
Há umas décadas passou na RTP um célebre concurso de talentos, apresentado por Raúl Solnado, que se chamava A Visita da Cornélia, onde os candidatos eram examinados por um júri, cujos membros tomavam frequentemente decisões polémicas. Um desses membros era o escritor Luís de Sttau Monteiro. Um dia informou os telespectadores de que estava a receber uma série de cartas anónimas insultuosas devido às suas decisões no concurso. Disse logo que não iria alterar o seu procedimento, e que se lhe queriam dirigir correspondência, os telespectadores fariam melhor em mandar-lhe bacalhau, que pelo menos era comestível.
Apesar de naquele tempo não existirem redes sociais, aquela mensagem no único canal de televisão tornou-se viral e ele foi literalmente bombardeado com envio de encomendas de bacalhau para sua casa, ficando assim com um abastecimento considerável. No programa seguinte exibiu algum do bacalhau que tinha recebido, mas avisou logo que lhe parecia que não era correcto ele ficar com todo aquele bacalhau em virtude de ser membro do júri do concurso. E concluiu: “Por conseguinte, decidi oferecê-lo todo a uma família necessitada: A minha“.
Foi disto que me lembrei quando vi esta atitude de elevada solidariedade do deputado do Bloco de Esquerda Paulino Ascensão que decidiu doar o dinheiro das viagens que recebeu do Parlamento a favor de uma associação de cujos corpos sociais faz parte. Afinal de contas, se está em causa a solidariedade e o altruísmo, por que razão não se hão de beneficiar os que nos são mais próximos? Assim se consegue o enorme benefício de termos uma solidariedade e altruísmo em circuito fechado. O deputado Paulino Ascensão é um exemplo para toda a nossa classe política.

https://www.youtube.com/watch?v=oJ4j3Oa YM_k
Ahahahah!
Lembro-me bem da Cornélia e do bacalhau do “Sttau” e das anedotas bacalhoeiras que daí advieram, tão ao estilo português.
O paralelo não poderia ser melhor conseguido.
Gostei de o ler no I.
Bravo (ouça-se, bravô!): grande postal.
Comentário 1.
Apenas vi e lembro vagamente a filha, embora tenha visto a mãe algumas vezes no Memória.
“A Visita da Cornélia” era também humor, e Sttau Monteiro sabia fazê-lo.
Paulino Ascensão tem tido atitudes que dariam vontade de rir se o cenário fosse outro, sei lá, no Parque Mayer…
Esta doação não será uma delas, uma vez que doa àqueles cujas necessidades reais conhece. O problema, e por isso dever ser notícia, é a origem do dinheiro.
E digo isto na presunção de que os órgãos sociais dessa associação não sejam remunerados.
Convém fazer uma declaração de interesse: voluntária numa IPSS de cujos órgãos sociais (graciosos) faço parte, consigno o meu IRS à mesma.
Comentário 2.
Escrevi o comentário 1. antes de ler a notícia do Público, género anotações para mais tarde.
Comentário 3.
Paulino Ascensão só tem tido atitudes que dariam vontade de rir se o cenário fosse outro, sei lá, no Parque Mayer… no cenário político que vivemos, merece todas as honras como Mestre da cara-de-pau oportunisticamente talhada.
“A caridade bem exercida começa na própria casa”
E faz ele muito bem. Não é como outros que até as próprias mães vendiam se fosse preciso.
Ora, está muito bem entregue a massa. A etnografia também abrange a área de estudo sobre o primitivismo. Creio que se encaixa na perfeição.
Sttau Monteiro, que conheci, e o bacalhau é um excelente exemplo que nos oferece para demonstrar como em Portugal existe arte para tirar de uma vaca o amigo fiel que alimenta, e à família.
Sempre ouvi dizer que ‘ a caridade bem principiada, principia por nós’…Foi deste dito que me lembrei quando li essa notícia sobre a ‘doação’ do deputado.
Excelente