Quando eu era pequeno, e ia para a cama cedinho, a minha mãe lia-me histórias bíblicas, inoculando-me, sem o saber, criacionismo e maus costumes. Em nenhum outro livro a expressão “dormir com os anjos” é sinónimo de uma noite pouco sossegada. Conheci Noé e a sua epopeia de meteorologia e construção naval, torci pelo sucesso da Torre de Babel (um relato em que linguística e construção civil se unem) e abominei Abraão, um daqueles tipos que só dá jeito conhecer quando o negócio é fundar uma religião universal ou degolar um filho. Mas uma das minhas histórias preferidas é relativamente obscura. Pode ser encontrada no livro de Juízes e envolve profecias, ajudas divinas e um dos melhores homicídios da história da literatura. Naquele tempo, Débora, juíza e oráculo, garantiu a Baraque (calma, calma) que Deus lhe daria a vitória sobre uma tribo inimiga liderada por Sisera (era um homem). E assim aconteceu. O exército de Sísera foi derrotado mas este fugiu para a tenda de uma família com a qual (julgava ele) estava em paz. Foi recebido por Jael, mulher de Héber, que logo o convidou a entrar. Ele pediu-lhe água e silêncio, Jael deu-lhe leite e uma manta. Quando Sísera dormia o sono dos ímpios, Jael pegou numa das estacas da tenda e, com um martelo, cravou-a na cabeça do homem até ao chão, eliminando um inimigo e, mais importante, ajudando a manter o registo imaculado da profetisa Débora. Da Bíblia protestante da minha mãe não fazia parte o livro de Judite, mas é neste livro que encontramos a releitura da história de Jael. Graças a Goya e a Caravaggio, a história de Judite é mais conhecida mas o elemento central é comum: a mulher que mata o líder do inimigo, neste caso, Holofernes. O acto de Judite, mais do que o de Jael, terá sido uma das inspirações de Charlotte Corday. O crime que cometeu dirá mais do que o nome: a 13 de Julho de 1793, Charlotte assassinou Jean-Paul Marat, um dos mentores do Terror. Motivada por questões políticas e religiosas, Charlotte partiu de Caen para Paris e já na capital comprou uma faca. Após muitas insistências conseguiu aceder aos aposentos de Marat, onde o “amigo do povo” tomava um banho de imersão por causa de uma doença de pele. Após uma curta troca de palavras, Charlotte empunhou a faca e, com a mesma frieza de Jael e de Judite, cravou-a no coração do debilitado Marat. Quatro dias depois, Charlotte foi guilhotinada. Sinal dos tempos, o quadro de Jacques-Louis David sobre o assassínio de Marat ignora Charlotte. A atenção é toda para a vítima, que aqui é herói e mártir. Charlotte, ao contrário de Judite, não mereceu os louvores da grande arte. Também por esse motivo, a esta hora não haverá mães a transmitir aos filhos a história de Charlotte Corday e, para algum miúdo mais sensível à violência do Antigo Testamento e menos interessado na Revolução Francesa, Jael ainda será a heroína
Quadro: A Morte de Marat, de Jacques-Louis David (1793)



Interessante reflexão sobre memórias. Parabéns ao Bruno.
Obrigado, João
e aproveito para agradecer o convite a todos os delituososdópnião.
Este quadro da morte de Marat sempre me impressionou especialmente, nem sei porquê. Talvez porque representa bem histeria moralista e hipócrita da revolução francesa, que refinou com requintes de malvadez o pior que há na natureza humana. É uma época histórica de que só guardo o belo lema – Igualdade, Fraternidade, Liberdade – intocável nas intenções, mas infelizmente abusado e treslido até ao limite.
Belo texto, Bruno. Seja muito bem-vindo.
Obrigado, Ana
Excelente texto, Bruno. É com muito gosto que te recebemos no DELITO.
Obrigado, Pedro
eu é que me sinto honrado com o vosso convite.
Abraço
Bruno, não aprecio que se trate Abraão assim de qualquer maneira num passe literário para épater le bourgeois. Mas tacto, please. Espero que permitas que ensaie brincar e não me brindes de novo com a epistemologia do comentário “útil”.
Ser-te-ei um comentador tão útil como as flores de Álvaro de Campos. Abraço.