Um ano depois: dois dias negros no reino da “análise política”


Pedro Correia,

(segunda de duas partes)

 

 

VI

A necessidade de preencher tempo de antena leva os canais de notícias a recorrer às mesmas pessoas, que com intervalos curtos saltitam de televisão em televisão a proferir as mesmíssimas declarações. Aconteceu a 2 de Julho de 2013 com António Capucho, já então candidato independente assumido à eleição para a Assembleia Municipal de Sintra, que decorreria menos de três meses depois.

«Passos Coelho deve demitir-se de presidente do PSD pois não tem condições de liderar o partido», declarou Capucho na TVI 24. «O Presidente da República deve convocar eleições para a mesma data das autárquicas», disse na SIC Notícias. «Passos Coelho não pode permanecer na liderança do PSD: deve demitir-se e convocar um congresso eleitoral», afirmou na RTPi.

Políticos por um lado, jornalistas por outro. Ao longo destes dois dias de alta tensão política e televisiva, registei as declarações integrais de 27 jornalistas enquanto comentadores em três canais: RTPi, SIC N e TVI 24. Faço questão de acentuar que não vi a CMTV por não dispor à época daquele canal no meu operador de televisão por cabo.

Um ano depois, deixo à consideração dos leitores algumas frases que fui destacando:

«Paulo Portas rompeu a corda e a consequência óbvia é a queda do Governo. Passos Coelho não tem outra saída senão demitir-se.»

«Passos Coelho é a versão portuguesa daquele ministro da informação do Iraque.»

«O Presidente da República não pode tentar manter um Governo em estado de semivida. Não é possível.»

«Prolongar esta situação é uma desgraça para Portugal, deixando que este doente comatoso continue a fazer de conta que governa o País.»

«Dentro do PSD há uma larga maioria do partido que não está de acordo com a manutenção deste Governo.»

«A rua pode fazer cair Passos Coelho.»

«António José Seguro tem razão em dizer que isto chegou ao fundo dos fundos. E chegou.»

«Este senhor [Passos] é incapaz de liderar uma turma, quanto mais um governo.»

«Para haver maioria no Parlamento, só se o PSD mudar de líder.»

«Estamos perante uma crise política de dimensões colossais — portuguesa e europeia.»

«Neste momento não há nenhum ministro que tenha vontade de continuar.»

«Passos Coelho perdeu toda a lucidez.»

«O CDS é Paulo Portas.»

«O CDS sempre foi um partido de um homem só.»

«A escolha da ministra das Finanças não agradou a muitos sectores do PSD.»

«Já não há Governo.»

«Agora o que é preciso é ajudar a sair este Governo com dignidade.»

«Passos Coelho não tem condições para ser candidato a primeiro-ministro de novo. Paulo Portas também não.»

«Quando um ministro pede a demissão esse pedido tem de ser aceite.»

«Só um Governo que tivesse o apoio do PS funcionaria e acalmaria os mercados.»

«Este Governo está podre.»

«O Presidente da República tem que acabar com esta fantochada.»

Apenas alguns exemplos. Reitero: são declarações de jornalistas, não de politólogos ou dirigentes partidários envolvidos no calor da refrega política. Cada qual mais apaixonada e desabrida do que a outra. Muitas — para não dizer quase todas — dissociadas da realidade. Sucede com frequência, quando confundimos aquilo que acontece com aquilo que desejávamos que acontecesse.

 

 

VII

Não vou individualizar ou particularizar a autoria destas frases para evitar também eu cair num dos vícios do comentário à portuguesa, que tudo fulaniza na permanente tentação de interpretar os factos em função da identidade dos protagonistas, adaptando à política a lógica argumentativa do futebol. Importa muito mais inventariar os manifestos erros de análise — na tentativa de evitar que se repitam e se propaguem — do que apontar na direcção de quem os comete.

