Isto é serviço público


Pedro Correia,

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Última página da agenda de Salazar: 6 de Setembro de 1968

 

Celebre-se o arquivismo competente, ao serviço da investigação jornalística e da pesquisa histórica. É este o caso ontem justamente enaltecido nas páginas do Público: todas as agendas diárias de Salazar estão descodificadas e digitalizadas graças à diligência de uma arquivista chamada Madalena Garcia. 

São 1.781.004 palavras escritas durante 35 anos, entre 1 de Janeiro de 1933 e 6 de Setembro de 1968. Em 72 cadernos com cerca de 20 mil páginas, correspondentes a 13 mil dias. Num total de 9,3 milhões de caracteres e 4600 nomes diferentes ali registados.

Tudo agora enfim clarificado por quem, com paciência infinita, decifrou aquela caligrafia quase ilegível, aquelas abreviaturas enigmáticas, aquelas alusões que pouco dizem ao desprevenido leitor contemporâneo. Fruto de 16 anos de trabalho não consecutivos: os sete primeiros ocupados na leitura, inventariação, organização, classificação e transcrição, quando a arquivista trabalhava na Biblioteca Nacional; os restantes nove preenchidos com a reprodução integral das agendas, quando já se encontrava aposentada da Torre do Tombo, onde chegou a ser subdirectora.

Isto é serviço público. Parabéns a Madalena Garcia, exemplo de cidadania para todos nós.

27 comentários em “Isto é serviço público”

  1. É de louvar o trabalho, não há dúvida. Quanto ao conteúdo, talvez nos permita o esclarecimento da célebre queda da cadeira, visto que ele caiu a 3 de Agosto e a última página é de 6 de Setembro.

    1. Ele não anotou em lado nenhum que caiu da cadeira, como aliás se compreende: aquilo era uma agenda, não um diário. Há aliás várias teses divergentes quanto ao dia, quanto ao local e até quanto à origem da queda.

      1. Penso que essas divergências se devem ao facto de ele ter sido operado à cabeça só alguns dias após a queda, o que levantou suspeitas sobre o acidente e o silêncio por parte dos serviços secretos.

        1. Foi operado mais de um mês depois. Nesse intervalo remodelou o governo e assistiu à posse dos novos ministros.

          As versões contraditórias devem-se ao facto de praticamente ninguém ter testemunhado a tal queda, que pode até nunca ter existido. Há duas teses alternativas: ele terá caído na banheira do forte de Santo António, no Estoril, e teve de ser ali socorrido ou sofreu um AVC que não foi devidamente diagnosticado pela incompetência do médico assistente. Nesta hipótese seria o segundo AVC daquele ano: Franco Nogueira documenta no seu diário, ‘Um Político Confessa-se’, que Salazar terá sofrido o primeiro em Junho, quando se apresentou visivelmente perturbado num Conselho de Ministros.
          Praticamente a única testemunha da suposta queda no forte foi a governanta, que havia uns anos sofria de arteriosclerose e estava treinada pelo chefe a manter tudo sob segredo. Começando pelas injecções que Salazar levava regularmente, de dois em dois dias.

          Os “serviços secretos” nada tiveram a ver com isto. Aliás, em estrito rigor, os serviços de informações actuavam apenas nas três frentes de guerra em África. Por cá só havia a PIDE, que agia em exclusivo sob o comando de Salazar, raras vezes (ou nunca) em roda-livre.

          1. a governanta […] estava treinada pelo chefe a manter tudo sob segredo

            Estava “treinada”, como um cão?!

            Não seria melhor escrever “instruída”?

          2. Vê-se mesmo que você vive a milhas da linguagem comum. Na sua perspectiva, o treinador de uma equipa de futebol passaria a “instrutor”. Para que nenhum imbecil confundisse jogadores com cães.

          3. Pedro Correia os “serviços secretos” eram a pide, nas três frentes da guerra em África também havia os serviços de informações militares muitas vezes em “guerra” com a pide, acontecendo que os informadores informavam os dois lados.
            A pide pouco se importava com informações de âmbito militar, apenas se importava com os do contra nas cidades e pequenas localidades e onde ainda havia gente do tempo dos deportados.
            E quanto á cadeira, não se conhece ter havido prisões em lojas de móveis pelo que “a queda” é esquisita, o que houve foi uma tentativa de culpar o grupo de médicos assistentes por haver ligações ao pc.
            Tinham que haver a ideia que o homem não podia morrer. No dia do funeral fui chateado por ter ido para a praia ‘vai pra praia devia estar no funeral” disse-me um tipo na estação de Paço d’Arcos ‘ah sim e você onde é que devia estar’ respondi e fui para a praia.

          4. Confirma o que eu já tinha escrito. “Serviços secretos” eram a PIDE, depois denominada DGS. Em África existiam também serviços de informações militares, que se articulavam com a PIDE mas tinham considerável autonomia.

          5. Tem toda a razão. Nas colónias, a função da PIDE/DGS era fundamentalmente paramilitar.
            Cfr. “Os Flechas- A tropa secreta da PIDE/DGS na guerra de Angola”, Fernando Cavaleiro Ângelo, Casa das Letras, 2016

          6. Na biografia que Franco Nogueira escreveu de Salazar, diz aquele que a queda ocorreu no terraço do Forte de Santo António, quando a cadeira em que se estava a sentar cedeu e o fez cair desamparado, batendo com a cabeça no chão.
            A única testemunha terá sido o calista que lhe ia tratar dos pés, conforme carta deste posterior a Salazar, citada por Franco Nogueira.

          7. É a versão mais corrente. Há outra, que ele teria sofrido uma queda na banheira que terá sido disfarçada de “queda da cadeira”, tendo o calista sido cúmplice desta versão em conluio com a governanta.

    2. talvez nos permita o esclarecimento da célebre queda da cadeira, visto que ele caiu a 3 de Agosto e a última página é de 6 de Setembro.

      Importantíssimo saber! Não durmo desde então.

      1. “Não durmo desde então.”
        É curioso! Com o Salazar foi ao contrário, desde que caiu da cadeira nunca mais acordou.

  2. Boa noite Pedro Correia
    O que esta nossa concidadã realizou é serviço público, é serviço público notável, de elevadíssimo mérito. Todos os grandes líderes, independentemente do que se pense deles, deviam ter o seu espólio politico disponibilizado para estudo e ponderação por parte do concidadãos.
    Como cidadão, obrigado pelo seu trabalho, Sra D. Madalena Garcia.
    António Cabral

      1. Obrigado.
        Parece que não.

        “Para além de disponibilizar a transcrição total dos originais dos Diários, esta obra inclui inúmeras notas de rodapé que ajudam a esclarecer os conteúdos e um exaustivo índice onomástico, com mais de 4600 entradas.”

    1. É melhor não. O diário dele deve ser ainda mais aborrecido.

      Tipo:
      “Ontem tomei um copo de leite com o Baptista-Bastos. Falou, falou, falou. Agora arranjou um atelier à borla com uma cunha na Câmara. Tenho de arranjar uma maneira de sanear este corno aburguesado.”

  3. Seria importante enviar cópia do postal a Belém. Diz-se que os assessores já estão com dificuldades para preencher a lista dos próximos condecorados,… ou seria indultados? Raio de memória a minha.

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