que pertence essa gente. Estúpidos. São tão estúpidos — nunca vi gente tão estúpida e tão perigosa.

    1. V, é um atrevimento pensarem, os legisladores, serem os adeptos da bola dotados de reflexão. A única reflexão que conhecem é a do espelho…..VIVA O GLORIOSO BENFICA….A propósito experimente misturar maduro branco fresco com cerveja preta ( pode ser também loira, mas disse preta para não me acusarem daquelas tretas) e açúcar mascavado. Pode adicionar uma gema de ovo. Garanto-lhe que ao sair de casa não saberá se deve subir ou descer a rua.

      1. Infelizmente já não bebo… mas registo com minh’alma resplandecente o impacto cósmico de tão inefável e poderosa mistela!

        1. Por aqui, chamam-lhe “A Receita”….francamente nada original, o nome….Poção ficava melhor …..Já vi que deixou estragar o morangueiro…disseram-me que a uva americana dá um bom vinho Verde…

          1. Pessoalmente creio que a única coisa decente que se tira do morangueiro é a aguardente — que é mais fraquinha e bastante deliciosa. Aqui pela serra ainda chamam “malafaia” à última volta do alambique, uma aguadilha que melhora significativamente a percepção do universo.

    1. Lá está Dulce! Essa rapidez no votar depois dá mau resultado. Tem que haver alguma preparação antes do acto, não falhado.

        1. Dulce deixemos os etc para os miúdos. Espero que, daqui a uns anos, consiga arrumar tudo o que tenha num saco das compras. De plástico.

          1. Daqui a alguns anos, é muito possível que as minhas tralhas todas juntas não sejam suficientes para encher um saquinho de mão ( de plástico e do Jumbo, que são pequenos).
            Tenho uma bagagem imensa, mas para essa não preciso de saco, nem temo vir a perdê-la. Quanto muito, conto poder aumentá-la ainda mais e felizmente está bem guardada e arrumada e acompanha-me sempre, para onde quer que vá.

    2. Eu lá estarei em Alvalade, à tarde, para acompanhar o Sporting-FC Porto.
      Voto de manhã, como sempre.

      Noto entretanto uma inaceitável discriminação: só interditam o futebol enquanto mantêm abertas as salas de cinema.

  4. Pedro com os níveis de abstenção somos mesmo uns catraios…
    Contudo é também de gargalhada os políticos pensarem que os níveis de abstenção se devem à bola…Já agora pode-se ir ao Meco em dia de eleições? E as rapidinhas, são legais?

  5. Resta saber se o governo tem competência para legislar neste sentido – que eu saiba, a Lei Eleitoral é da competência exclusiva da Assembleia da República.
    Sendo a Assembleia da República a fixar a lei, logo veremos que partidos é que votarão a favor ou contra quaisquer proibições.

    1. Lavoura, a questão não se relaciona com a lei eleitoral, uma vez que não dispõe formal ou substancialmente sobre o exercício do direito de sufrágio, nem a execução administrativa do acto. Trata-se, por outro lado, de uma restrição a direitos sociais e culturais. Aquele conjunto de direitos que a Constituição elege como instrumentais, atribuindo ao Estado o papel paternal de os promover, difundir o seu acesso e exercício. Não se lhes aplicam, as restrições às restrições aplicáveis a direitos, liberdades e garantias, os do título II! Apesar disto, e logo não caem no regime de reserva da AR, aplicam-se-lhe, evidentemente, regras básicas de racionalidade e utilidade. Coisa de que, neste caso, parece falho porque não estabelece nenhum valor acauteláveis que seja por aquele, ainda que remotamente, constrangido!!
      É esta, pelo menos, a minha opinião.

      1. a questão não se relaciona com a lei eleitoral

        Então relaciona-se com direitos e liberdades. Seja como fôr, é matéria do foro exclusivo da Assembleia da República. Isso é que interessa, na prática.

        Sendo do foro exclusivo da Assembleia da República, todos os deputados terão a oportunidade de votar e todos ficaremos a saber que deputados são a favor ou contra a proibição dos jogos. Nessa altura poderemos criticá-los. Não vale a pena estarmos já neste momento a criticar o governo.