Vale a pena, isso sim, individualizar os poucos que, na balbúrdia do momento, souberam permanecer imunes às armadilhas do comentário em directo. Devo destacar aqui Miguel Sousa Tavares, que evitou juntar-se à vozearia dominante, separando o trigo do joio — à revelia, porventura, das suas convicções mais íntimas sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Destaco-o porque foi ele o primeiro a saber remar contra a maré. No Jornal da Noite da SIC, a 2 de Julho, apontou o dedo na direcção do CDS, contrariando aqueles que já davam como segura a convocação de legislativas antecipadas: «O PSD vai tentar governar mesmo sem o CDS, com os deputados que tem.»

Hoje parece óbvio que o pedido de demissão de Portas não acarretava a renúncia do chefe do Governo. Mas o primeiro a perceber isto, nesse dia, foi Sousa Tavares.

O Jornal da Noite foi, aliás, o maior reduto de lucidez analítica ao longo desses dois dias febris — em perfeito contraste com outros espaços noticiosos. Luís Marques Mendes, também comentador do canal de Carnaxide, esteve em antena ao lado de Miguel Sousa Tavares e acertou em três vaticínios: «Não haverá eleições até Junho de 2014 mas este Governo deve-se compor»; «Entre o orgulho de manter a sua posição e o sentido de responsabilidade de fazer algum recuo, o sentido de responsabilidade [de Portas] é mais importante.»

 

 

VIII

Eram 20h42 dessa terça-feira, 2 de Julho, quando Marques Mendes disse o que mais ninguém ainda havia dito ao longo das agitadas horas precedentes: «Ainda ninguém percebeu se a saída “irrevogável” é só a saída de Paulo Portas ou é a saída do CDS.» Aproveitando para sublinhar também o que ninguém dissera antes dele: nessa mesma tarde, um destacado membro do CDS, Paulo Núncio, tomara posse como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, integrando a equipa de Maria Luís Albuquerque.

Quase à mesma hora, no Jornal das 8 da TVI, António Perez Metelo era também o primeiro a chamar a atenção para a dimensão internacional da crise (um aspecto crucial num país sob intervenção financeira externa), salientando que «do ponto de vista dos credores é muito importante que o CDS clarifique a sua plataforma política». No mesmo jornal televisivo, falando ao telefone, Marcelo Rebelo de Sousa introduziu um elemento de análise até aí inédito ao alertar para a «queda brutal das bolsas em apenas sete minutos devido à demissão de Portas».

Ninguém mais se lembrara disso.

Ao contrário da generalidade dos comentadores, que durante a tarde viraram baterias contra o primeiro-ministro, Sousa Tavares e Rebelo de Sousa concentraram os focos críticos no ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. «A reacção de Paulo Portas é totalmente incompreensível em pleno arranque da oitava avaliação, num momento crucial para o Orçamento de Estado, numa atitude que não é sequer artilhada por elementos do seu partido», observou Marcelo na TVI enquanto na SIC Sousa Tavares concluía que o líder do CDS «sai mal da fotografia».

Mas foi preciso esperar até à tarde do dia seguinte para alguém afirmar em antena aquilo que se impunha desde o primeiro instante, contrariando as interpretações generalizadas do CDS como partido «de um homem só».

Aconteceu quando a editora política da SIC, Paula Santos, disse estas palavras inequívocas: «A decisão de Paulo Portas é pessoal e não vincula o partido. Em momento algum, naquela nota, Portas fala no plural.» E admitia: «O CDS ainda poderá ficar no Governo, em coligação.»

Eram 18h13 de 3 de Julho de 2013. Aos olhos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado ao Governo. Aos ouvidos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado às televisões.

Um ano depois, sabemos o que aconteceu. Ficou claro quem analisou bem os factos, quem foi incapaz de ler para além da espuma e quem delirou em toda a linha.

Neste país de doces costumes, todos se mantêm nos seus postos. Há tradições que nunca mudam.

