Marcelo anunciou numa pastelaria lisboeta a sua recandidatura à presidência, deixando o país, que não estava nada à espera, estupefacto.
Logo um desses trogloditas que, segundo o mandarim Pacheco Pereira, enxundiam as redes sociais, escreveu: O mil-folhas anuncia a recandidatura numa pastelaria queque aos pães sem sal fechados em casa.
Bem visto: o pastel de mil-folhas não tem folhas nenhumas, a não ser uma camada muito fininha em cima e outra em baixo, para fingir – o resto é creme de pasteleiro; e a multidão macambúzia que não pode sair às horas nas quais, segundo descoberta das autoridades, o vírus circula ameaçador nas ruas, fica completamente sem graça junto às suas lareiras melancólicas.
Disse o candidato coisas cremosas, precedidas de uma informação desoladora: a de que “é exactamente o mesmo”, gorando portanto as expectativas daqueles cidadãos ambiciosos que estimariam que fosse outro. E acrescentou, na parte propriamente moliquenta do discurso, que era “orgulhosamente português e, por isso, universalista; convictamente católico e, por isso, dando primazia à dignidade da pessoa, ecuménico e contrário a um Estado confessional; assumidamente republicano e, por isso, avesso a nepotismos, clientelismos e corrupções; determinadamente social-democrata e, por isso, defensor da democracia e da liberdade”.
Nem toda a gente, no nosso querido país, entende marcelês. Razão pela qual me apresso, no exercício do meu dever cidadão, a oferecer os préstimos da minha tradução:
Tenho grande orgulho na louça de Bisalhães e no pastel de nata, sem prejuízo de apreciar muito, por causa do meu universalismo, os portugueses que todos os anos emigram para as sete partidas à procura das condições de vida que cá não há, mas com prudência: nada de lhes facilitar o voto ou de esperar que este seja escrutinado quando não haja dúvidas sobre o resultado da eleição.
O meu catolicismo abrasador levou-me a ir beijar a mão ao Papa Francisco, em nome do Estado não confessional, mas não me impediu de encarar com naturalidade que os ofícios religiosos sejam tratados com mais exigência covidiana que os da mesma natureza do PCP.
Respeito inexcedivelmente a dignidade da pessoa e por isso qualquer português a quem, por incúria das autoridades, arda a casa, ou que veja um familiar morrer por falta de assistência, pode contar, além de um abraço e uma selfie, com a minha exigência de que se apurem responsabilidades, doa a quem doer, nas próximas décadas. Esta generosidade não é extensiva à família de imigrantes assassinados num serviço público, caso em que respeito a sua dor, ignorando-a.
Sou republicano até ao tutano, poupando o nosso país ao nepotismo, clientelismo e corrupção típicos do Reino Unido, Dinamarca, Noruega e outros exemplos abomináveis de regimes decrépitos. Como se demonstra, aliás, pelo facto de tais flagelos, que aliás são tradicionalmente, entre nós, muitíssimo raros, terem durante o consulado costista praticamente desaparecido.
A social-democracia, como é geralmente sabido, defende a democracia e a liberdade, ao contrário, por exemplo, da democracia cristã. Mas tem de ser social-democracia da boa, não a da minha admirável concorrente Marisa, que hoje se declarou social-democrata, nem de Passos Coelho, um farsante que em tempos me tratou de catavento. Mas a de, por exemplo, Rui Rio, um social-democrata de mão cheia, ou António Costa, que não é bem da minha capela mas nem por isso deixei de carregar num andor, como merecia.
Assim fica, espero, mais claro o alcance das palavras inspiradas do recandidato. Que não se ficou por aqui: declarou ainda que parte para as eleições presidenciais de Janeiro de 2021 “exatamente com a mesma visão de Portugal, como uma plataforma entre culturas, civilizações, oceanos e continentes”.
Neste ponto a clareza da expressão é muita mas as ideias talvez discutíveis, visto que para sermos uma plataforma entre oceanos precisávamos de estar na África do Sul ou na Patagónia ou, melhor ainda, no Panamá, regiões do globo que todavia, por razões diversas, não são particularmente invejáveis. E de continentes pior porque nada permite supor que, durante o próximo mandato, a tectónica das placas venha a alterar significativamente a posição de Portugal, que tudo leva a ser continuará no extremo ocidental da Europa.