        Dado que a proibição dos jogos mexe com importantes interesses económicos, estou em crer que, no fim de contas, poucos deputados se atreverão a proibir…

  6. Seja como for só torno a votar quando abolirem o Acordo Ortográfico — portanto metam a reflexão cívica no cú. Já agora notem como “cu” sem acento não fica bem.

  7. “(…) mas nas próximas eleições seguramente já teremos legislação que venha por cobro a esta situação.” Palavras do sr. secretário de estado.

    “Julgávamos não ver [“ser”, suponho] necessária uma via legislativa, mas, se o bom senso não imperou, será pela via legislativa”. Palavras do sr. porta-voz da CNE.

    Uma “situação” a que se impõe “pôr cobro” é necessariamente uma situação geradora de fortíssima censura social, manifestamente intolerável à luz do direito e, antes dele, de valores morais comummente aceites pela sociedade e em que esta se funda. No mesmo sentido a afirmação da imposição da “via legislativa” lá onde, pela gravidade potencial ou real dos factos em causa, o mero bom senso não basta.

    Estamos pois no plano dos crimes, ou no mínimo das contra-ordenações (em que a gravidade dos factos e a importância dos bens por eles potencialmente ofendidos, impõe a intervenção explícita em termos de direito positivo), ao pretender-se “distrair” – e o que é “distrair”, onde começa e acaba, o que o integra? Só o futebol?
    E não “distrai” intoleravelmente ir passear com a família, assistir a uma cerimónia religiosa, a uma prova de qualquer outro desporto? E se pura e simplesmente, pelas minhas razões, decidir não votar? – os eleitores em dia de eleições.

    Nem interessará na verdade se o secretário de estado manifesta desconhecimento (também) em matéria de competência legislativa: se esta é exclusiva da Assembleia da República ou se pode ser objecto de autorização legislativa. Ou como votaria ou votará a AR nesta matéria. Interessa-nos sim que um membro do governo – mais ainda falando como tal – e um responsável da CNE – mais ainda falando na qualidade de seu porta-voz – sintam ser apropriado afirmar publicamente o que afirmaram.

    Interessa-nos porque – “eleitores” nesse dia, “contribuintes” nos restantes, cidadãos em nenhum – justifica os nossos piores receios. Em todos os dias.

    Costa

    1. Muito bem. Acresce que interditar os jogos de futebol em dias eleitorais – e nada mais senão os jogos de futebol – é um acto legislativo de uma inaudita e violenta discriminação.
      Quem diria que as forças políticas que sustentam este Governo seriam capazes de concretizar algo tão discriminatório quando passam o tempo todo a clamar em abstracto contra as discriminações?
      O voto é um direito, que cada cidadão exerce (ou não) de forma voluntária. Não é uma imposição. Em nome da mais elementar coerência, quem agora decreta a proibição dos espectáculos futebolísticos em dias de eleições devia por maioria de razão defender o voto obrigatório.

      1. E as “estruturas” do futebol, a federação, as associações, os clubes, que têm a dizer? Vão seguir o nobre exemplo da Porto Editora (não me passa pela cabeça, evidentemente, que ocorra promiscuidade entre política e futebol…)?

        Os comentadores da bola que diariamente berram na televisão e na rádio, esses, desculpem-me mas não os ouço. Houve tempo em que os não dispensava quando (mesmo nada sabendo eu de tão essencial tema) a sua grosseria, geral atitude de caserna e deslumbramento apenas faziam rir. Era a hora do programa humorístico, enfim. Por este tempo – e de há muito tempo – representam todavia bem mais e muito pior do que isso.

        Costa

      2. Notável esta sua argumentação que desmonta num só ato bem afiado a intenção de um governo de sombras.
        Podem ficar dispensados comentadores e constitucionalista do regime para navegação no assunto.
        Com esta sua lição só lhes resta a descoberta de um pretexto babado para deixar cair um disparate feito afronta.

