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A televisão, espelho da sociedade, permite-nos antecipar tendências. Observamos isso se estivermos bem atentos. E às vezes nem é nas notícias: é na publicidade.
Reparem num anúncio a uma rede de supermercados que costuma anteceder alguns telediários. À primeira vista, parece desenrolar-se num cenário irreal: um jovem casal com uma filha fez as compras e prepara-se para o pagamento junto à caixa. Estão com ar de manhã de Natal, como se o acto de pagar nos inundasse de felicidade.
Mas talvez o semblante feliz que exibem se deva apenas ao facto de nenhum deles usar máscara.
Reparamos neste anúncio como se estivéssemos a contemplar um futuro cada vez mais próximo – golpe de génio dos criativos que o conceberam. Acontece que a hora da “libertação”, que no nada inocente calendário político do primeiro-ministro deve anteceder em escassos dias o momento de votarmos nas eleições autárquicas, não aguardará por 26 de Setembro: é cada vez mais evidente que os portugueses já estão a dizer adeus à máscara ao ar livre. Com o mesmo grau de autonomia face às imposições estatais que revelaram no final do Inverno de 2020, quando começaram a usá-las enquanto no Governo ainda se hesitava sobre o rumo a trilhar e a zelosa directora-geral da Saúde advertia o país contra a “falsa sensação de segurança” das máscaras.
Foi essa mesma rapidez de reflexos – muito superior às indecisões oficiais – que levou tantos de nós a optar pelo teletrabalho e a retirar os filhos das escolas antes de haver qualquer determinação governamental nesse sentido.
Agora procede-se da mesma forma, mas em sentido inverso. Mesmo com coimas pesadas e absurdas, como há dias as televisões noticiavam: mais de 20 pessoas, certamente com ar menos feliz do que o casal do tal anúncio, já tiveram de largar 50 euros «por não usarem máscara nos acessos às praias». Agentes da Polícia Marítima na caça à multa: eis a versão contemporânea dos heróis do mar.
É curioso que o mesmo Estado que há um ano e meio nos alertava contra a «falsa sensação de segurança» das coberturas faciais estimule agora o seu uso fetichista mesmo nas situações mais inconcebíveis, induzindo assim comportamentos fóbicos.
Alguns canais televisivos levam isto ao extremo, impondo a jornalistas e apresentadores a utilização permanente de tal coisa. Talvez a situação mais insólita tenha ocorrido com uma jovem do Porto Canal forçada a usar máscara no alto de uma montanha enquanto entrevistava um senhor obviamente desmascarado.
Pobre moça: a cena quebrava o coração do telespectador mais sensível.
Em momentos destes, a máscara transforma-se em cruel instrumento de humilhação. Sem necessidade alguma. Daí o meu aplauso a Soraia Ramos, jornalista da RTP, que em recente reportagem na Hungria, vendo toda a gente sem máscara em torno dela, tirou-a em directo, fiel ao velho adágio: «Em Roma, sê romano.»
É outra forma de fazer reportagem. E de antecipar tendências – desta vez no espaço informativo, sem necessidade de aguardarmos pelo intervalo publicitário.
Texto publicado no semanário Novo

Acredito que os agentes da Polícia Marítima andem na caça à multa, mas os da Polícia de Segurança Pública não andam. Ainda no outro dia estava meia dúzia deles no acesso à praia que frequento, montes de gente (incluindo eu) passava por eles sem máscara, e eles nada faziam.
Os da Polícia Marítima, na verdade, parecem mais orgulhosos da caça à multa. Talvez porque assim dão prova de existência.
O último fim de semana estive à beira de uma espécie de praia em cuja entrada estava hasteada a bandeira-semáforo. Embora fosse a vermelha, as pessoas entravam como se nada fosse. Pergunto-me se estava perante uma legítima acção subversiva contra o sistema ou um total desleixo pelo cumprimento de regras. Imbuído nestas dúvidas filosóficas, dirigi-me a casa no meu veículo individual poluente, e enquanto me deparava com todo o tipo de tropelias rodoviárias, concluí que talvez se tratasse da segunda. E que aquele indivíduo que entrava areal adentro poderia bem ser o mesmo que chamava a autoridade quando se cruzava com alguém sem máscara numa qualquer ampla e requalificada avenida.
Portugal “a abrir caminho para uma sociedade socialista”, é capaz de ser isso. Pelo menos assim impõe o preâmbulo da Constituição.
Eu nunca vi tais bandeiras, embora elas certamente existam nas praias que frequento. Não são certamente muito visíveis. De qualquer forma, é evidente que a generalidade das pessoas se está nas tintas para elas.
Quando entro numa praia, trato de olhar para o chão para ver onde irei estender a toalha, e não para o ar para saber que bandeiras estão hasteadas…
Nas que conheço estão bem visíveis e colocadas antes de se chegar ao areal.
Talvez seja bom o Pedro Correia recordar que as pessoas são forçadas a usar máscara por imposição de uma Lei da Assembleia da República, e não de um Decreto-Lei do Governo. Será também bom recordar que o partido que propôs essa Lei à Assembleia da República foi o PSD, e não o PS. Somente a Assembleia da República poderá desfazer a Lei que ela mesma fez.
Se o Pedro Correia não gosta de usar máscara na rua, não use: verá que ninguém o chateará por esse facto. E de qualquer forma recorde, a culpa principal é do PSD, não do PS; e o Governo nada pode fazer (nem agora, nem em 12 de setembro, nem na véspera das eleições, nem nunca) para desobrigar as pessoas de usar máscara.
O seu problema não é usar máscara: é usar venda.