António Lobo Antunes, com a sobriedade de estilo que lhe é peculiar, resume hoje numa simples frase, de uma crónica magnífica – continuo a pensar que a eternidade devia ser privilégio de cronistas e de contistas -, aquilo que devia ser a política cultural da nação. O texto ainda não está acessível online (esta palavra não consta da lista do Pedro mas é igualmente detestável), e também não serei eu a colocá-lo. Independentemente do que se possa pensar, a revista deve ser comprada para que José Carlos Vasconcelos tenha meios para poder continuar a pagar ao cronista. Além de que é ele próprio, cronista, quem rejeita a ideia do seu trabalho algum dia poder ser posto à venda numa loja dos trezentos, o que me parece particularmente acertado se quiser continuar a escrever na Visão.
Bom, mas que nos diz ele de tão importante? – perguntarão os leitores. Evidências, digo eu.
A dificuldade para compreender uma evidência está nela própria. É algo de tão imediato que nos entra pelos olhos adentro. Nos cega. E cegando-nos impede-nos de ver, de avaliar o exacto alcance da sua grandeza.
António Lobo Antunes tem o condão de ver para lá da cegueira e de, dizendo coisas simples e honestas, escrever um texto que é um verdadeiro manifesto político. Um programa de governo a incluir no OGE de 2011 (esta é para Pedro Passos Coelho).
Bem sei que o escritor (ele deve preferir ser tratado como tal), como qualquer um de nós, é confrontado no seu quotidiano com a irracionalidade, com a burocracia, com a estupidez. Só que enquanto nós, palermas, passamos por cima disso (“é a vida“), ele escreve a sua crónica, cumpre a sua missão, honra o contrato. E a melhor forma que ele tem de honrar o contrato é identificar as evidências, trazê-las até nós, simples leitores anónimos, que esperamos encontrar nas suas palavras a justificação, também o consolo e o refúgio, para a nossa cinzenta existência. Falo por mim, que não morando em Massamá, nem no “Héron Castilho”, nem escrevendo na Visão, a única eternidade a que posso aspirar é a de um dia alguém largar as minhas cinzas no Guincho. Hoje em dia é uma coisa barata e estando ao alcance de qualquer um certamente que não deixará de ser reconhecido como um último gesto de cidadania.
Recordo uma vez ter lido um texto notável de Jorge de Sena em que ele, dirigindo-se a um candidato a jovem poeta, ou escritor, a dada altura referia que se o destinatário dessa missiva quisesse ter sucesso deveria começar por se prostituir, escrevendo aquilo que os editores e os bem-pensantes gostavam de ler e depois, um dia, quando tivesse alcançado o sucesso, se ainda tivesse ficado lá no fundo com a motivação e não tivesse vendido todos os seus princípios, então poderia começar a escrever aquilo que lhe dava prazer. O que qualquer editor recusaria publicar a um jovem candidato. Por outras palavras, foi mais ou menos aquilo que o Orlando da Costa, com a amizade e a simplicidade que eu recordo, um dia me disse.
Lobo Antunes aprofunda hoje na sua crónica essa perspectiva de Sena, que tanto me marcou, quando discorre sobre os editores e nos transmite a ideia de que encontrar “um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro do que ler um bom livro“. Essa é uma das ideias que ressalta do seu texto. Não será, porém, a meu ver, a mais importante. Editores também não são o meu forte nem a minha primeira preocupação.
Não sei se todos os que compram a Visão e lêem os livros de Lobo Antunes sabem ler. No caso dos livros de José Saramago tenho a certeza de que muitos dos que compraram os seus livros, para desgosto dele, pelo menos aqui, não sabiam ler. Alguns poderão ter aprendido depois, com a leitura dos seus livros, que é para isso que os livros (os bons) também servem. Vivendo em Portugal, com os níveis de iliteracia que temos, olhando para “figuras públicas” – são as que no meu critério têm tempo de antena regular – que dizem “interviu” em vez de “interveio”, “vácina” em vez de “vacina” e “báctéria” no lugar de “bactéria”, não será difícil compreender que quem assim fala dificilmente saberá ler mesmo que tenha uma grande biblioteca.
