Venezuela sem Chávez


Pedro Correia,

 

Líder carismático, populista, demagogo, irresponsável, herdeiro espiritual de Simón Bolívar, comandante, socialista, cristão, revolucionário, “Mussolini tropical”, comunista.

Ou “ilusionista”, como dele disse Gabriel García Márquez.

Puseram-lhe todos os rótulos, chamaram-lhe todos os nomes, bajularam-no de mil formas. Hugo Chávez, que se deu a conhecer ao mundo inicialmente como oficial golpista, vindo mais tarde a candidatar-se a umas presidenciais que venceu, alterou a Constituição de modo a fazer-se eleger sem limite de mandato.

Tinha uma insaciável sede de poder.

Fez mil juras de morte a Washington, sem deixar de ser um dos quatro maiores fornecedores internacionais de petróleo aos Estados Unidos, e prometeu levar a sua “revolução bolivariana” e o “socialismo do século XXI” aos quatro cantos da América Latina.

 

Mas o destino foi-lhe cruel: não chegou a tomar posse do terceiro mandato presidencial, conquistado nas urnas a 7 de Outubro, quando já se encontrava gravemente doente. Desde 11 de Dezembro, dia em que aterrou em Cuba para uma operação de emergência, nunca mais surgiu em público nem os venezuelanos voltaram a escutar-lhe a voz. Durante o ano passado, já havia passado 106 dias na ilha que os irmãos Castro governam desde 1959 e vários ministros acompanharam-no nestes 11 périplos a Havana, onde chegou a despachar e a assinar decretos.

Ocupava o Palácio de Miraflores desde 1999. E ocupava quase todo o palco mediático do país, com as suas intermináveis arengas aos venezuelanos, várias das quais transmitidas em todos os canais televisivos e radiofónicos por imposição legal: só no mês de Julho de 2012, foram 4260 minutos.

Nas presidenciais do ano passado, com a sua entourage obcecada em esconder dos eleitores o verdadeiro estado clínico do recandidato, recusou qualquer debate com o opositor, Henrique Capriles, trocando o argumento civilizado pelo insulto, habitual arma dos fracos.

Foi uma campanha inútil para uma eleição igualmente inútil. Uma desesperada jogada do chavismo para perpetuar uma liderança que prometia estender-se por mais 18 anos não chegou sequer a cumprir o acto de posse, primeira formalidade indispensável para exercer o cargo.

 

Os últimos meses processaram-se num macabro teatro de sombras em Caracas. Com encenações de todo o tipo, incluindo a exibição de uma sorridente fotografia do antigo tenente-coronel paraquedista rodeado das filhas no leito hospitalar enquanto se entoavam loas à “recuperação” do moribundo.

Chávez morreu há poucas horas – vítima de um cancro que lhe terá sido inoculado pelos “inimigos da revolução”, como admite o vice-presidente e putativo sucessor do caudilho, Nicolás Maduro, prometendo uma minuciosa “análise científica” para confirmar tão patética tese.

 

O chavismo ambiciona continuar sem Hugo Chávez. Mas não será a mesma coisa. O carisma não se transmite por decreto.

Cai o pano sobre o teatro de sombras: Chávez, com as suas mil contradições, não governará até 2031 como um semideus idolatrado pelas massas, odiado visceralmente por numerosos inimigos políticos e tendo ao seu dispor um impressionante aparelho de propaganda, bem remunerado com as receitas do petróleo.

Era apenas humano, demasiado humano na evidência dos seus defeitos e virtudes. Como qualquer de nós, afinal.

22 comentários em “Venezuela sem Chávez”

  1. Não só o carisma não se transmite por decreto como
    determinado tipo de líderes , para se destacarem claramente , tiveram que ír afastando do caminho e até da sua “entourage” todo e qualquer um que lhe fizesse sombra .
    Assim não restam “notáveis” à volta , a sucessão fica muito dificultada e acaba por não ír muito longe .
    Ali ou em qualquer outro país .