14 comentários em “Um ano depois: dois dias negros no reino da “análise política””

  1. Ainda sobre o tema (que talvez a “cambada” não esperasse), dizia Maria João Avillez ontem no “observador”:

    “(…) Não fora Passos Coelho e teria desabado a tempestade perfeita. Não desabou, apesar da desconfiança e dos presságios, das apostas e dos vaticínios de fim de ciclo. O primeiro-ministro não deixou. Sem perder a cabeça ou a bússola, sem lhe ocorrer aquele tique nosso conhecido do “abalar”, sem cair na aflição ou no desnorte, tomou em mãos a ocorrência e ao fazê-lo impediu – entre outras coisas – um segundo resgate. Com as fatais – inimagináveis? – Consequências que daí adviriam.

    Passos mostrou estofo e sentido da política. E sentido de Estado, claro está. Não é qualquer um que, naquele incêndio, domestica os acontecimentos e os “ocupa” politicamente, elegendo um desfecho a seu favor. De caminho – e eis o que também não é de somenos – mostrou quem mandava na coligação e quem era o chefe da maioria. Já fizera o mesmo aquando da 7ª avaliação da troika, mas fizera-o longe de nós, nos bastidores do país. O dia 2 de Julho ditou-lhe o palco e colocou-o sob os holofotes das instituições. Ao final do dia, as oposições à esquerda e os opositores dentro do PSD ainda esperavam em surdina que ele fosse a Belém com uma corda ao pescoço invocar “falta de condições”, mas o primeiro-ministro nunca – que me lembre – se afogou no mar das oposições nem se impressionou por aí além com barões fora de jogo.”

    1. Faz-me impressão a quantidade de “analistas políticos” neste país, que proliferam como cogumelos. E ainda me impressiona mais haver tantos que falam daquilo que ignoram por completo. Nem por isso deixam de ter microfone aberto o tempo todo.

      Daí ter escrito o que escrevi, com minúcia suficiente para que os leitores recordem o que aconteceu faz agora um ano – não do ponto de vista da política mas da chamada “análise política” (expressão que detesto). Com dados suficientes para ultrapassar a crítica superficial típica das redes sociais e da conversa de café.

      É também a isso que alude a Maria João Avillez. E bem, a meu ver.

  2. Muito bom, este seu trabalho, Pedro Correia.
    Num país onde somos lestos a manifestarmo-nos quando não gostamos, importa de vez em quando contraria esse defeito, também meu, confesso.

    1. Obrigado, TA. Tem razão: mobilizamo-nos sempre mais quando não gostamos. E não somos de admiração nada fácil – excepto em relação aos defuntos.
      Mas isso não é exclusivo nosso. Os espanhóis, por exemplo, têm estas características ainda mais vincadas, num e noutro caso.

  3. Fechou excelentemente a segunda parte , que poderia não ser a última, porque é temática recorrente, como demonstra a seguir

    ” Faz-me impressão a quantidade de “analistas políticos” neste país, que proliferam como cogumelos. E ainda me impressiona mais haver tantos que falam daquilo que ignoram por completo. Nem por isso deixam de ter microfone aberto o tempo todo”

    1. É como diz, Dulce: trata-se de um assunto inesgotável. Como altura me encontrava desempregado, tive todo o tempo do mundo para anotar e analisar tudo quanto se disse. Tudo, mesmo tudo.

  4. Parabéns, gostei muito. Quanto a analistas confesso que escuto muito poucos: José Gomes Ferreira, Ricardo Costa e David Dinis. O resto merece-me pouco crédito, certamente haverá um ou outro que escape.

    1. Obrigado pelas suas palavras, Miguel. Faz bem em ser muito criterioso: é cada vez mais fundamental sabermos separar o trigo do joio nesta matéria. Para não sermos desinformados.
      Costumo dizer que se houvesse uma ASAE para a “análise política” dois terços dos palradores seriam multados por “venderem” mercadoria adulterada ao domicílio de cada um de nós.

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