DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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José António Abreu: «Tem de ser considerado facto estranho existirem intelectuais: levando em conta aquilo de que se prescinde, qualquer humano com dois neurónios funcionais evitaria tão activamente quanto lhe fosse possível desenvolver os restantes. Por que aceitam então alguns fazê-lo? Talvez a explicação seja simples, ainda que não simpática: ser intelectual é sempre um refúgio, um último recurso. É, no fundo, imaginar uma virilidade.»

 

Leonor Barros: «A idade tudo traz. Além dos despencanços que diariamente observo nos parcos minutos em que me relaciono com esse objecto que me mostra o que não quero ver, o meu odiado espelho, fui acometida de algo que não poderei negar durante muito mais tempo: incapacidade de ler ao perto. Presbiopia, dizem os entendidos. Por mais que estique os abraços e afaste os objectos de mim está a chegar aquela altura em que os braços me são curtos e os objectos permanecem um borrão ilegível.»

 

Teresa Ribeiro: «Faz-me impressão este muro de Berlim que existe entre a esquerda e a direita quando se discutem fenómenos como os que agitaram algumas cidades inglesas. Dos comentários sobre os motins, que se leram e ouviram nos media e na bloga, ressalta o clássico diálogo de surdos: a esquerda desculpabiliza as “vítimas da sociedade” desvalorizando os actos de vandalismo, a direita não quer saber das razões que possam explicar estas erupções e apela à repressão policial.»

 

Eu: «O mundo bipolar que ditou o destino de três gerações tornou-se tão obsoleto como a grafonola, o telégrafo ou a máquina de escrever. Mas pelo menos uma lição podemos e devemos extrair tanto dos acontecimentos de 1989 como deste extraordinário ano de 2011 ainda em curso: não é possível governar os povos pela força durante o tempo todo. Nenhuma região do mundo está imune aos ventos da liberdade.»

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