  2. Não se deseja a nenhum ser humano o que ele passou nos últimos tempos. Fora isso, um regime e um personagem absolutamente repugnantes, apoiados por cá pelos do costume, com manifesta convicção e não propriamente pela circunstância de por lá existir uma grande comunidade portuguesa…

    1. A existência de uma forte comunidade portuguesa na Venezuela pesa sempre nestas circunstâncias. Acrescendo a isso os sinais de amizade que Chávez sempre transmitiu a Portugal – há que reconhecer tal facto.
      Noutro âmbito, a sua aparente bonomia nunca escondeu uma personalidade autocrática, intransigente perante as críticas e que sempre desqualificou os opositores: preferia insultá-los a debater com eles.
      García Márquez definiu-o bem ao chamar-lhe ‘ilusionista’. Um misto de anjo e demónio, que só sabia governar separando águas. Em termos internacionais aliou-se à pior escumalha do planeta – de Kadafi a Ahmadinejad, passando pelo repugnante regime sírio.

  3. “e tendo ao seu dispor um impressionante aparelho de propaganda”

    Esquece-se do fundamental.

    Mais importante foi o aparelho de intimidação e assassínio com milícias, o controle total do aparelho do sistema de justiça – separação de poderes onde? – e forças de segurança.
    A que ainda devemos ligar a colaboração com movimentos terroristas, ao crime organizado e narcotráfico.

    Espero sentado e confortável ver os jornalistas portugueses a escreverem sobre o “Défice Democrático” na Venezuela…
    E a no mínimo equipararem-no ao Alberto João Jardim…

    Aliás é significativo como os jornalistas portugueses bajulam alguém que cortou a liberdade dos jornalistas e os obrigou a serem serviçais do Poder.
    Mas como é de esquerda é amigo.

    1. Não esqueço.
      Durante anos escrevi neste blogue sobre a Venezuela. Dizendo o que pensava sobre Chávez e o seu regime que perseguiu magistrados, jornalistas e opositores políticos a coberto de uma duvidosa legalidade “revolucionária” e transformava cada adversário num “inimigo” e num “traidor”, utilizando a linguagem bélica como arma de intimidação política. Enquanto permitia que Caracas se tornasse a segunda cidade com mais homicídios ‘per capita’ do subcontinente, logo após a mexicana Ciudad Juárez.
      Não preciso de repetir isso aqui. Qualquer leitor que clique na etiqueta ‘Venezuela’ tem acesso a esses textos.

      1. Ok mas não está essa informação neste texto.

        Aliás se Chavez fosse da extrema direita o angulo militar – é um coronel paraquedista – como característica negativa estaria sempre presente em qualquer narrativa.
        Iríamos ouvir palavras como militarista e ás ordens da industria militar enquanto o crime subia – é só ir à lista de compras de novo armamento por Chavez.

        1. Só para referir textos meus, aqui ficam as referências com as respectivas hiperligações:

          21.1.2009 – Hugo Chávez
          delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/67018.html

          16.2.2009 – Venezuela: vitória amarga
          delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/174233.html

          3.3.2009 – A sabedoria de Simón Bolívar
          delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/244274.html

          4.12.2009 – Caracas: muito crime e pouca luz
          delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1236568.html

          25.1.2010 – Venezuela: a lei do silêncio
          delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1395754.html

          14.7.2010 – O caudilhismo, uma doença infantil da esquerda contemporânea
          delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1884844.html

  4. Tinha uma insaciável sede de poder.

    Este julgamento não me parece correto de um líder que sempre se fez eleger em eleições democráticas e que nunca tentou controlar o poder dos mídia – que permanecem na Venezuela maioritariamente privados e maioritariamente anti-Chávez.

    1. Quem disse que ele não se fez eleger em eleições democráticas? Um político pode chegar à presidência pelo voto democrático e ter “insaciável sede de poder”. Sobretudo quando muda a Constituição para pôr fim à limitação temporal do mandato presidencial.

