De êxito em êxito… até à derrota final


José Meireles Graça,

Num texto semeado de um inexplicável derrame de pontos de exclamação, Manuel Villaverde Cabral diz que:

“… há quem minimize o papel da presidência no sistema constitucional… mas então pergunta-se para que é o PR eleito por voto directo?”

Excelente pergunta, mas a resposta não é a que MVC desejaria: o Presidente não tem poderes para fazer governos de iniciativa presidencial, como tinha Eanes, e mesmo que um constitucionalista como Vital Moreira tenha sempre da Constituição a interpretação que convém à sua condição de socialista, neste ponto não apenas tem razão como não se arranjam constitucionalistas para dizer coisa diferente. Nem pagando-lhes honorários obscenos: não dá e pronto. Quem quiser aprofundar o assunto que vá escabichar o blogue de Vital, o Causa Nossa, armando-se de coragem e paciência.

“Apesar da contenção financeira e do aumento da dívida externa, o país não deixou de ter a maior quebra da economia depois das outras três a que o PS já presidiu desde o 25 de Abril!  A ‘recuperação’ do PIB levará tempo e não é tudo: tem de ser diferente dos últimos 25 anos!”

Tem. Mas como Marcelo é um peixe que nadou nas águas dos últimos 25 anos (e até dos últimos 71, isto é, desde que aprendeu a falar) pode-se contar com ele para tudo, que é o mesmo que dizer que não se pode contar com ele para nada.

“Costa entregou a presidência da República ao candidato da ‘direita’ logo na primeira eleição e reforçou publicamente essa entrega na reeleição, enquanto os três candidatos de ‘esquerda’ mal chegaram a 20% juntos! Entretanto, as novas ‘direitas’ já obtiveram 15%. Quanto aos 60% do presidente eleito ninguém sabe que partidos preferem hoje!”

Costa não entregou nada a ninguém. Marcelo ganhou as duas eleições porque a maioria dos portugueses que votaram acharam que ele era o pai extremoso e célebre que lhes oferecia um ombro compassivo e lhes limpava o ranho do nariz; e os que não votaram abstiveram-se porque entenderam que é tudo igual ao litro.

Nada, porém, permite supor que a esquerda perdeu a maioria: tem-na enquanto parte do desemprego estiver obscurecido por subsídios e “formações profissionais” pagas, a mancha da miséria se distribuir por cidadãos invisíveis para a comunicação social, os funcionários estiverem tranquilamente em casa, as moratórias das dívidas das empresas não se vencerem e a UE bancar o pato.

Costa apoiou Marcelo, da segunda vez, porque quis atrelar-se à carroça do vencedor e não à de uma louca razoavelmente imprevisível e estúpida, ou um comunista, ou uma bloquista com um par de asas nas costas. E fez bem: a ideia peregrina de que Marcelo era um candidato de direita não é muito diferente de imaginar que a plasticina é um bom material de construção.

“Finalmente, alguém acredita que serão os mesmos a garantir a modernização que nunca fizeram nem quiseram?”

Não, Manuel Villaverde, ninguém acredita, realmente ninguém acredita, lá isso… Mas quem quer modernização é a direita, e essa por acaso tem a maioria, qualquer que seja a combinação das suas partes? Não tem, pois não?

“É evidente que, no caso de saber lidar com o mesmo primeiro-ministro que lhe ofereceu duas presidências de bandeja, poderia chamá-lo a Belém e mostrar-lhe que não tem condições para persistir neste ‘empurrar com a barriga’ que não leva a sítio nenhum, ou melhor, só nos leva onde o vírus quer”.

Estamos em pleno delírio: primeiro Costa não ofereceu nada; depois Marcelo, se soubesse alguma coisa que pudesse explicar, ou Costa concordava – e só concorda com o que lhe convém – ou ignorava, porque o Governo governa e o Presidente preside. E se é para falar do vírus e da destruição económica que as medidas espoletaram, Marcelo é muito mais virófilo do que o PM, de modo que onde um diz mata o outro diz esfola.

“Ora, não tem o PR poder para chamar os partidos e convencer a maioria, a começar pelo PS, a aceitar um ‘governo de crise’ com fim marcado, em vez de aguardar penosamente um desfecho ainda pior da profunda crise em que o país se encontra?”

Tem poder, tem sim senhor, e é o género de coisa que Marcelo aprecia: negociações, rodilhices, truques, minas, armadilhas, alçapões. E até podia ser que o PS, quando visse o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, concordasse com semelhante plano, para associar o PSD (pelo menos o de Rio, mais que suficientemente pateta para cair na arola) à débâcle. Mas não estamos aí: há que esturricar a bazuca primeiro, pedir empréstimos enquanto os há em boas condições, e esgotar o resto da cartada da solidariedade europeia, apostando que a UE evitará até onde puder a repetição do cenário de crise, patinhos feios, e o Euro tremelicante.

Quando vai a barraca aluir? Não sabemos. Aliás, não sabemos nada: o futuro vai acontecer de uma maneira mas há muitas de o imaginar, além do que ninguém adivinha os factores novos que estarão presentes mas não, por definição, agora.