Comprar livros qualquer um compra. Asnos incluídos. Saber ler só alguns sabem. E nas entrelinhas só mesmo o Mário Crespo, o Nicolau Santos, o Ricardo Costa, e mais um ou outro “serial reader“, como Pacheco Pereira ou Marcelo Rebelo de Sousa, consegue fazê-lo.
Daí que me tenha parecido genial a constatação de António Lobo Antunes de que “o argumento temos de pôr as pessoas a ler é idiota“. Ler já elas lêem, senhora ministra.
Aquilo que a crónica de Lobo Antunes tem de diferente, e por isso recomendo vivamente que comprem a Visão, é que ele contesta essa idiotice com a frase: “o que temos é de ensinar as pessoas a ler“. Esta é a evidência que resume tudo. Até o país em que estamos.
E resume tudo porque quando um homem como António Lobo Antunes, ao fim de dezenas de anos de escrita – boa, muito boa e genial – detecta uma evidência destas e a consegue pôr em letra de forma, é sinal de que se prepara para atingir o Olimpo.
Ele sabe, tão bem quanto um cronista pode saber – só o cronista é um génio -, que a única garantia da existência de um editor, que é como quem diz de um cronista, está em ensinar as pessoas a ler. Quando isso é dito num país onde não se sabe ler e numa revista que é lida por gente que se assoa à gravata (e o O´Neill sabia que eles não moravam em Massamá), isso só pode querer dizer uma coisa: António Lobo Antunes atingiu, finalmente, a imortalidade. Em Portugal têm sido poucos, muito poucos, os que o conseguiram. O último de que me lembro (não, não foi o Saramago) foi o José Cardoso Pires.
Quando um cronista, vá lá, um escritor, escreve uma crónica como a que Lobo Antunes hoje publicou na Visão, isso merece ser saudado e devidamente enaltecido. Normalmente, neste país, ninguém põe o dedo na ferida. Uns por nojo, outros por medo, outros por estupidez. Meter o dedo na ferida por vezes arde, queima, e ninguém é insensível à dor.
O único problema que eu vislumbro na ideia de António Lobo Antunes é que para este país poder aprender a ler seria necessário começar por tirar os livros às pessoas. Não digo queimá-los, mas retirá-los à laia de imposto sobre a leitura. E depois obrigá-los todos a aprenderem a ler antes dos livros lhes serem devolvidos. A começar pelos de Lobo Antunes (quem tem a ideia nesta coisas normalmente trama-se), e depois pelos outros todos, até chegarmos ao Camões. E isso poderia ser feito respeitando a ordem cronológica das publicações. E só seriam devolvidos quando todos tivessem aprendido a ler.
Esse seria o primeiro passo para este país poder avançar. Seria mais eficaz do que o Magalhães. Seria um pouco como tirar os BMW e os Audi a essa cambada de louras, algumas com bigode e óculos escuros, que anda na estrada a 150 km/hora a fazer sinais de luzes na A2, em especial quando um tipo regressa a casa depois de uma derrota na Luz com a Académica. Esses gajos também não sabem conduzir. Gostam de botões e manettes. São como os que não sabem ler que gostam de livros e de revistas e fazem colecção de marcadores da Bertrand.
Eu sei que esta parte é a mais chata. Ninguém gosta que lhe tirem o que tem. Mas quem aos poucos vai perdendo a língua também não merece ter livros. Se não os sabe ler para que os quer?
Oxalá que José Sócrates esteja de acordo comigo. É um apelo que lhe faço. Se ele conseguisse ensinar os portugueses a ler, dando corpo à clarividente conclusão de Lobo Antunes, resolveria o problema do défice. Se os portugueses aprendessem a ler estariam ocupados, não gastariam os dinheiros dos bónus nas Amoreiras. Seria uma nova oportunidade. E poupariam tempo ao Presidente da República, que por vezes tem tanta dificuldade, como se depreende das suas cada vez mais parcas palavras, em perceber o que lhe enviam para Belém para ser lido. Quem não sabe ler também não sabe escrever. É um drama. Mas, ao contrário do país, este tem solução. O país também pode ter desde que se comece por aqui.