      Quanto ao “controlo dos media pelo poder político” na Venezuela, já escrevi abundantemente sobre esse tema com Chávez vivo. Não quero voltar ao tema agora com ele morto.
      Mas como sugestão de leitura recomendo-lhe este relatório apresentado em Setembro passado pela organização Repórteres Sem Fronteiras à subcomissão de Direitos Humanos do Parlamento Europeu:
      es.rsf.org/venezuela-intervencion-de-reporteros-sin-18-09-2012,43404.html

    2. “Este julgamento não me parece correto de um líder que sempre se fez eleger em eleições democráticas e que nunca tentou controlar o poder dos mídia”

      Pura mentira à Pravda.
      Tu Imagen TV, Globovisión e Nelson Mezerhane,
      Globovisión e Guillermo Zuloaga, Televen, são só algumas e só estamos a falar de TVs.

      Suponho que o Luís Lavoura também acha que as eleições no Irão são Democráticas…ou usar todos recursos do estado para ser reeleito..

  5. uma eleição igualmente inútil

    Como assim?

    Foi uma eleição democrática na qual a oposição, apresentando-se unida em torno de um só candidato, perdeu por relativamente pouco.

    Foi uma eleição que demonstrou que a maioria do povo está efetivamente com o chavismo.

    1. Foi uma eleição inútil porque o eleitorado votou num moribundo enquanto o partido governamental procurava desesperadamente esconder dos cidadãos o verdadeiro estado de saúde do candidato, não tendo sequer sido revelada a doença de que padecia.
      Tão inútil que o candidato nem chegou a tomar posse do cargo.

  6. Os regimes políticos populistas (e autocráticos) têm destas coisas: são compostos por gente desprovida do mais elementar bom senso. No fundo, o verniz estala facilmente através de zunidos e argumentos ridículos. A comunicação é transformada em pura propaganda rasca.

    Moral da história:
    Para palavras loucas, orelhas moucas.

  7. Quem conhece a realidade dos países latino-americanos compreenderá certamente que as transições passam por este tipo de acontecimentos e governação. Hugo foi o líder da transição, e ninguém pense que a América Latina será o que foi, como ou sem Hugo.

    1. Certo. Mas no Brasil não foi necessário aparecer nenhum Chávez para a transição ocorrer. Houve um FHC, um Lula e agora a Dilma. Protagonistas da verdadeira transição – aquela que permite melhor custo de vista a milhões de habitantes que transitaram das classes pobres para a classe média.

      1. Sim é parcialmente verdade o que afirma, em particular no que respeita a FHC, o verdeiro promotor da estabilização monetária. Ao referir parcialmente verdade só pretendo lembrar o que foi a completa anarquia com Collor de Melo; aqui se iniciou o processo de transição.

  8. Análise perfeita.
    Diz-se por aí que terá morrido há mais de um mês…
    Espera-se que a sua morte não sirva para o transformar, finalmente, num Deus.

    1. Tudo na vida é efémero e precário. Chávez, que várias vezes disse ambicionar continuar presidente até 2031, mal sabia como o seu destino seria curto. Pena não ter revelado lucidez suficiente para abandonar o poder ainda em vida, no Outono passado, dando lugar a uma transição menos tumultosa e atribulada do que aquela que vai seguir-se.

  9. Acredito que o chavismo irá continuar a marcar a vida política venezuelana nos próximos anos. O carisma como dizes não se transmite mas no caso de Chavez a marca vai perdurar. O seu chamado socialismo, um misto de ideologia onde frases eram coladas e descontextualizadas serviu para o manter como presidente estes últimos anos. Foi o político que por estar sentado num barril de petróleo pode achincalhar o pior presidente dos EUA. Foi a fome com a vontade de comer.
    Olhando para a história política da Venezuela acredito que mais tarde ou mais cedo, por causa da sua vontade de se perpetuar no poder, seria deposto e com violência. Os venezuelanos podiam admirá-lo mas se há coisa que eles prezam é a democracia e a liberdade.

    1. A liberdade com Chávez esteve sempre condicionada, Tiago. O canal de TV com maior audiência viu-se forçado a fechar por decisão governamental, o mesmo sucedendo a 32 estações de rádio.
      O pior do regime chavista foi, no entanto, o notório culto de personalidade em que se alicerçou. Isso gera, por contraste, um enorme vazio no ciclo político que se seguirá. O regime ‘bolivariano’ esvazia-se sem o seu fundador. Já para não falar nas guerras pelo poder que vão seguir-se: não é preciso ter dotes divinatórios para antever isso.

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