Já no que toca à cultura, isso sim. Não há escritor americano que, de visita a Paris, não queira dar uma saltada a Lisboa para se atochar de bacalhau à Brás; o Centro Cultural de Belém fervilha permanentemente de estrangeiros que vêm ver o museu Berardo e exposições de fotografia, inveja do Louvre e do Hermitage; e José Rodrigues dos Santos está traduzido em vinte línguas.
Fosse Eça ainda vivo e decerto diria, como disse a não sei quem: Marcelo, tu és grande. Mas Sancho Pança – era maior.

Excelente.
Hoje com uma inspiração ainda melhor.
Boa tarde e bem-haja pelo post.
Nunca dou por mal gasto o tempo que passo a “delituar”, coisa que já faço há bons anos.
Abraço
Obrigado, Fernando Antolin.
Boa tarde José Meirelles Graça.
Excelente humor, bom apanhado, qual caricaturista. Uma merecida e respeitosa chapelada lhe envio daqui do meu “chapéus”. Saúde.
António Cabral
Obrigado, António Cabral.
Está muito bem escolhido o local. Todos nós, portugueses e universalistas monetários, os que ainda podemos beneficiar da bazucada que o Costa prometeu, já babamos só de pensar e sonhar com os sonhos, azevias, rabanadas, filhoses e outras mais, para além do bacalhau, polvo, cabrito e tantos mais, que havemos de adquirir no locais geoestacionários, quais satélites, e em horas a que os covids não circulem.
Sobre o local está tudo dito.
Quanto a ser católico, está muito bem anunciado uma vez que o cenário aparenta que o único católico até agora assumido era e é o Papa Francisco. Portanto, não é demais um aliado; e eu adiro. E está tudo dito a este respeito.
Quanto a ser um social-democrata, a escolha é má dada a reputação destes e dos que começaram a aderir a esta coisa. Hoje em dia até os ditos democratas e alguns republicanos americanos se dizem democratas e sociais. Até os que não querem perder a riqueza se dizem também socialistas. Reparem no ex-alemão das finanças e no Costa em Portugal, que acabará à bazucada com os húngaros e polacos.
E isto já não cola. Está tudo dito a este respeito.
Quanto à cultura, se esta for precedida de uns subsídios para plantar e regar as couves, eu vou a jogo.
“Tenho grande orgulho na louça de Bisalhães e no pastel de nata, sem prejuízo de apreciar muito, por causa do meu universalismo, os portugueses que todos os anos emigram para as sete partidas à procura das condições de vida que cá não há, mas com prudência: nada de lhes facilitar o voto ou de esperar que este seja escrutinado quando não haja dúvidas sobre o resultado da eleição.”
Já é assim desde o Afonso Costa. Todos podem votar, desde que votem neles. Se emigraram, não há garantias, não há selfies, enfim, potenciais surpresas.
O que vale é que são todos social-democratas. Imagine-se o que seria se fossem “fascistas”…
anunciou numa pastelaria lisboeta a sua recandidatura à presidência
Fez o anúncio a uma hora em que o comum dos cidadãos, por decreto por ele mesmo assinado, era forçado a estar confinado em casa.
Questiono: porque viola o presidente os decretos que ele mesmo assinou? Porque fez o anúncio presencialmente durante o recolher obrigatório, em vez de o fazer noutra hora em que não houvesse recolher obrigatório, ou de o fazer somente por meios telemáticos? E porque o faz numa pastelaria, estabelecimento que a essa hora deveria estar encerrado?
https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/mar celo-violou-regras-do-estado-de-emergenc ia-ao-anunciar-recandidatura-numa-pastel aria-as-18-horas
(1) Marcelo não violou as normas do estado de emergência, pois estas não podem restringir a atividade política. Mas, quando tanto se falou sobre o PCP ter levado a cabo um congresso, eu esperaria que também se criticasse Marcelo da mesma forma.
(2) A pastelaria violou as normas. Ela está autorizada a permanecer aberta, mas somente para o fornecimento de bens à porta. Ninguém poderia lá entrar. Nem nenhuma atividade poderia ocorrer lá dentro.
“eu esperaria que também se criticasse Marcelo da mesma forma”.
Porque da mesma forma Marcelo juntou 600 palhaços vindos de todo o lado num auditório durante um fim-de-semana completo.
“nenhuma atividade poderia ocorrer lá dentro”.
A não ser a actividade política que não pode ser restringida, como reconhecido acima.
Assim se demonstra o Totalitarismo da religião política. Os políticos estão fora de controlo.