Um buraco na ideologia


Paulo Sousa,

Um dia no futuro, estas duas primeiras décadas do sec. XXI serão olhadas, não rigorosamente pelos mesmos motivos, mas com a mesma incredulidade com que hoje olhamos para o que se passou no início do século sec. XX.

Como é que foi possível deixar que o caos se instalasse e progredisse ao ponto de uma ditadura ser vista com simpatia?

Como é que foi possível anestesiar o país ao ponto de chegarmos aos dias de hoje com uma maioria absoluta do partido responsável por duas décadas de estagnação, por uma falência, com uma mais que duplicação do peso da dívida em relação à riqueza do país e com um primeiro-ministro que mercadejou em funções?

Por mais que se tente explicar, os nossos descendentes não irão entender nem aceitar.

Haverá vários motivos que explicam esse mistério, que se prendem com algo sobre o qual já aqui escrevi e que resulta da crise de ambição dos portugueses. Todos já ouvimos, até usamos, expressões, como Antes assim que pior, Cá vamos andando devagarinho, Uma perna partida? Tiveste sorte que a outra ainda mexe, e em todas elas encontramos o conformismo e o encolher de ombros que explica o voto naqueles que garantidamente não querem fazer reformas, sendo exactamente esse o seu factor crítico de sucesso.

O estado absorve mais de metade da riqueza criada e, como se fosse dona dela, distribui-a pela rede clientelar que se foi acomodando à procura de uma beirinha que pingue. Enquanto pingar, não há que levantar ondas e toca a torcer para que isto continue.

Para que o estado reduzisse o seu peso na sociedade e na economia seria necessário que abrisse mão desse poder discricionário que alimenta os seus mais convictos clientes e dependentes.

Baixar impostos? Nunca! Só se for a estrangeiros que queiram cá fixar residência. Esses já estavam isentos antes de vir para cá e se comprarem uma casa então irão pagar IMI, IMT, imposto de selo, e depois irão pagar IVA, ISP, IA, IVA sobre o IA e a restante lista que nunca conseguiria aqui transpor.

Se os impostos baixos são bons para estrangeiros, porque é que não são bons para os portugueses?

Este ponto constitui uma negação quase consentida no alinhamento ideológico do socialismo. É consentida desde que não faça a abertura dos telejornais. É como um arredondar de esquinas nos pilares da fé socialista. É uma forma criativa de alcançar um objectivo fingindo que não se está a cometer uma heresia. Eles não se atrevem a negar a fé na cartilha dos impostos altos, mas é como se tivessem descoberto um pequeno orifício nos compromissos assumidos, um orifício escondido, ou quase, por onde conseguem aumentar a receita fiscal sem ter de cometer a blasfémia que seria assumir que impostos baixos atraem riqueza.

É exactamente nesta altura da análise que faz sentido introduzir um tema musical, que mais não é do que uma metáfora da redução socialista de IRS destinada exclusivamente a estrangeiros que se mudem para cá.

19 comentários em “Um buraco na ideologia”

  1. “uma ditadura ser vista com simpatia?” É frequente as pessoas pensarem que o que têm é a melhor coisa do mundo e quererem impô-la aos outros. Exemplo: muitos que vivem em democracia acham que isso é tão bom que devem impor aos outros mesmo à força das armas. Certos muçulmanos pensam que adorar a Deus (Ala al akhba, se é assim que se escreve) que têm o dever de impor a fé aos outros pela força das armas ….. o Califado universal. Há mais exemplos em que cada um pensa que tem a verdade absoluta.

    1. Por isso é que importa ter critérios para que se possam fazer comparações na bondade de cada uma das opções. Um deles pode resultar por avaliar a direcção em que os refugiados fogem.

      1. Os refugiados fogem quase sempre na direção do país mais rico ou que lhes oferece mais perspetivas de dinheiro. Raramente ou nunca os refugiados se movem por ideologias ou religiões. Portanto, utilizar o movimento dos refugiados para avaliar de ideologias ou religiões parece-me má ideia.

          1. Isso viu-se nas vagas de sírios que [não] fugiam para as monarquias do golfo.

            Exatamente, aí está um bom exemplo.

