Verdades inconvenientes


Sérgio de Almeida Correia,

“1. Tendo em conta que dos objectivos iniciais do Memorando, considerados fundamentais (e que eram apresentados como a cartilha inexorável do governo até à demissão de Vítor Gaspar), se contava conseguir controlar o défice para os seguintes números: 5,9% em 2011, 4,5% em 2012, 3% em 2013 e se chega ao final de 2013 com o défice previsto de 5%, como é que se pode afirmar que o “cumprimento” do Memorando foi um “sucesso”?

2. Tendo em conta que a dívida máxima prevista no Memorando era de 114,9 % do PIB, e a dívida no final de 2013 era de perto dos 130% do PIB, como é que se pode afirmar que o “cumprimento” do Memorando foi um sucesso?” – José Pacheco Pereira, no Público, 15/02/2014

 

Já se sabe que muita gente vai voltar a insultá-lo, a ficar zangada, incomodada, à beira de um ataque de nervos, mas não há nada como pôr as coisas em pratos limpos para se perceber a dimensão da ilusão que os jotinhas têm andado a vender. Como sempre acontece em Portugal, os culpados dos erros e dos falhanços nunca são os próprios. E daqui a vinte anos, quando o país perceber que retrocedeu outros tantos, ainda havemos de ouvir dizer que a culpa foi de Sócrates, de Teixeira dos Santos e dos tipos que desenharam o memorando com a troika. Nunca mais ninguém se lembrará das achegas ao memorando de que Catroga se ufanava, da carta de Gaspar, da teimosia de Passos Coelho, ou das revisões feitas à socapa que conduziram ao agravamento da situação da economia nacional. E tal como qualquer filho de boas famílias que nunca fez a ponta de um chavelho e acaba a dirigir as empresas que leva à falência, também nesse dia, se ouvirá dizer que se fez o melhor possível. No fim, cá estaremos todos para pagar a factura da inconsciência, da desonestidade intelectual e política e do “milagre económico”. Nada que não se estivesse à espera.

 

P.S. Quanto à última frase, escuso de vos remeter para o meu Diário Irregular ou outros textos mais incómodos. Basta que dêem uma vista de olhos a este, a este outro ou ainda a este. Estávamos então antes das legislativas de 2011. E continuo hoje a pensar e a escrever o que estão pensava e escrevia. Nem todos poderão dizer o mesmo.

10 comentários em “Verdades inconvenientes”

  1. Quando o Senhor Doutor Engenheiro José Sócrates saíu de casa, a dívida era o dobro da dívida de quando ele chegou à escola, estávamos num Domingo à tarde.

  2. Sinceramente, no final de 2011 estav previsto 5,9 e foi quase 11% para se ser serio devia se dizer pq, segundo diz que o defice esta em 130% do PIB, mas para se ser serio devia falar que temos uma almofada de 20 mil milhões portanto esse numero do defice nao esta correto, e que eu saiba nos pedimos o resgate pq nao havia essa almofada para pagar salario pensões ou reformas em junho. Afinal pelo que leio aqui a outro tipo de jotas, os velhos do restelo

  3. Alem do mais havia uma serie de dividas escondidas debaixo da manga!

    A esquerda não se conforma!

    O camarada Sérgio preferia de longe uma recessãozinha , NÉ?

    “Pachência”

    1. Por mim pode continuar a viver na ilusão, já que na parte que me toca não se trata de um problema de “conformismo” ou “inconformismo”. E quanto a dívidas escondidas basta olhar para a Madeira ou para a Câmara de Gaia, cujo ex-presidente foi apoiado pelo primeiro-ministro há muito pouco tempo para ir fazer exactamente o mesmo que fez em Gaia para a Câmara do Porto.

      “Moreover, many ministers from the current government acknowledged that, while revising the MoU, they specify existing measures, or even include new ones, with the specific purpose of decreasing opposition on policies that they favoured all along.
      In other words, ministers from the centre right used the intervention as a clear
      window of opportunity so as to induce a ‘paradigm policy shift’ towards their
      favourite neo-liberal stances.”
      Recomendo-lhe, bem como aos leitores, a leitura deste texto acabado de sair (não se trata de um artigo de jornal): Austerity Policies and Politics: The Case of Portugal, Catherine Moury and André Freire, Pôle Sud, nº. 39, pp. 35-56.

  4. É obra só possível por intelectuais que defendem o fim dos cortes criticarem alguém por não ter cortado o suficiente.

    Para Pacheco Pereira é ainda pior, se ele como deputado do PSD tivesse ajudado a derrubar o Governo quando o PS começou a aumentar a dívida exponencialmente, hoje o défice seria bem menor por termos de pagar menos juros.

    Os cortes do futuro terão boa parte da responsabilidade da parte do PSD que atrasou o derrube do Governo.
    E se não tivesse derrubado naquela altura ainda estaríamos pior.

    Numa história alternativa se Sócrates não tivesse escolhido aumentar a dívida dos 60% para os mais de 100% , hoje já estaríamos com défice zero ou perto.