Se José Sócrates conseguisse ensinar os portugueses a ler com o próximo OGE daria uma grande satisfação a Lobo Antunes. A mim também. E eu até estaria disposto a perdoar-lhe o facto dele e toda a classe política não se mudar para Massamá. O Cacém seria suficiente desde que pelo menos fossem às aulas. O Lobo Antunes teve uma ideia fantástica. É um génio. Os génios não precisam do Nobel.
P.S. Este texto segue a antiga ortografia (agora “a gente” quando escreve tem de dizer estas coisas, senão tiram-me o computador e lá vai o online para o galheiro).


Esta ideia do ALA já vem de longe, ele fala nela sempre que tem oportunidade, nos encontros com o seu público.
Levo a questão ainda mais além: há que primeiro incentivar o gosto (perdido) pela leitura e só então, depois deste estar presente, ensinar a ler.
Os programas escolares da disciplina de língua portuguesa são pouco apelativos, os textos são analisados pela rama, não se vê um esforço para puxar pelo aluno em relação à interpretação de um texto ou escrever sobre ele.
Os miúdos lêem pouco, basicamente só aquilo que o programa obriga e mesmo assim sabe Deus, e escrevem ainda menos.
É um problema que começa logo na primária e antes disso em casa, com os pais. Um esforço que devia começar em casa e terminar na escola.
Se os pais também não lêem, ou não sabem, terá de ser mesmo a escola a dar às crianças as ferramentas e serão depois os filhos a incentivarem os pais a ler. Como aconteceu com algumas campanhas de sensibilização rodoviária ou de combate ao fumo, cujos efeitos se alargaram por via da acção dos miúdos em casa.
E o lixo seleccionado em casa. Tens razão, Sérgio, e tem razão a Patti. Aquela frase é um diagnóstico magistral.
Embora compreenda o que queres dizer com tirar os livros às pessoas, discordo que todos tenhamos de aprender a ler o que os outros entendem que deve ser lido. Fui leitora de ALA muitos anos, mas chega-me, não vou ler mais, porque há mais escritores e, na verdade, cansei-me. E é um direito meu, como é um direito daqueles que afirmam que não lêem Saramago não o ler. A obrigação da leitura é um dos principais motivos da sua aniquilação. Por alguma coisa, além da incompetência de alguns professores, os livros que lemos na escola ficaram para trás. Adolescência e obrigação não casam muito bem. Como dizia Daniel Pennac “o verbo ler não suporta o imperativo”. Tenho uma experiência muito curiosa com os meus alunos: empresto-lhes muito livros. Tenho a certeza que isto só acontece porque não sou a professora de Português deles. Como sabem que gosto de ler e me vêem com livros pedem-me conselhos e empresto-lhes os meus livros, que lêem e até à data devolveram sempre, mas isto só acontece porque não há obrigação nenhuma.
Além da falta de hábitos de leitura, há outro factor fundamental: as famílias não podem comprar livros aos preços praticados em Portugal e que considero insultuosos. É certo que todos têm telemóveis de última geração, gadgets sem limite, contudo, viver com os ordenados miseráveis deste país não é compatível com a implementação eficaz de hábitos de leitura. É claro que se pode recorrer a bibliotecas, praticar bookcrossing , mas, e isto é uma visão muito pessoal, há que amar o objecto, tê-lo perto, senti-lo e obviamente começar desde tenra idade com os pais.
Concordo, Leonor. Jamais estaria de acordo com a ideia de “tirar os livros” a quem quer que fosse. Muito menos concordaria com mais imposições – para leituras programadas, já basta o Ensino Básico e Secundário – é um mal necessário, eu sei, mas não deixa de ser triste que em turmas de 20 alunos apenas dois ou três saiam de lá com vontade de ler Eça, Camilo, Garrett ou Ferreira (felizmente, sou do tempo em que o programa do Secundário ainda incluía a “Aparição, e não o “Memorial do Convento”).