            Apesar de os sírios e os habitantes das monarquias do Golfo serem culturalmente similares (pelo menos, têm a mesma religião), os sírios não fugiram para as monarquias do Golfo porque sabiam que estas, embora muito ricas, tratam muitíssimo mal os estrangeiros, que não deixam aceder à riqueza. Os estrangeiros na generalidade das monarquias do Golfo são tratados como semi-escravos e muito dificilmente têm perspetivas de dinheiro.

            Portanto, tal como eu disse, avaliar o movimento dos refugiados sírios para identificar afinidades culturais, religiosas ou ideológicas é um erro. Os sírios não se dirigem para onde têm afinidades religiosas, mas sim para onde têm perspetivas de enriquecer.

      2. Exacto. Mesmo os adoradores de Ala, não fogem para os países irmãos, do mesmo credo, alguns ricos, que os poderiam e deveriam acolher. Fogem para países cuja cultura e fé lhes é estranha, que eles abominam e pela qual se sentem agredidos.
        Como se explica isso?

          1. “onde se incluem diversas liberdades”
            Acha mesmo? Conheci muito emigrante português da década de sessenta que ia (a salto) para
            a França e Alemanha em busca da liberdade. Queriam sobretudo ler (e escrever) o que lhes
            apetecesse e até lamentavam serem analfabetos ou quase. Falavam muito bem Francês e
            Alemão. lam à procura de liberdade … está mesmo a ver-se.
            É conhecida a história dos passadores (desonestos) que chegavam de madrugada com um
            grupo de emigrantes a uma povoação de Trás os Montes chamada França e lhe diziam estais
            em França. Dos poucos que conseguiam decifrar França na placa identificativa acreditavam e
            gritavam: somos livres, aleluia.

  2. Devia estar a pensar no ps marxista incapaz de criar riqueza
    Pensar Grande – David J. Schwartz
    Los principios básicos y conceptos que soportan ‘‘La magia de pensar en grande” vienen de las fuentes’ más altas del linaje, de las más finas y grandes mentes pensantes que aun viven sobre el planeta Tierra. Mentes como la del profeta David, quien escribió: “Como un pensamiento está en el corazón, así es él “; mentes como la de Emerson quien dijo: “los grandes hombres son los que ven que el pensamiento rige el mundo ‘‘; corno Milton, que, en su ‘‘Paraíso Perdido ‘‘ afirmó: ‘‘La mente es su propio lugar y por sí misma puede hacer un cielo de un infierno y un infierno de un cielo ‘‘; mentes maravillosamente perceptivas cual la de Shakespeare quien observó: “No hay nada bueno ni malo, excepto si los pensamientos lo hacen así”.

    1. Confesso que já lhe apaguei alguns comentários destes em que insiste em descarregar aqui textos copiados de não sei onde e que nem sequer se dá ao trabalho de os traduzir. Se insistir nisso passarei a fazê-lo mais regularmente.

  3. Como é que foi possível deixar […] uma ditadura ser vista com simpatia?

    !!!

    O Paulo Sousa parece não estar neste mundo. Desde sempre muitas ditaduras foram vistas com muita simpatia. A ditadura da Arábia Saudita, por exemplo, sempre foi vista com bonomia. A ditadura de Singapura é excelente. A ditadura chilena (no tempo de Pinochet) foi vista como desagradável, mas muito prática. E hoje em dia a ditadura do Ruanda é vista da mesma forma.

  4. “Como é que foi possível anestesiar o país ao ponto de chegarmos aos dias de hoje com uma maioria absoluta do partido responsável por duas décadas de estagnação, por uma falência, com uma mais que duplicação do peso da dívida em relação à riqueza do país e com um Primeiro-Ministro que mercadejou em funções?”
    Talvez porque quem se apresenta como alternativa fez exatamente o mesmo. Um partido apresentar-se a uma campanha tendo como mote “os que lá estão são maus porque estão a fazer a austeridade que eu faria se lá estivesse e dizem que não é assim”, é uma receita para a desgraça.
    “Para que o estado reduzisse o seu peso na sociedade e na economia seria necessário que abrisse mão desse poder discricionário que alimenta os seus mais convictos clientes e dependentes.”
    Grande parte dos gastos públicos são com saúde educação, justiça, polícia, etc. Não há pessoas a quem são negadados esses serviços de uma forma discricionária.