De modo que a pressa de chegar ao poder é má conselheira. Passos tomou conta do país e deu boa conta do recado. Mas parte do eleitorado sempre achou que as maldades da troica não decorreram de um acordo que o PS assinou, porque com essa ideia absurda lhe martelaram a cabeça e porque o PSD se deixou associar às negociações do MoU.

Da próxima vez, tarde que seja, é preciso que o PS seja esmagado nas urnas, mesmo que o preço seja deixá-lo cavar o buraco do país mais fundo do que apressados remendos de salvação poderiam evitar. A ver se por espaço de uma geração se pode de-esquerdizar a comunidade. Com os devidos agradecimentos aos coveiros: afinal, sempre reduziram os dementes do Bloco aos seus acampamentos de gente gira; e os comunistas aos seus bunkers no aparelho de Estado e sindical. Nada que não se possa dinamitar.

E Marcelo? Deixá-lo a fazer discursos. Ele apoiará o vencedor, desde que saiba qual é.

14 comentários em “De êxito em êxito… até à derrota final”

  1. Muito bom. As tristes consequências de uma nefasta Constituição que teve a prestimosa -mesmo que à força- contribuição do então supinamente activo constitucionalista, hoje re-eleito inconsequente Presidente via o referido texto.
    As voltas que o mundo dá.

  2. 1. O que mais surpreende nos comentários de José Meireles Graça é, a inefável crença de que os leitores (quiçá, os eleitores) estão convencidos de que a culpa não é, em partes iguais, desses dois partidos — PS e PSD — que sustentam o Regime Abrilista há 47 anos.

    2. De facto, é essa falsa opção, que reproduz a contínua oscilação binária isomorficamente inversa e opositiva, entre os culpados.

    3. Tenta convencer-nos de que, o que fizeram Soares, Cavaco, Guterres, Santana Lopes, Durão Barroso, Sócrates, Passos Coelho, António Costa, e todos os outros, … não se repercutiu na governação alheia, e vice-versa.

    4. O que nos deixa estupefactos, é essa pretensa separação entre PS e PSD que nos quer oferecer. Ora essa, é a doutrina Abrilista que nos governa há 47 anos.

    5. O Abrilismo é um esquerdismo, que inventou o conceito de direita que o PSD perfilha.

    6. Para isso, socorre-se do tempo de governação. Como se, por exemplo, o decreto de Cavaco, a meter milhares na Administração Pública — que demorou a escrever e a aprovar escassos meses — não tivesse repercussões nos sucessivos défices de todos os outros, criando um “monstro” que é responsável pela Dívida que se acumulou. E conduziu, por falta de competitividade e da necessidade de subsidiação do Estado para pagar esse conforto no emprego e as futuras reformas desses, à “subsidiodependência”.

    7. O tempo de governação não é critério para desculpabilizar todos esses, do PS e do PSD, que sustentam o Regime Abrilista há 47 anos.

    8. São ambos culpados, em quantidade igual. Seja no Estado central, seja no Estado Autárquico, seja nas empresas públicas do Estado, seja nas grandes empresas privadas da energia, telecomunicações e outras, seja na TAP, RTP, PPP’s, etc. Ou nas grandes fraudes económicas, como o BPP, BPN, etc….

    9. E por aí a fora, num incontável rosário de corrupção, compadrio e ilicitude … Responsável por, em 47 anos de Regime Abrilista, em sucessivas bancarrotas e pedinchas ao FMI e U.E, terem acumulado uma Dívida, que os jovens e seus filhos terão de pagar o resto das suas vidas.

    10. Não vemos só uns. Ou uns, menos do que os outros. Vemos PS e PSD.

    11. Todos os que se acolitam à volta de Marcelo são esses Abrilistas, que agora se sentem ameaçados. Percebem que já não conseguem convencer os eleitores com essa oscilação binária isomorficamente inversa entre PS e PSD. Sentem, que é o seu sagrado Regime Abrilista que está em causa.

    12. Estou totalmente de acordo, em “de-esquerdizar” a sociedade e as ideologias. Mas isso inclui também o PSD, e todos esses que se alimentam do Abrilismo há 47 anos.

    13. Nas últimas eleições, 6.599.751 (61,15%) nem sequer foram às urnas. Os 2.534.720 que votaram em Marcelo Rebelo de Sousa são apenas 23,48% dos eleitores inscritos (10.792.102). São a esses 23%, que chamam 60,7%.

  3. Boa

    Nada mudará no país enquanto a educação e o Jornalismo (tendência Marxista) forem o que são hoje. São eles q

  4. Uma minha primeiro texto ficou incompleto, por erro meu (estava escrever à pressa e o cliquei em enviar por acidente). A minhas desculpas.

    Algumas excelentes pérolas, gostei especialmente desta:
    “Marcelo ganhou as duas eleições porque a maioria dos portugueses que votaram acharam que ele era o pai extremoso e célebre que lhes oferecia um ombro compassivo e lhes limpava o ranho do nariz; e os que não votaram abstiveram-se porque entenderam que é tudo igual ao litro.”