    É preciso entender as implicações do período final do Governo Sócrates com juros a aumentarem.

  5. pode-se reescrever a mesma historia dezenas de vezes ao gosto de uns ou de outros,mas a verdade é que os jotinhas e holandinhos que têm sido eleitos por estes esclarecidoseleitores já torraram 240 mil milhoes emprestadaos maquiavelicamente pela merkl e troika; quando oaldrabão socrates se foi embora já nem dinheiro havia para pagar as reformas e ordenados – tudo culpa do governo do….. (convem escolher a gosto)

  6. Fico sempre muito surpreendido quando escuto alguém que define como política única e incontornável os cortes. E fico surpreendido porque isto qualquer puto é capaz de fazer. Resta saber se os cortes ao invés de terem produzido os efeitos que anunciavam produziram os efeitos que alguns desejavam(?).
    Também dizer que os cortes produzem sempre uma recessão é uma mentira descarada de quem nunca entendeu nada de nada sobre o comportamento da economia. ´
    Passo a explicar: é suposto que um corte no orçamento, qualquer orçamento, vise produzir uma poupança e, consequentemente, a alocação do valor poupado em áreas verdadeiramente indispensáveis e produtivas (qualquer família sabe sobre o escrevo, mas tenho dúvidas que muitos economistas e economeses o saibam). Aqui chegados temos consciência que o valor cortado e/ou poupado em despesas outrora ordinárias restituiu o esforço através do efeito para que foi destinado.
    Neste sentido, em Portugal não vemos uma política orçamental mas de desorçamentação com consequências nefastas até mesmo no sector que dizem defender, isto é, o da economia. Se para pagar uma dívida eu tenho de abrir falência é mais que certo que outros serão arrastados comigo.
    O que eles fizeram, desde os anteriores a Sócrates, passando por Sócrates e Teixeira dos Santos, até Passos e Vítor Gaspar, nada mais foi que efectuar sucessivas testas de ponte para o resultado que vivemos. Mas o problema não fica por aqui, os ditos parceiros comunitários, para sua própria subsistência, sabiam que isto era a política que mais os favorecia. Só nós é que não vimos. Pena, mas agora sejamos homenzinhos e façamos o que deve ser feito.

    1. Cortes na despesa quando o valor dessa despesa só existia por causa da dívida levam sempre a recessão, porque o valor a economia e a quantidade de transacções não era sustentável.
      Só existiam por causa do dinheiro pedido emprestado.

      Não estamos a falar de cortes na despesa para o dinheiro ficar nas mãos de quem paga impostos, estamos a falar de cortes na despesa que tiram dinheiro da economia porque não é mais possível encontrar que nos empreste dinheiro. Dinheiro que nunca deveria ter entrado pelas distorções e especulação socialista e corrupção subsquente.

      1. Meu caro,
        aquilo que afirma inicialmente confirma a minha reflexão.

        Se alguém corta na despesa e aumenta a dívida ou é parvo ou anda a treinar para isso;
        Se corta na despesa e aumenta as responsabilidades sociais – sem assumir a responsabilidade – ou é cretino – que significa estupidez e falta de inteligência -ou anda a treinar para isso;
        Se alguém corta para pagar a dívida e cria situação de insustentabilidade para manter compromissos não sabe o que anda a fazer.
        Por último, depois de tantos cortes chegou-se à conclusão que o problema não reside exclusivamente no peso do estado, mas na dependência dos “empreendedores” privados face ao estado, criando neste uma (i)responsabilidade total que pesa sobre seus cidadãos. Originado também um economia oportunista que se torna satélite desses astros e que prova que a economia nesta matéria sobrevive em pleno pelas mãos dos contribuintes, sem os beneficiar.

        Agora outro capítulo:
        Aliás o problema da dita economia portuguesa revela-nos que desde o estado o novo se tornou num sugadouro de recursos com uma péssima redistribuição da riqueza.
        Ao estado corporativista de Salazar, que até apostava nos bens transaccionáveis por garantia de mercados fechados (colónias e o sector da construção, com excepção para a indústria naval), sucedem-se corporações sem estado, e é isto que Passos Coelho também anda a sedimentar e que ninguém quer ver.
        O memorando de entendimento possui premissas teóricas, e o resultado prático dessa teoria é a impraticabilidade da mesma.
        Quando se escrevem romances de ficção sobre situações que só devem ser vistas pelo plano prático transformam-se desgovernantes e seus satélites em autênticos bovaristas. Madame de Beauvoir era uma mulher apaixonada pelo amor, de tão apaixonada andava pelo amor que nunca foi capaz de encontrar o sentido prático do mesmo, que só se encontra na realidade do outro. Consequentemente não o concretizou.
        Se este exemplo permite aprofundar as equações que plasmamos em nossas reflexões, então não foi tempo perdido este nosso encontro.

      2. Há umas horas atrás fiz um comentário resposta a este seu comentário. Pretendia corrigir um erro que me passou:
        quando ler madame Beauvoir, por favor, leia madame Bovary.

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