Sobre o Afeganistão


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Sobre esta coisa do Afeganistão deparo-me com vários conhecedores da situação. Desde um ex-deputado e agora candidato em Loures pelo BE que surge no reflexo típico de culpabilizar o Ocidente, cujos governos “bombardeiam (…) governos progressistas”. Para outros – decerto que “progressistas” – aquilo é ab ovo culpa dos EUA, pois descobrem que estes apoiaram a guerrilha anti-soviética [note-se que há um já velho filme sobre isso, “Charlie Wilson’s War” (Jogos do Poder) com o actual Jimmy Stewart, o grande Philip Seymour Hoffman e a divindade Julia Roberts, não estando assim estes investigadores a dar-nos grandes novidades]. Mas nenhum desses aborda os motivos da invasão soviética, decerto que por os considerarem irrelevantes.

 

Muitos, até não interseccionalistas, lamentam o destino das mulheres afegãs – mas poucos (não leio sequer um) se preocupa com a gente afegã qual eu. Outros, mais interseccionalistas e nisso paladinos da etnicização de Portugal e restante pérfido Ocidente, anunciam que o decadente governo afegão pró-ocidental descurou uma etnia (os pastós), deixando assim entender que a etnicidade é algo problemática, mas estarão certos que apenas nos longínquos vitimizados transeuropeus. Outros ainda, que leio há anos defendendo o status quo luso, apontam que a derrocada do poder de Cabul se prendeu a ter sido muito corrupto, assim anunciando que – decerto que apenas fora de Portugal – a corrupção estatal enfraquece as vias democráticas. E outros ainda, de recorte mais intelectual, concluem que os ocidentais nada percebem sobre o Afeganistão.

 

Continuo a crer que está (quase) tudo nos livros, e só lamento não ter a militância, a disciplina e, acima de tudo, a inteligência para ler o que me falta e, acima de tudo, reler o que me fez. Enfim, daquilo que me passou pela frente deixo um aviso e uma memória: o aviso, superficial, é sobre o que virá aí naquelas bandas. Será de ler “As Novas Rotas da Seda” do Frankopan. Quem o ler poderá fazer postais no FB, e nos blogs. E, alguns, até irão à TV botar faladura.

 

A memória, que é a coisa importante: está tudo no “O Americano Tranquilo” (há várias edições portuguesas) de Graham Greene (1955). Li-o aos 16 anos e descobri-me Thomas Fowler. Não como alter ego, como acontece nas leituras juvenis. Mas como reconhecimento, num “eu sou este gajo”. Ainda hoje me surpreendo como me conheci tão cedo. Reli-o três vezes até aos 25 anos e não mudei de ideias. Depois aos 40s e sorri, na comprovação desse reconhecimento. Quando for à capital, às estantes do meu pai, relerei de novo, agora quase aos 60, usando este exemplar paterno, aquele com o qual descobri Fowler (jpt). Não me dará para postais de FB ou de blog. Mas, claro, e como sempre, dá-me para encolher os ombros diante dos convictos a la carte.

7 comentários em “Sobre o Afeganistão”

  1. “Cartas de Inglaterra” ( logo a primeira – com a Irlanda como bónus…) .
    Quanto àquilo que se designa por geopolítica, digamos que o Celeste Império vê encerrado o “gap” de 150 anos (+/-) do Império Britânico e, num horizonte temporal mais que longínquo , tem assegurado que o Sol se levantará a oriente…
    jsp

  2. “O Americano Tranquilo” é um dos livros da minha vida. E que explica, melhor do que mil prolixas conferências de supostos investigadores académicos, a derrocada da geopolítica norte-americana no seu cego e surdo combate por destronar a secular influência europeia e tutelar o emergente nacionalismo asiático. Se Kennedy e Johnson tivessem lido este romance, publicado em 1955, nunca se teriam envolvido no atoleiro vietnamita.

  3. Oh meu amigo. Tanta citação estrangeira….Sabia que temos em Portugal um especialista a um nível superior aos que sugere? Se não sabe eu informo: José Goulão. Que chatice para você, o gajo é comunista…..

