Voltaren


#$&%#,

voltaren.jpg

Na sempre aziaga sexta-feira 13 tombei, inopinadamente, sob a urgência dos unguentos. Acabrunhado pelo império da radiculite fiquei à mercê de mãos caridosas, as quais me aspergiram com a última edição da “Visão”, boletim que nunca leio – à excepção da sua excelente (fora-de-)série “Visão História”, que sempre recomendo.

 

Assim sendo, neste meu imobilismo desalentado, deparei-me com uma entrevista a José Pacheco Pereira (publicitando um novo livro, o que não sendo soez é característica…), cuja retorcida argumentação muito acalentou os sintomas dos meus “bicos de papagaio”. Mas tenho de ser justo, ali deparei também com uma belíssima crónica, “O avô António e um restaurante à beira da estrada” de Dulce Maria Cardoso, uma pérola rara nos periódicos nacionais, um verdadeiro Voltaren moral adequado os meus actuais padecimentos. Se não encontrardes a revista acorrei à pirataria pdf e lede o texto…

 

Madrugo hoje, insone de incómodo, e noto que no pavilhão vacinatório de Odivelas a turba rodeou o vice-almirante Gouveia e Melo, apupando-o e apodando-o de “assassino”. Uma vera feira medieval, moles ululantes feitas de corcundas, raquíticos, alguns leprosos camuflados, desembarcados das “naves de loucos”, suplicantes, um ou outro escravo eslavo, bruxas, pernetas, prostitutas e manetas, “endireitas” agitadores, pajens pernósticos, frades demoníacos, agentes de Castela e Aragão, mendigos ladinos e quantos mais, e isto enquanto os israelitas se escapavam, lestos, desde logo sabendo que a procissão irá sobrar sobre eles… É assim na capital do Reino.

 

Por cá, na vila a Sul do Tejo, narram-me o que se passa na vacinação. Inoculadas que foram todas as gerações mais velhas, sem preocupações nem incidentes, chegou agora a vez dos jovens, os dezoitonários, mancebos e mancebas… Que vêm acompanhados das mães, pedem apoio qual recobro sofrido, neste chegam a desmaiar, e é tamanha a histeria que – e só agora, apenas para esta leva júnior – se instalaram colchões no chão do pavilhão para que recuperem da “agressão” vacinatória.

 

De todas estas desvairadas coisas logo se soube alhures. Ao largo da costa aprestam-se os barcos bárbaros, velame já visível desde o promontório, e da raia chegam novas de que se agitam os berberes. D’El-Rei nada se espera, cirandando como sempre…

 

E eu, amarfanhado por este grifo que me acomete, feneço. Pois, afinal, não há Voltaren a dar-lhe.

22 comentários em “Voltaren”

    1. Olhando ontem para o Gouveia e Melo, surgiu-me a questão: será que temos diante de nós o próximo Presidente da República?

  1. Meu caro, cumpre-me como ser celestial levar-lhe um pouco de alento: as suas maleitas cessarão depois que o meu amigo bater as botas. Assim, tenha coragem – como no cartaz da oficina do Pacheco no Barreiro – e esqueça que as tem, pois é o melhor remédio.

    Pacheco tem razão. Passos era um menino rodeado de meninos que buscou uma solução num partido que era de barões, após a morte de Sá Carneiro. E estes barões são, eram, como os barões do café brasileiro, que subsidiavam o rei para ter uns titulozitos. Posto isto, os barões deixaram o Passos na mão e rumaram a suas reformas calmas e generosas e nem se lhes escuta o pio depois que o BES caiu.

    Já me surpreende que recebam o vice-almirante como receberam. Não percebo que num país que tão mal trabalha e tão mal se organiza se possa insultar quem bem trabalha e organiza.
    O vice não é o autor da vacinação. É o cérebro de um esquema bem montado e organizado para que tal fosse possível num país de burros – burros porque não querem aprender. Só pretendem licenciamentos e masters e doutoramentos – e mal-organizado.
    Ele não é assassino nenhum.
    O que ocorre em Portugal e outras nações, em matéria de vacinação, nada mais é que a implementação da morte assistida em curso. E aqui cada um é livre para se matar.

    Porém, como ser celestial que sou, recomendo aos vacinados que usem máscaras em locais fechados e pouco arejados, e aí permaneçam por pouco tempo, higienizem as mãos a propósito e a despropósito, exijam o teletrabalho e a telescola, frequentem restaurantes em esplanadas, evitem os transportes públicos que não garantam, por exemplo, a higienização com ozono a cada 2 Horas e que estejam com mais de 10 pessoas a ser transportadas.
    Aos não vacinados recomendo o mesmo, bem como a luta contra o boletim sanitário, pois este boletim é um passaporte para a contaminação, e ainda que utilizem o habeas corpus em todas as situações de privação que lhes sejam impostas. Assim, entrem no espaço interior de restaurantes sem teste e sem boletim. Deixem-se prender pacificamente e usem posteriormente os instrumentos legais. Mas continuem a entrar só para chatear. Façam o mesmo em toda a parte. Comportem-se bem com a polícia, reajam somente se forem agredidos indevidamente.

    1. Sobre o que me diz deixo claro que estou convicto disso, mal bata as botas logo se me cessarão as maleitas várias, mesmo as psicossomáticas. Não há melhor placebo que esse…

      1. jpt, fiquei mais presa ao puro prazer estético de ler o seu texto! Tanto que a seguir tenho de relê-lo, porque o “miolo” quase se me “eclipsou”…
        Bom domingo e estimo-lhe rápidas melhoras!.
        ST

  2. É o tal metasexualismo ou assim. Homem q’era homem desafiava a agulha com um sorriso, mesmo que a picada doesse ai dele que derramasse uma lágrima. E sobrava vontade para segurar a mão da donzela quando chegasse a sua vez.
    Olhó Messi, grandes cojones, o rapaz até fazia autoagendamento e autoinoculação.
    Menos a sério, o escarceu que se faz por causa de uma mera vacina. No dia em que acontecer algo de realmente grave por estas bandas não sei se o rectângulo fica à tona d’água.

  3. Os anti-vacinas mostraram ontem, afinal, aquilo que são. Não dá para se ser razoável com eles; considerar os seus argumentos (e alguns são dignos de reflexão) revela-se perda de tempo. Perante aquele histerismo e agressividade estupidificadas, a convicção de que as autoridades estão a percorrer o caminho certo, mesmo no meio de muitas incertezas, só pode sair reforçada.

  4. Se nem o aprovado,quase centenário,voltarém lhe alivia as dores desta civilização então
    vire-se Vexa para a natureza,para a verdial arnica do Eça.
    Marmeleiro aconselhavam no meu tempo,era o fáxismo.

    1. não terei percebido o alcance do seu comentário. Mas aproveito para informar que, embora com alguma lentidão (adequado ao estóico que eu gostaria de ser), o Voltaren vem cumprindo a sua tarefa

    1. Ao longo desta era covidiana sim, muitas vezes o tenho dito, é notório e notável que a geração sub-20 assumiu com enorme paciência, de facto espírito de cidadania e de solidariedade familiar, os ditames de reclusão e de contenção. Mas reconhecer isso não implica que não nos surpreendamos com esta forma timorata de enfrentar o normalíssimo acto de ser vacinado – eu não escrevi nada mais do que ouvi de médica amiga acabada de chegar de mais um dia de trabalho no pavilhão vacinatório do concelho, estupefacta com o que estava a acontecer por ali. Não posso dizer que seja geral, em todo o país, mas é mesmo o que ali se passa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *