Um país deprimido por culpa do futebol


Pedro Correia,

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Parecia um terramoto. Só não provocou a queda do Governo porque a defunta geringonça já se tinha encarregado disso, na votação parlamentar que provocou o primeiro chumbo de um Orçamento do Estado da nossa democracia.

A derrota da principal equipa portuguesa de futebol ao nível de selecções, humilhada pelos adversários sérvios no estádio da Luz com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa na tribuna, causou um abalo sísmico na psicologia colectiva deste povo habituado a glorificar os heróis da bola. Não só por nos afastar da qualificação directa para o Campeonato do Mundo, a disputar daqui a um ano no Catar, mas pela sofrível exibição da turma das quinas, catalogada na oitava posição da tabela classificativa internacional, enquanto a selecção da Sérvia surge num modesto 29.º lugar.

Uma angustiante dúvida apoderou-se dos milhões de portugueses que acompanham com fervor o chamado desporto-rei: teremos regressado à era em que acumulávamos fracassos nos relvados, mascarados de «vitórias morais» pelos cultores dos eufemismos? O nosso inédito reinado como campeões europeus entre 2016 e 2021 terá sido proeza irrepetível?

 

Foi curioso ver as reacções em estúdio de vários comentadores, confrontados com a derrocada. Dividem-se em três grupos, cada qual com os seus pontas-de-lança. Aqueles que sempre ansiaram pela queda de Fernando Santos por ter posto os futebolistas a «jogar feio», mesmo vencendo, apressam-se a reivindicar a defenestração sumária do seleccionador. Aqueles que até agora lhe entoavam hossanas mudaram a agulha: falam em «equipa de Portugal» quando dantes invocavam a todo o momento a sacrossanta «selecção nacional». E há ainda os profissionais da ambiguidade, que jamais arriscam uma frase digna de suscitar polémica: estes aludem a «uma exibição cinzenta», lastimam a «noite pouco feliz», lamentam vagamente a «exibição menos conseguida».

Não faltaram bitaiteiros de vários matizes no deprimente serão televisivo de domingo – do pessimista militante que adora proclamar «eu bem dizia» mal vê a bola entrar na baliza errada ao puxa-saco subitamente travestido de crítico feroz. Uns e outros, com lugar cativo nas pantalhas, proporcionam por vezes espectáculos ainda mais penosos do que a ocasional mediocridade lusa nos campos de futebol.

 

No rescaldo imediato deste Portugal-Sérvia, o pior comunicador foi Fernando Santos: falou muito e disse quase nada, mandando bolas fora. Isto, por exemplo: «Nós todos sabemos que não fizemos aquilo que podíamos ter feito.» Felizmente os jornalistas recolheram também declarações de um jogador, Bernardo Silva, que se deixou de rodriguinhos e rematou assim: «Foi uma exibição péssima, peço desculpa aos portugueses.»

O essencial dito em apenas oito palavras. Se a equipa das quinas tivesse jogado como Bernardo comunica, a vitória seria nossa. Por goleada.

Melhor que ele, só o Presidente da República, ao exclamar: «A luta continua, em Março há mais!» Supõe-se que falaria de futebol. Mas com Marcelo nunca se sabe.

 

Texto publicado no semanário Novo

30 comentários em “Um país deprimido por culpa do futebol”

  1. a meio da 1ª parte desisti de ver os aleijadinhos
    « a bola é quinstrói
    o fado é quinduca »
    « vale + ser do Benfica que ser rico » já somos todos pobres

  2. “Um país deprimido por culpa do futebol”
    Não será antes “um futebol deprimido por culpa do país”.
    Como é que a Selecção há-de jogar bem se anda tudo a bater mal da bola.

  3. O Eng. é uma espécie de Cabrita da Federação, acima e imune a qualquer crítica.
    A única diferença é que o Cabrita é sempre a acelerar, já a Selecção nem na EN1 conseguia exceder o limite de velocidade.

  4. Sendo a selecção a equipa de todos nós e representando o país, o Eng. é uma escolha acertada.
    Tipo porreiro, não faz ondas, vive do passado.

  5. Faz confusão aquela do ‘sabíamos que…..’, então se sabiam por que não foi bem feito.
    Este poste “Um país deprimido por culpa do futebol” é um pouco parecido mas ao contrário: tivessem vencido, alegria, governo porreiro…e não havia poste de “Um país contente por culpa do futebol”.

  6. no destaque do sapo, nao informa o nome do autor do post.
    Mas sobretudo apos entrar e ver o nome, logo imaginei o meu comentario : até li um post sobre futebol, coisa que nao me interessa nada.
    Mas o Pedro começa logo a marcar. Grande Pedro.
    Mas depois fala das pessoas, da natureza humana, aqui na forma de opinadores e bitaiteiros. Ou seja, faz pedagogia. Bem feito.
    Só nao dá relevo a outro aspeto : ao 13º jogador, ou lá como se diz, e tanto bem se diz do publico e da sua importancia. Ora, um estadio cheio com milhares de pessoas a puxarem todas para o mesmo lado, e foi o que se viu (diz) !!!

    E termina tao bem como começou. Bravo, o humor tambem é preciso.

    1. O Pedro não brinca em serviço, com este post e até Março, sempre vai lixando o governo e arredores. O futebol dá para isto, acontecesse o contrário teríamos o Pedro a comentar ‘o PS aproveita a bola para fazer propaganda eleitoral’.

      1. A teoria da conspiração tem tentáculos mais longos do que um polvo gigante.
        Este até vê naquilo que eu escrevi uma crítica ao partido dele.
        Caramba, é bem verdade que a fé cega os acólitos do poder.

      2. Chapa5

        Talvez nem haja misterio. Mas a realidade é que continuo sem entender porque uns tantos blogs perdem a compostura por dá cá aquela palha, ninharias.
        A primeira hipotese é o cansaço. Mas cansaço cronico ? Existe ?
        Categoricamente o prejuizo para a imagem é inevitável. Mesmo se houver estrategia de polemica, os possiveis beneficios imediatos, nao se comparam á imagem danificada.
        Mal comparado, quando era criança uns tipos cambaleavam pelas ruas, seguravam-se nos postes e muros, falavam alto verdades, ate contra o regime, mas ninguem os seguia.

        Diz-se que os idosos voltam a ser crianças. Mas ao que se percebe, nao é o caso, os blogs que perdem assim a compostura, ainda nao sao ( estao ? ) velhos.
        E quando eramos criancinhas, um agredia o outro dizendo-lhe que o pai tinha orelhas de burro. O outro, nao podia ficar-se, e retorquia que o pai tinha nariz de elefante.

        que sentido faz hoje, um tipo vitima porque o seu clube sofreu anteontem 7 golos, em vez de estar escondido, tapar a cara, retorquir para o outro, que o clube rival sofreu 8 golos há 50 anos .

        Amanha vou inscrever-me em geriatria.

    1. E só rever o que se passou em 1640 no Terreiro do Paço com os apaniguados de “nuestros hermanos”

      1. Lembro-me perfeitamente como se fosse hoje. Espetámos com seis batatas à Espanha, directamente importadas da América pelo Pingo Doce. 1140… bons tempos.

  7. O último parágrafo é de partir o coco. O Ventoinha fala de tudo mesmo que não haja nada.
    Agora a sério, Portugal ainda pode ir ao Mundial, desde que FS dê um avolta pelo país e coloque em campo os melhores. Aconselho ums ida a Alvalade na 4º feira para ver 3 jogadores: Pedro Gonçalves, Gonçalo Inácio e Matheus Nunes. Pena : Adán, Porro, Feddal e Coates não ter dupla nacionalidade.
    SL

  8. Nesta altura, a responsabilidade pelo mau momento que a selecção atravessa já não é do FS, mas sim da federação que teima em mantê-lo quando claramente já não tem mão na equipa.
    Sem dúvida que haverá sempre o mérito pelo que alcançou e deve ser respeitado por isso, mas era mais que altura para mudar de liderança. O argumento da suposta indemnização em caso de despedimento serve apenas para criar mais suspeições sobre os interesses que gravitam em redor das convocatórias e voltamos aos maus velhos tempos onde os empresários é que decidiam quem ia á selecção. Por estes dias, não se pode negar a escandalosa ausência do melhor marcador da época passada enquanto que o flop de ouro mesmo a marcar 1 golo a cada 8 meses, lá está a ocupar uma vaga….ele há coincidências,,,,

    1. Esta direcção da FPF foi, de longe, a que mais títulos e troféus conseguiu. No futebol, no futsal, no futebol de praia.
      Os factos são estes.

      Futebol:
      – Portugal, campeão europeu (2016)
      – Portugal, vencedor da Liga das Nações (2019)

      Futsal:
      – Portugal, campeão europeu (2018)
      – Portugal, campeão mundial (2021)

      Futebol de praia:
      – Portugal, campeão europeu (2019, 2020, 2021)

      1. Prefiro dar o mérito aos atletas que se entregam em campo na conquista dos troféus e imediatamente a seguir os clubes que investem na formação, do que propriamente a uma federação podre de rica mas cheia de tachos e tachinhos. O exemplo mais básico é o desporto escolar onde nem tenta criar condições para captação de jovens. Se hoje há jogadores espalhados pelos melhores clubes do mundo, o mérito será de muitas pessoas/instituições mas a federação não será uma delas com certeza.

  9. António Lopes
    Um futebol deprimido por culpa de incompetentes, empresários oportunistas e muito chauvinismo à mistura.

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