    1. Repito-me, até à exaustão, continuo a ter dificuldades em compreender a atitude pateticamente confrontacional de muitos comentários. Não é com a discordância, é com a arrogância atrevida, a mão-na-anca, a qual para se firmar recorre constantemente à tresleitura dos textos que quer afrontar, muitas vezes por incapacidade interpretativa evidente, outras mesmo apenas pela tal arrogância. Eu explico-lhe, José Mota, o que é tão evidente, a sua incapacidade em ler (interpretar) e em falar (discordar, debater): 1) contrariamente ao que V. diz eu não faço nenhuma citação estrangeira. Faço duas referências bibliográficas (e uma cinematográfica, que para este assunto não conta); 2) diz V. que eu sugiro um colectivo de especialistas. Não o fiz. Sugeri um único livro da especialidade, o do Frankopan (Greene é um conhecidissimo romancista, o livro que referi é antigo, isso é explícito no texto tanto pelo que eu sobre ele avanço como por ter posto a data da edição original, não o convoquei sob o estatuto de “especialista” mas num outro registo muito diverso). 3) Atira-me V. o nome de José Goulão como se isso colocasse em causa o que botei (um especialista melhor do que os que eu sugiro, é o seu tom). Ora eu botei no texto “só lamento não ter a militância, a disciplina e, acima de tudo, a inteligência para ler o que me falta e, acima de tudo, reler o que me fez. Enfim, daquilo que me passou pela frente deixo um aviso” (o livro do Frankopan). Ou seja, explicitei que há imenso para ler e que eu não o fiz – neste caso até porque não é o meu ofício, não sou nem jornalista nem profissional de relações/política internacional. E o teor do postal é exactamente esse: as pessoas estão a opinar, cheias de certezas e opiniões e não leram sobre a matéria (nota-se pelo teor dos postalitos que vão metendo) e vivem num país onde as páginas internacionais das estações televisivas e dos “jornais de referência” são muito frágeis.

      Dito isto, 4) vamos ao Goulão e à sua, José Mota, mão-na-anca: é normal que V. não vá lendo os postais que eu vou botando (ou que não os retenha) mas já várias vezes escrevi em registo memorialista sobre a minha juventude, sobre o meu pai, e isto também fui botando. O meu pai era militante do PCP e foi-o até aos 88 anos, quando morreu em 2012. Em minha casa entrava o Avante, o Militante, (depois a Vértice), a deliciosa Vida Soviética, e mais já nem lembro que mais literatura avulsa, para além do menos ortodoxo (como se dizia então) Diário de Lisboa. O primeiro jornal da “imprensa burguesa” que começou a ser comprado, por instância da minha mãe, foi o “Jornal” (julgo que na altura dirigido pelo Joaquim Letria e onde li o meu primeiro cronista, Augusto Abelaira). E claro que todos os dias entrava o “Diário” (o da “verdade a que temos direito”). Ou seja, talvez desde a minha puberdade mas com toda a certeza que desde a adolescência (eu sou de 1964) que li o Goulão. E também livros (pelo menos, que recorde, o livro dele sobre Beirute – fui agora ver ao google, é de 1982). E lembro-me bem de discutir textos dele com o meu pai, não posso afiançar que sobre a guerra do Afeganistão (que agora nos convoca alguma atenção) mas com toda a certeza que sobre a política internacional e, em particular, o chamado Bloco de Leste. Se leio o Goulão hoje? Não, acima de tudo pelo que disse acima – leio pouco sobre a matéria, não é o meu ofício. E custa-me ver tanta gente que sabe tão pouco como eu ou ainda menos a perorar sobre o assunto.

      1. Isto já vai longo mas vou terminar assim: farto-me de insistir, isto de um blog é-me como a esplanada de café, o balcão de bar, a mesa de tasca. A gente está a conversar e acontece que um tipo ali ao lado, cliente desconhecido, intervém na conversa. E muitas vezes brotam conversas ou germinam conhecimentos, de vizinhanças ou avulsos. Se este postal fosse uma conversa com os meus amigos (de facto também o é) e V. estivesse na mesa ao lado e nos atirasse este comentário (“estão para aí com essa conversa mas o Goulão sabe mais do que vocês leram, ó seus reaccionários”) a gente viraria costas, daria nenhuma atenção e se V. insistisse, no teor e acima de tudo no tom, decerto que algum de nós terminaria a intrusão com um “vá para o caralho, pá!”. Mas se V, se resumisse a um “estão para aí a falar mas por acaso conhecem os textos do Goulão?” logo se seguiria um “o Goulão? ena, pá!, o homem ainda mexe? já não está no Sporting? onde é que ele está a escrever? E o que é que o gajo anda a dizer? etc e tal” E poder-se-ia ter uma conversa sobre isso ou, pelo menos, uma dádiva de informações sobre o que ele escreve e onde. Ou mesmo poderíamos ter um debate entre cafés, cervejas, chás ou uísques. Dirá V. que não tem paciência ou vagar para vir debater para os comentários dos blogs, e terá toda a pertinência nisso. Mas se assim é pelo menos não venha com essa mão-na-anca, foda-se.

  4. Caro jpt, ideia para um próximo post: o quanto esta história do Afeganistão comporta semelhanças com o (e traz memórias do) nosso processo de descolonização: o entregar o poder aos terroristas, a aflição dos retornados, o ver aqueles territórios andarem para trás no tempo, o alívio-vergonha-revolta das nossas tropas…

    1. hum… não me parece. Certo que vi no FB algumas pessoas a mostrarem fotos de aviões cheios e a dizerem que lhes recordava o seu retorno de Angola. Mas, respeitando as memórias individuais, não há analogia consistente entre os dois fenómenos (e logo de início, como ponto até superficial, nem sequer há agora uma verdadeira “ponte aérea” como então houve). E nem abordo, porque isso seria uma outra questão, ainda que relacionada, a qualificação daquela época de “terroristas”…

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