    “Baixar impostos? Nunca! Só se for a estrageiros que queiram cá fixar residência. Esses já estavam isentos antes de vir para cá e se comprarem uma casa então irão pagar IMI, IMT, imposto de selo, e depois irão pagar IVA, ISP, IA, IVA sobre o IA e a restante lista que nunca conseguiria aqui transpor.”
    Baixar impostos é uma forma bastante discricionária de beneficiar cidadãos. Como os serviços que o Estado presta continuam a ser prestados a todos, beneficiam mais os que ganaham mais e por isso pagam mais impostos. Baixar o IRS é um modo de beneficiar todos os que ganham mais que o salário mínimo, como se os que ganham o salário mínimo vivessem bem de mais para precisar de ajuda.
    A isenção de impostos para estrangeiros é um modo de concorrência fiscal e é estúpida, mas não tanto como o facto de se permitir que países como a Holanda e o Luxemburgo funcionem como paraísos fiscais para as empresas e os muito ricos. Curiosamente ninguém parece estar preocupado com isso.

    1. “Baixar impostos é uma forma bastante discricionária de beneficiar cidadãos.” ??
      A tributação por escalões é exactamente o contrário do que diz.

      “Como os serviços que o Estado presta continuam a ser prestados a todos, beneficiam mais os que ganaham mais e por isso pagam mais impostos.” ??
      1+1=3

      Quando os “malvados dos ricos” entregam menos IRS vão a correr comprar cinco ou seis Ferraris, pagando mais de 50% em impostos.

  5. 1 – Sou da mesma opinião, quanto à estagnação, atraso, precariedade, pobreza, dívida e mediocridade.
    2 – Mas discordo, sobre a culpa.
    3 – «PS/CDU & PSD/CDS» são os responsáveis pela Governação desde 1975.
    4 – Não basta contabilizar quantas vezes cada um desses dois Partidos («PS&PSD») nomeou um Primeiro-Ministro. Isso é enganar e eludir a verdade. Porque as pessoas do outro partido que perdeu, ficam à mesma a governar metade (ou mais) das instituições, autarquias e empresas do País. E as Famílias que detêm os “meios-de-produção” (Amorins, Mello’s, etc.) continuam a seguir o mesmo caminho preguiçoso, de viverem à conta das rendas vindas das subvenções do Estado e dos Fundos Europeus (que aumentam a Dívida, promovem a dependência, e provocam a falta de competitividade).
    5 – Portanto, se quisermos ser honestos — e basear a análise nos factos verídicos, facilmente verificáveis de modo objetivo e imparcial – teremos de culpar essa Parceria Fatídica «PS&PSD» (basta contabilizar, quantos desses estão à frente das principais empresas e centros de decisão).
    6 – O Poder em Portugal – e a sua mentalidade e atitude preguiçosa e medrosa – não mudou desde o Fim da Monarquia e o início da Primeira República.
    7 – O «25 Abril 1974» não foi “revolução” nenhuma. Foi uma festarola, para aumentar os ordenados aos militares subalternos descontentes.
    8 – A verdadeira revolução, pela qual este Post reclama, pela qual tantos portugueses/as anseiam … ainda está por vir.

  6. Como é que foi possível deixar que o caos se instalasse e progredisse ao ponto de uma ditadura ser vista com simpatia?

    Porque não é caos? É organização. E às vezes hiper-organização As democracias é que são o caos, o equilíbrio de forças que são caóticas por natureza, o gume da navalha — e é por isso que só o liberalismo clássico (whig) permite fazer evoluir as democracias, porque é uma força centrípeta.

    1. Há pouco tempo assinalou-se o centenário da Noite Sangrenta. Há alguns bons podcast sobre isso. É desse caos que falo, e não do normal processo democrático.

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