No resto, creio quecada um deve ler o que muito bem entender – ou, se assim entender, não ler de todo. É triste, sim, mas é uma escolha pessoal. Não me incomoda minimamente que uma boa parte das pessoas prefira ler Dan Brown, Sousa Tavares, Rebelo Pinto ou Nicholas Sparks – ao contrário da posição que me parece ver defendida por Lobo Antunes, consido que lerem autores nenhuns.
Paralelamente, não considero nada grave que alguém decida, por vontade livre e própria, não ler Saramago ou Lobo Antunes, ou outra qualquer vaca sagrada – e muito menos considero que quem o faça deva ser “inferiorizado” por isso. Felizmente, existem muitos mais autores de talento do que aqueles que foram colocados no altar.
Caríssimos,
É evidente que a figura a que recorri (“tirar os livros às pessoas”) tem um contexto muito próprio. E também muito pessoal. Não deve ser tomada à letra. E também creio que o ensinar as pessoas a ler a que o ALA se refere não tem o sentido de se lhes impor a leitura do que quer que seja.
Sim, eu entendi, mas as imposições deste tipo causam-me brotoejas, Sérgio. O leitor deve ser livre e ninguém tem o direito de dizer que alguém não soube ler um autor. Leu-o, transportando consigo tudo o que é, e essa é uma leitura tão válida como qualquer outra.
Estamos em sintonia, João. E por muito que doa, mais vale ler autores que consideramos mediocres do que não ler de todo.
O problema é a avaliação, Leonor. É que nós podemos considerar muito bom um autor normalmente considerado medíocre – e aí, quem tem razão? Ou podemos simplesmente não gostar de um “consagrado” sem que isso faça de nós “incapazes de o ler”. Ou se calhar podemos nunca ler os “clássicos”, os tais consagrados. São tantos. No limite, o que me interessa é que as pessoas leiam, ainda que não tenha nada contra quem não gosta de ler (é apenas um tema de conversa a menos), e pouco me interessa aquilo que lêem. Até porque como já se percebeu aqui no blogue, as minhas leituras também são tudo menos canónicas.
Eu diria que às vezes é mais uma questão de preconceito ao qual não sou imune. Fazemos muitas vezes juízos de valor através das leituras, qualidade e quantidade, e é infelizmente comum rotular as pessoas de acordo com com o que lêem ou não lêem.
Li com atenção o teu post sobre o 2666 e mais uma vez partilho a tua opinião, mas pergunto-me se, por uma questão de temperamento, não seremos eternos adolescentes a ir contra a corrente.
Bom, o meu post era mais sobre o “hype” e “contra-hype” em redor do livro, do que sobre o livro em si – que, de resto, não li, nem tenciono ler a curto prazo.
Ninguém é imune ao preconceito (seja que preconceito for). Todos, a dada altura, seguimos uma tendência ou outra. Claro que rotulamos e estereotipamos – é a forma mais fácil que temos de identificar os outros. Rotular alguém pela leitura é facílimo. Pior: rotular a própria leitura em si é extremamente fácil, e muitas vezes enganador.
Mas no fundo, creio que o que importa é que saibamos tomar as nossas próprias decisões: ou seja, que queremos ler o livro X não porque os críticos Y e Z o recomendaram, mas simplesmente porque lemos alguma coisa sobre o livro que nos interessou. Ou porque gostamos do género, ou do tema.
Concordo com a Leonor Barros e com João Campos. Acho que o importante era todos terem o desejo e o gosto de ler. Quanto aos autores e estilos preferidos, cada um que escolhesse os seus.
Muito importante também era que as pessoas soubessem interpretar o que lêem para sua vida do dia a dia. Acho que deveria começar por aí. É simplesmente aterrador vermos como uma grande parte das pessoas são incapazes de compreenderem um texto dos mais simples.
Maria Carvalho