Um descalabro


Sérgio de Almeida Correia,

IMG_8012.jpg

O gráfico ontem publicado pelo Diário de Notícias que ilustrava uma notícia com o título “Portugal é o segundo país mais mortal da UE e o segundo do mundo” é bem o espelho do estado a que o país foi conduzido.
Se, por um lado, o Governo confiava na responsabilidade dos portugueses quando se predispôs a abrir a “janela” do Natal e do Fim do Ano, não é menos verdade que foram esses mesmos portugueses que mais contribuíram com a sua irresponsabilidade para a presente situação.
Depois, talvez tenha havido um excesso de confiança por parte das autoridades, que a somar-se a uma gestão errante e à emissão de sinais contraditórios por parte de alguns dirigentes, contribuíram decisivamente para o descalabro que se lhe seguiu.
A correcção do actual quadro e um regresso à normalidade possível continuam por isso, e não obstante todos os recados dos especialistas, a ser no mínimo problemáticos.
O país e os portugueses empobreceram muitíssimo mais do que aquilo que seria expectável com uma gestão mais conservadora, mais impopular e mais previdente desde o início, que tivesse antecipado sempre os piores cenários e houvesse sido acompanhada de medidas mais duras que não contemporizassem com a rua e os comentadores do “sistema”.
Sei que de pouco ou nada vale o que por aqui se opina. Até porque não sendo especialista na matéria me limito a observar a realidade e a procurar a informação que está ao alcance de todos para me ir esclarecendo e pensando nos problemas que nos afligem.
Espero, posto isto, que o processo de vacinação possa avançar e concluir-se o mais depressa possível, sem novos atropelos, facilitismos e “golpes baixos” como aqueles que têm sido relatados.
Essa é uma das vertentes impostas pelo Covid-19 ao nosso quotidiano futuro e até que seja possível um regresso o mais parecido possível com a liberdade de que antes desfrutávamos.
A outra decorre dos resultados da “excursão” que a OMS promoveu a Wuhan.
Pensar que alguma vez, mais de um ano depois do que aconteceu, seria possível chegar a alguma conclusão sobre a origem do vírus seria pouco mais do que pura ilusão.
Com o terreno devidamente limpo, com o anfitrião a esconder os dados em bruto, com toda a gente amestrada, sem que quem investiga tivesse liberdade de se poder deslocar e contactar com quem queria e como queria sem o espartilho dos controleiros da praxe, o mais natural era que os resultados fossem inconclusivos. E não passassem das boas intenções.
Outra coisa, ademais, não seria de esperar da organização da “excursão”. Estava-se a ver que a forma condescendente, para não dizer subserviente, como a OMS admitiu ser tratada, e participar numa encenação, para poder entrar no país, já trazia em si e antecipava que o objectivo principal da empresa seria ilibar o anfitrião, mais o regime, de qualquer responsabilidade no que aconteceu.
Ao admitirem que esse seria o caminho – a meu ver errado – para o “sucesso”, esqueceram que ficaria sem resposta a principal razão para que só depois de muita insistência internacional e na sequência dos acontecimentos do ano passado fosse proibido o comércio de espécies selvagens nos mercados.
E aí cometeu-se um erro de julgamento. A China ignorou que a falta de transparência e de resultados conclusivos funcionariam contra si, e não só a estigmatizam ainda mais aos olhos da opinião pública mundial, como tornam mais claro que o caminho a percorrer para a credibilidade e respeitabilidade internacional ficaram mais estreitos, com o consequente aumento, daqui para a frente, do escrutínio internacional das suas acções. De todas.
Uma pseudo-investigação como a que a OMS conduziu no país, sujeita às baias impostas pelo regime, se internamente pode responder às necessidades de propaganda e afirmação, funcionará externamente sempre contra si e contra a imagem internacional do país e dos seus dirigentes, o que se agrava quando se vê que o inquilino da Casa Branca mudou e o desanuviado clima político em Washington limita hoje, como nunca, a margem de manobra da liderança chinesa.
Sem sabermos o que o Ano Lunar do Boi nos reserva, pouco mais haverá do que confiar nas vacinas e na providência, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para sairmos do vergonhoso lugar em que as estatísticas do Covid-19 nos colocaram.

13 comentários em “Um descalabro”

  1. ” não é menos verdade que foram esses mesmos portugueses que mais contribuíram com a sua irresponsabilidade para a presente situação.”
    Não se pode deitar a culpa para cima dos cidadãos. A culpa é sempre do Governo.
    Esta é a maneira de pensar dominante.

  2. “Se, por um lado, o Governo confiava na responsabilidade dos portugueses quando se predispôs a abrir a “janela” do Natal e do Fim do Ano, não é menos verdade que foram esses mesmos portugueses que mais contribuíram com a sua irresponsabilidade para a presente situação.”

