Clara Gema do Ovo (2) – A Relíquia


Maria Dulce Fernandes,

Dizer que o fruto proibido é o mais apetecido é um eufemismo.
Sexo era tabu. Falar de sexo estava fora de questão e tanto em casa como no liceu, o corpo humano era resguardado em conversas casuais e até as anedotas “picantes” eram astuciosamente subentendidas e buriladas de modo a que as crianças não lhes apanhassem qualquer significado.
Um dia, tinha eu acabado de completar dez anos, a minha madrinha sentou-se comigo na imensa varanda virada para o Tejo e conversou-me acanhadamente sobre transformações que o meu corpo iria sofrer, que não deveria ficar assustada, que era um processo normal pelo qual passam as meninas quando começam a ser mulheres. É claro que quando sensivelmente um ano depois se deu o episódio da transformação, fiquei extremamente desiludida porque esperava transformar-me assim, da noite para o dia, na Fallen Madonna with the Big Boobies.20201208_110354.jpg

A primeira vez que “vi” um homem nu, foi numa revista que a Mila, filha de um diplomata português na Cidade do Cabo, passou clandestinamente para dentro do liceu,  dobrada em dois, dentro do livro de desenho. Foi um segredo de Polichinelo e acabou sendo a revista confiscada e a Mila admoestada, mas apenas e só.
Com o explícito das fotos em mente, encetei a árdua tarefa de confeccionar um Demis Roussos em tecido de chita beije, de 70cm por 50cm , com o tal “colosso” o mais reduzido possível, mas passível de levar enchimento em sumaúma como o resto do corpo. Um pedacinho de carpélio negro surripiado do tapete do cãozinho-da-cabeça-a-dar-a-dar do carro do Vitinha e tingido com tinta da china, deu o toque final.
Sendo a minha mãe uma costureira de truz e eu ter aprendido parte do mister desde pequena, a confecção do boneco não apresentava outra dificuldade que não a do secretismo. Miúdas de 13 anos não costuravam “bonecos de encher” com particularidades anatómicas bem definidas ! Se fosse apanhada, era castigo na certa e dos grandes. Contei à minha mãe do boneco como um presente de aniversário para a Clara, deixando de fora a Parte do “colosso” , à qual me ia dedicando sempre que pensava não estar a ser observada e guardava-o, qual Relíquia, embrulhado num lencinho de assoar no fundo da mala da escola.
Depois de terminar o mono, com o cabelo desgrenhado em lã preta e barba e bigode surripiados à estola de vison dos casamentos e de o ter vestido com os trapinhos e galões mais brilhantes e berrantes do espólio da minha mãe, com a desculpa de estudar para um ponto na hora da tv, fui costurar o “colosso” ao boneco e embrulhar o produto final num papel de fantasia comprado para o efeito.
Bem mais tarde na noite já deitada a ler a Flecha Negra da Colecção Histórias , oiço os meus pais a conversar e um restolhar de papel. Gelei. Saí do quarto pé ante pé e vislumbrei pela fresta da porta a minha mãe com o mono na mão a mostrar ao meu pai o que se encontrava por debaixo da túnica. Morri. Corri para a cama, apaguei a luz e esperei , com o coração a galopar sem freio, mas ninguém veio. Devo ter acabado por adormecer.
Na manhã seguinte, preparei-me para ir para o liceu completamente em pânico. O boneco estava embrulhado praticamente como eu o deixara na véspera. Tremia eu, como varas verdes perante a iminência da bronca. Tomámos o pequeno almoço, o pai saiu para o trabalho. Um bocado temerosa e desconfiada , peguei no embrulho e saí também. Curiosamente, nesse dia ninguém tocou no assunto. Nem nessa semana. Nem nesse mês. Nem durante uma data de anos, até uma ceia de Natal, já eu casada e com filhos.

8 comentários em “Clara Gema do Ovo (2) – A Relíquia”

  1. Pais discretos que nós tínhamos, não era, Maria Dulce?
    Ainda bem que isso mudou e que agora já se fala de tudo com naturalidade…
    O título A Relíquia está muito bem apanhado 😉
    Beijinho e uma tarde boa!
    🎄
    Maria

    1. Naquele Natal de 1997 , jâ o meu pai tinha falecido, e a propósito de um personagem que se parecia com o Demis Roussos, a minha mãe disse que eu, que tinha feito um estudo anatómico em chita sobre o cantor, tinha toda a legitimidade para apontar imperfeições.
      Depois confessou que não me ralharam porque não sabiam o que me dizer sem se desmancharem a rir.
      Na verdade, Maria, só li A Relíquia anos mais tarde (adorei , é o meu Eça favorito depois d’Os Maias) e remeteu-me de imediato para aquelas duas semanas em que andei com uma “relíquia” no fundo da mala da escola, cuidadosamente embrulhada num lencinho de assoar.
      💋💋

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