    Nada mudará no pais enquanto a Overton Window for a que existe: Jornalismo Marxista a criar ódios. Uma cultura de divisão e não de criação que vem da ideologia Socialista do regime. Igualdade que promove a mediocridade, estagnação e incompetência. Uma Direita sem ideias e logo sem jornais.

    Discordo do que foi dito sobre Passos : Passos não deu boa conta do recado, foi um desastre. Não mudou coisa alguma. Geriu a crise como Soares a geriu nos anos 80, cortou e impostou. Passos foi um mero gestor da crise.
    Não lançou bases algumas para o futuro, limitou-se a salvar o socialismo de si mesmo, para continuar com os mesmo vícios.
    Estou de acordo que ninguém deve fazer o favor ao PS de entrar neste Governo.

  5. Sem a minha intervenção celestial a reflexão postada correrá o risco de não se internacionalizar.
    Bora lá.
    Quer o PS quer o PSD são partidos – partidos significa tão somente que nunca estiveram inteiros – cuja desgovernação provou-se assentar em um arco sem pedra angular e em remendos.
    É sabido que ninguém pode cozer retalho de pano novo em tecido velho e tampouco pode colocar vinho novo em odres velhos, uma vez que é maior o rasgão e os odres também se arrebentam.
    Assim, a desgovernação em Portugal tem-se pautado por sucessivos arcos sem pedra angular e sucessivos pseudo-retalhos de pano novo e vinho novo sempre em e com odres velhos. Resultado: uma merda total.

    Vamos agora aos retalhos: o PS, abortista-neofascista-feminista-lgbtista-eutanasianista, fingia colocar retalhos de pano novo com o BE/PAN/Livre para encapotar o desmanche da túnica: e o rasgão foi ainda maior e à semelhança e na sequência do anterior rasgão que foi PSD/CDS e PR.
    E o PSD necessitará do Chega para continuar a provar a mesma coisa.

    O PR demonstra-nos que a aparência de retalho novo sempre em tecido velho continuará a produzir túnicas de nudez. Mas esta é a função dele: garantir o normal funcionamento das instituições e dos instituidores.

    Quanto à bazuca, ela está aí para demonstrar a vocação europeia para cozer remendos em tecidos velhos; e tudo em nome de nos parecermos verdes, isto é, com icterícia.

  6. Só morre ignorante quem quer, ou quem vive conformado nos limites do provável sem a audácia da vontade.
    Entre a sapiência luminosa do SAP2i, superiormente coadjuvada pela omnisciente luz celestial do Vento qual farol a dissipar a trevas, só vegeta na obscuridade quem quer.
    O que ambos não ensinam.

    1. Tá muito bem dito e sinalizado. Como prémio por sua conversão proponho a entidades celestiais que reforcem o seu jantar com uma apetitosa e substancial papa Cerelac.

      1. Caríssimo e muy considerado Vento.
        É profundamente desolado e constrangido, mas pela verdade obrigado, que levo ao seu conhecimento o seguinte.
        Limite-se ao pedestal da sua celestialidade a alimentar as almas e deixe para quem sabe a alimentação do vil corpo.

        1. muy considerado e atento cunhado do outro, para um corpo vil e sem dentes nada como alimento que ainda não precise deles. O leite e mel também vai bem na dieta.

  7. “Não, Manuel Villaverde, ninguém acredita, realmente ninguém acredita, lá isso… Mas quem quer modernização é a direita, e essa por acaso tem a maioria, qualquer que seja a combinação das suas partes? Não tem, pois não?”
    A direita em portugal tem defendido dois tipos de modernização:
    A do Chega qualquer coisa entre os fascismos dos anos 30 do século XX e o nazismo.
    A restante direita o liberalismo total do “laissez faire laissez passer” do século XIX.
    Como modernismo estamos conversados.

    “Mas parte do eleitorado sempre achou que as maldades da troica não decorreram de um acordo que o PS assinou, porque com essa ideia absurda lhe martelaram a cabeça e porque o PSD se deixou associar às negociações do MoU”
    Das duas uma:
    ou Passos foi forçado a cumprir o que outros tinham assinado, contra vontade e não fez nada do que queria. E nesse caso o seu valor como decisor foi nulo, não passando de um homem de palha, o que não abona muito em seu favor.
    ou quis ir “além da troica” e promoveu ativamente políticas que levaram ao aumento do desemprego e diminuição das medidas de proteção social, para fazer cair os salários, e medidas que levaram à degradação da qualidade das prestações de serviços do Estado para poupar dinheiro. Isto qualquer que fossem os efeitos sociais de tais medidas junto da população mais pobre. Também não é o caminho para ganhar votos.

  8. “Passos tomou conta do país e deu boa conta do recado.”

    Não, não deu. Limitou-se a cortar à toa onde podia, e a sacar mais onde conseguia. Quatro anos em que deixou tudo igual.
    Antes que digam que gosto é do Costa, o Soba limita-se a cortar onde pode, mas à socapa, e a sacar onde consegue, mas suavemente (leia-se, não directamente no IRS que é onde a malta nota). E pelo meio distribui umas benesses aos do costume.

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