    Continua a fantástica ilusão de que sabem as causas…
    Que tal explicar porque é que não aconteceu em Outubro, Novembro. E já agora porque aconteceu também uma subida exponencial de casos em Israel? onde não há Natal e os constrangimentos eram bem mais fortes.

    “o inquilino da Casa Branca mudou e o desanuviado clima político em Washington limita hoje, como nunca, a margem de manobra da liderança chinesa.”
    Foi Trump que saiu da OMS por causa da cumplicidade desta com o Governo Chinês, mas o autor prefere reescrever a história. Ainda por cima inventando que o clima político em Washington está mais desanuviado…

  3. Como a providência confia em mim, aqui vou eu botar um textinho celestial.
    Querem vender mais um milagre da “ciência” fazendo crer que em 15 dias os covids alienígenas levaram uma cacetada do governo e dos cientistas ao ponto de se reduzirem as mortes e as infecções.
    Vou ajudar os terráqueos a pensarem como os seres celestiais: Se nos outros países em confinamento duro e duradouro nos revelam que os úmeros são difíceis de conter, a pergunta que subsiste é a seguinte: porquê?
    PORQUE testam em mais quantidade as populações que os cientistas e governantes portugueses o fazem.
    Segundo números divulgados no período de 28 de Janeiro a 15 de Fevereiro o nr. de testes realizados em Portugal desceu de 6,3/1000 habitantes para 3,8/1000 habitantes.
    Conclui-se celestialmente que existe um número elevado de infectados por detectar.
    Conclui-se ainda que existe um aumento significativo de mortes que ocorrem em casa cujos dados necessitam ser tratados e divulgados com mais transparência.

    A outra questão que este ser celestial que sou necessita introduzir baseia-se no facto, disse FACTO, desta situação ser catalogada erradamente de PANDEMIA.
    Os terráqueos vivem uma SINDEMIA. E SINDEMIA revela-nos que carece de serem resolvidas as causas que originam taxas de mortalidade elevadas, ISTO É, os serviços sanitários, sociais, militares, protecção civil, estruturas de acolhimento deviam desde o início estar envolvidos no cuidado e prevenção de populações débeis e fragilizadas sob o ponto de vista da saúde e da vulnerabilidade social e económica que certamente teriam impedido e impedirão as elevadíssimas taxas de mortalidade e morbilidade que estas lacunas, falhas e inépcias têm produzido.
    Neste sentido, os hospitais e consultórios públicos e privados juntamente com as referidas estruturas socias (públicas e privadas), em regime de requisição civil, deviam e devem ser mobilizados na prestação de cuidados e prevenção primários e de seguimento às populações.
    O governo inepto optou por priorizar situações emergentes sabendo-se que as populações idosas e outras não idosas , devido aos riscos, mereciam e merecem um acompanhamento PREVENTIVO NAS MAIS DIVERSAS ESPECIALIDADES que lhes proporcionaria maior e melhor qualidade de vida.

    Por último, até agora o feminista Biden só revelou que, não tocando nelas, as políticas económicas, geoestratégicas e militares de Trump eram as correctas, limitando-se a políticas de consumo interno não substantivas (o muro e o Obamacare) para fazer crer que reverteu todo o plano Trump que condicionou Biden a um discurso lamechas de uma suposta unidade nacional que os abortistas-neofasistas-lgbtistas-feministas, ditos democratas, anteriormente desuniram.

    1. Eu concluo, … celestialmente, que quando a selecção natural cumprir a sua missão, o covid eclipsa-se para outros horizontes, para depois voltar mais forte e pujante do que antes.
      E se não for o covid manda um primo ou tio no seu lugar, isto porque as únicas espécies dominantes desde o início da vida foram, são e sempre serão as bactérias.

  4. Deve haver alguma explicação masoquista e sádica para a maioria dos portugueses “darem” quase a maioria ao senhor Costa e ao seu (des)governo.

  5. Quando não se percebem as coisas, toca de culpar alguém. É sempre fácil culpar os portugueses. O difícil é arranjar respostas com base comprovadamente científica do aumento dos casos em Janeiro. Eu ajudo: que tal a vaga de frio?
    Quando não há respostas da ciência, toca de fechar tudo em casa.
    O descalabro que se seguiu é o descalabro que todos os anos as urgências hospitalares têm. Basta fazer rewind e ver as notícias de outros anos. Este ano agravadas por esta nova doença.
    Estar a meter a culpa nos portugueses é redutor e pouco convinha ver que prometeu este mundo e o outro, quem enchia a boca com os melhores do mundo, ao mesmo tempo que se “esquecia” de fazer algo tão simples como planeamento .
    Quem por palas ideológicas deixa o SNS no estado que está,quem vai deixar o país ainda mais empobrecido, mais dependente, mais miserável e na cauda da Europa porque andou a vender banha da cobra com propaganda barata. E continua.
    Esses é que são os verdadeiros responsáveis do caos que se assiste.
    O resto são exercícios de adivinhaçào sempre desmentidos pela realidade. Basta ver as previsões dos “especialistas” que não acertam uma.
    Concluindo, dispenso moralismos e assunção de culpas de terceiros. Como cidadão do povo que acusa de irresponsável.
    Tenha uma boa tarde.