  8. Sem mais e sobretudo, caro Pedro Correia “..confundindo protecção com paternalismo, o Estado insiste em tratar-nos como meninos pequeninos a precisar de puxões de orelhas.”; Especialmente patético quando a Constituição da República não estabeleceu um critério de voto obrigatório!! (Nem sei, como na ponderação, legítima, de valores se justifica esta restrição à liberdade de realização de eventos desportivos e culturais. Não sei como sequer se poderá entender a realização de eventos culturais e desportivos como um relativo constrangimento à realização de actos eleitorais.)
    Este emproado fervor paternalista já mete nojo! Inventam problemas onde eles inexistem deixando medrar, incólumes e esquecidos, problemas verdadeiramente pertinentes!

    1. Dantes, invocava-se o perigo de perturbação de ordem pública: em grandes concentrações, poderiam os ânimos exaltarem-se e as diferentes facções partidárias entrar em confronto.
      Hoje em dia, o único que se arrisca a levar um bofardo é o que disser: “Eu vou votar!”

  9. Face à posição da CNE em relação aos jogos de futebol agendados para o dia das eleições, estou a ponderar em denunciar que nesse mesmo dia tem início o ano catequetico na minha paróquia e, com certeza, que vai impedir os catequistas, jovens e pais de participarem no ato eleitoral. O secretariado da catequese não teve consideração pelas eleições.
    Em relação à posição do governo, talvez estejam a estudar um projeto de lei de forma a garantir que em dia de eleições nunca chova de forma alguma. Mas, não há consenso dentro de todos os partidos, dado que deixariam de ter uma grande desculpa para referir em noite de eleições quando nesse dia foi registado precipitação e a abstenção foi elevada. Aguarda-se desenvolvimentos acerca deste tema tão interessante para milhares desempregados.

    1. Ainda são as missas e as catequeses que vão valendo à CNE. Os curas já não costumam fazer grandes apelos à cidadania, mas se não fosse o facto de a reza dominical obrigar os crentes a sair da cama e de casa, e de a mesa de voto costumar estar ali a dois passos da igreja, a abstenção em Portugal andaria provavelmente pelos 80%, no mínimo.

  10. Mas Pedro, não entende que o governo quer, com esta medida, que os desportistas que trabalham fora dos seus locais de residência também tenham de votar?
    Já imaginou a falta que faz o voto de um Nelson Évora, por exemplo, que possa estar fora do país e em prova no dia das eleições?
    São os políticos geniais.

    1. É um absurdo, Maria. Fazem guerra ao futebol – deixando de lado os cinemas, os teatros, as casas de espectáculos, os centros de recreio e diversão.
      Os mesmos políticos que usam a todo o tempo o futebol para se promoverem. Santa hipocrisia…

  11. É tão simples resolver o dito” problema”:

    Mesas de votos nos estádios! Com video-voto!

    E que ganhe o Sporting … por seis vengaladas no….(?)

  12. E o teatro, o cinema, os museus, os restaurantes e tabernas de petiscos, os bailaricos, os jogos tradicionais como o do pau, da malha, o pião das nicas, os concursos de bigodes, e mesmo da dimensão das peidas e até dos decibeis dos concursos do peido?? Mas antes de tudo isto e não sei quantos mais é seguramente inconstitucional. Não podem condicionar a liberdade de opções do cidadão até porque, e bem, deitar o voto no caneco não é obrigatório.

    1. Para serem consequentes, deviam tornar o voto obrigatório. Mas o que eu não entendo de todo é esta perseguição ao futebol. Então os centros comerciais ficam abertos? E as igrejas podem ser frequentadas sem problema? Não há cinema fechados nesse dia?
      Coitados dos britânicos, que habitam a suprema pátria da democracia. Votam há décadas a meio da semana – com tudo aberto, tudo a funcionar. Têm que vir a Portugal aprender como se legisla em matéria eleitoral. Nós, por cá, temos governantes prontos a dar-lhes lições.

      1. Peço desculpa mas no meu escrito acima falta qualquer coisinha:
        ….. dos concursos do peido??
        » E os retiros da mais nobre profissão do mundo que o Ti Alfredo cantava com “A Viela” ? « ………Mas antes de tudo isto

  13. O futebol é o desporto da populaça ignara e inculta.
    Ainda se fosse golf, ou ténis, ou blackjack num apartamento das Avenidas Novas…

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