    1. “Quem por palas ideológicas deixa o SNS no estado que está…..”
      Eu não tenho palas ideológicas. Não tenho ideologia. Não tenho valores.Eu resolvo os problemas que se apresentam e deixo-me de teorias. Sou prático. Nada de teorias o que interessa é resolver os problemas….e avançar….

  6. Parece exagerado considerar que a presente situação se deve exclusivamente ao dia de Natal sem restrições e ao pouco cuidado dos portuguêses.
    À primeira vista é fácil procurar culpdos e relações de causa e efeito simples, mas nem Portugal é o país dp mundo que teve as regras mais laxistas no Natal nem os portuguêses foram os que mais furaram o confinamento (na Holanda p.ex. deu direito a mainifestações com pancada).
    Já vi aqui neste blogue chamarem atenção para o nº de mortos por habitante cá ser superior ao do Brasil e do EUA, países que tinham governantes que se opunham ao confinamento, o que pressupõe que Bolsonaro e Trump não fizeram tudo mal. Ao mesmo tempo diz-se que o que falhou foi não ter sido feito um confinamento mais rigoroso.
    É difícil ser prior desta freguesia.

  7. “O Governo confi[ou] na responsabilidade dos portugueses” mas “foram esses mesmos portugueses que mais contribuíram com a sua irresponsabilidade para a presente situação”.

    1. A população portuguesa tem uma taxa de infectados de 7,2%, enquanto o Conselho de Ministros tem uma taxa de infectados de 35%. Porque é que a 1a é que é irresponsável?

    2. Porque é que as populações americana, brasileira, sueca e britânica se comportam de modo evidentemente responsável e, portanto, os calamitosos números pandémicos nesses países são ‘evidentemente’ culpa dos governos respectivos, mas em Portugal a culpa reside, evidentemente, na irresponsabilidade da população?

  8. Há tanto especialista,tanto matemático, tanta teoria, que por vezes chego a pensar que o vírus deve ser mesmo estúpido por não fazer nada do que os técnicos dizem.
    Pensando um bocadinho, se tivermos um R=1 quer dizer que se houver mil infectados num dia no outro dia temos dois mil infectados. Pois, mas se fosse assim tão linear, ao fim de dez dias tínhamos um milhão, ao fim de treze dias tínhamos oito milhões e ao fim de catorze dias já tínhamos Portugal inteiro infectado e mais seis milhões de espanhóis.
    Que tal deixarmos de dar eco a teorias da treta e utilizarmos a nossa cabeça para pensar?
    Se as máscaras e o confinamento dessem resultado, deveríamos apresentar números melhores do que a Suécia. Não é o caso. Quem é que tem razão afinal?

  9. Sérgio de Almeida Correia, nenhum dos habitués cá do blogue está interessado na suas intervenções que, deduzo sejam fruto da sua experiência em Macau. Para eles, V. é propagandista dos “ditadores socialistas locais” que, graças aos «Direitos, liberdades e garantias fortemente condicionados», conseguiram o questionável sucesso de, desde os primeiros dias de Abril de 2020, não terem nem apena o habitual caso esporádico e, a “coisa” até fica explicada com a habitual lengalenga de Liberdade ou morte contaminado! Será que Macau é o Alvito do Oriente?
    Se não tivesse vivido mais de 35 anos em Macau até nem acharia a sua constante obsessão com a “mãe-pátria” como natural: porém, “excursão” ou “pseudo-investigação», julgo eu, até nem jogam de todo com o que, supostamente, a ONU (ou a OMS) ambicionava alcançar por lá, se até… tal como V. escreveu, «Pensar que alguma vez, mais de um ano depois do que aconteceu, seria possível chegar a alguma conclusão sobre a origem do vírus seria pouco mais do que pura ilusão». Julgo que só se pode concluir, logicamente a partir do que diz, que o argumento “dela” (da “mãe-pátria”), de que os “excursionistas” ou “pseudo-investigadores” apenas serviam uma manobra politica, até é razoavelmente lógico: «Pensar que alguma vez, mais de um ano depois do que aconteceu, seria possível chegar a alguma conclusão…»
    Reforçar as suas conclusões com um «que se agrava quando se vê que o inquilino da Casa Branca mudou e o desanuviado clima político em Washington limita hoje, como nunca, a margem de manobra da liderança chinesa» é como tentar convencer-nos de que houve uma tentativa de “desanuviamento”, mesmo apesar de os EUA, com o Biden (tal como com Trump, Obama, Bush, etc), serem mais do mesmo, e o “resto do mundo” (UE, Canadá, Austrália, etc – a habitual “maioria de 50 países” de que sabemos os nomes…) continuarem também a ser mais do mesmo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *