Theresa’s fiasco


Sérgio de Almeida Correia,

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Com a contagem dos votos praticamente no fim, hoje torna-se evidente o desastre que foi a campanha do Brexit e a monumental incompetência política e falta de visão estratégica de quem conduziu o Reino Unido à actual situação. Não fosse o injusto sistema eleitoral vigente e o resultado obtido pelos conservadores teria sido muito pior.

As eleições de ontem serviram, tal como se esperava, para aumentarem a confusão, confirmando o erro e a irresponsabilidade de populistas oportunistas como Boris Johnson e Nigel Farage. Se bem nos recordamos, Theresa May convocou estas eleições para reforçar a sua maioria em Westminster e se apresentar com uma legitimidade reforçada perante Bruxelas. Os resultados indicam que a sua figura será mais a de um Egas Moniz de baraço ao pescoço.  

Da abstenção não podem os Tories queixar-se porque houve nestas eleições uma maior afluência às urnas. Desde 2001 que a participação não era tão elevada, tendo atingido 68,38% (Em 2015 foram 66,1%, em 2010 a participação foi de 65,1%, em 2005 de 61,4% e em 2001 de 59,4%). Ou seja, os eleitores não foram indiferentes ao Brexit e tentaram corrigir esse desastre.

Por outro lado, apesar do sistema maioritário, Theresa May e os conservadores conseguiram a façanha de perder a maioria e arranjar um “hung parliament“, ou seja, um parlamento onde vai ser necessário fazer acordos para se poder governar. Os críticos nacionais dos sistemas de representação proporcional podem agora agarrar-se à lição inglesa: à reconhecida injustiça soma-se agora a instabilidade.

À hora a que escrevo, numa altura em que faltam atribuir apenas 29 mandatos, já se sabe que os conservadores perderam votos e mandatos para os trabalhistas e os liberais. O Labour conquistou até agora 30 novos mandatos, os liberais mais 5, confirmando-se o resultado desastroso do Scotish National Party que também já perdeu 18 mandatos.

Percentualmente, os trabalhistas têm apenas menos 2% do que os conservadores, o que vem confirmar, por um lado, os resultados de sondagens que referiam o bom acolhimento das propostas mais radicais do programa eleitoral dos trabalhistas, designadamente quanto à nacionalização de alguns sectores e empresas cujas privatizações se revelaram desastrosos, e, por outro lado, a má imagem de Corbyn junto do eleitorado do partido. Corbyn não era o homem indicado, nem ofereceu aos eleitores a confiança suficiente para poder vir a executar o programa do seu partido.  

O UKIP de Paul Nuttall e desse xenófobo vendedor de ilusões e banalidades, que ainda há dias esteve nas Conferências do Estoril a fazer figura de importante, foi arrasado e ficou sem o seu único deputado. Também por aqui os eleitores podem agradecer a convocação das eleições antecipadas.

A libra já começou a vir por aí abaixo. Os conservadores saem destas eleições em estado de choque. Depois de terem cavalgado a onda trumpista, populista, anti-refugiados, anti-islâmica e anti-europeia, enfiando tudo e todos num só saco, podem agora começar por arrumar as ideias, ir tratando das mazelas e limpar a casa.

Os Tories fizeram a cama em que queriam que os eleitores se deitassem. Estes recusaram. Os Tories e o UKIP tiveram o que mereciam. A democracia voltou a vencer.

0 comentários em “Theresa’s fiasco”

  1. Curioso como os Trabalhistas prometiam nacionalizar as mesmas empresas/sectores da economia que, há bem pouco tempo, nós, por cá, privatizámos.

    Quanto ao Flash Gordon nem sei como um boneco daqueles chegou a MNE. Ele e Trump têm certas semelhanças, a começar pela boina.

  2. apesar do sistema maioritário, […] os conservadores conseguiram a façanha de perder a maioria

    Pelo contrário! O que acontece é que o sistema maioritário distorce os resultados reais de forma imprevisível. Os conservadores, de facto aumentaram a percentagem de votos que tiveram em relação à eleição anterior (pelo menos, é isso que vejo no saite lincado) em cinco pontos percentuais (na eleição anterior terão tido 37% dos votos, nesta tiveram 42%). O que acontece é que na eleição anterior o sistema eleitoral os favoreceu de forma brutal, nesta agora não.

  3. Este texto não é uma análise, é uma opinião simples: “eu não gosto da direita e não gosto da senhora”. Mais valia escrever isso com clareza.
    De um lado, temos os incompetentes monumentais e do outro os sábios que vão salvar o Reino Unido da desgraça de um brexit onde, se não me engano, há uns interlocutores do outro lado.
    Assim, a realidade parece-me um pouco mais complicada: os conservadores aumentaram a sua votação, tiveram mais 5 pontos percentuais do que em 2015, e perderam deputados devido ao regresso do bipartidarismo, com os votos do UKIP a deslizarem na direcção de Corbyn; onde está a explicação deste fenómeno de ‘xenófobos’ votarem à esquerda? O UKIP fez-se à conta de muitos votos do Labour que agora regressaram a casa.
    Não existe nenhum sistema injusto, existe o sistema eleitoral que todos aceitam e que ninguém contesta.
    A libra afundou-se logo com as primeiras sondagens que sugeriam um parlamento sem maioria.
    Na realidade, os conservadores até tiveram mais votos do que os trabalhistas e mais deputados (uma vantagem de 57), os lib-dem eram os únicos que defendiam novo referendo, mas foram batidos; aparentemente, Corbyn, opondo-se ao hard brexit, recebeu muitos votos de britânicos que votaram a favor do remain, o que May não conseguiu na mesma proporção. O SNP afundou-se na Escócia. E nunca saberemos o efeito que teve a história dos 20 mil polícias a menos, no dia seguinte a um cruel atentado.
    A estratégia de May fracassou de forma catastrófica, dizem os analistas, parece aliás evidente, mas não se entende a razão de Boris Johnson ser considerado ‘populista’ neste texto, ou Farage (que nem sequer participou no filme), mas Corbyn não ser considerado igualmente populista, embora tenha feito uma campanha claramente dessa categoria, ao prometer o fim das propinas e mais despesa na saúde pública. De resto, confundir os conservadores britânicos com populistas parece um bocadinho contraditório; Boris Johnson parece-se muito mais com um elitista.
    Corbyn “não era o homem indicado”; ora, Corbyn aumentou a votação do seu partido em dez pontos percentuais, o dobro do que avançou May; se isto não é o homem indicado…

    1. Não existe nenhum sistema injusto, existe o sistema eleitoral que todos aceitam e que ninguém contesta.

      (1) O facto de todos aceitarem e ninguém contestar uma certa coisa não quer dizer que ela não seja injusta. No passado distante, toda a gente aceitava e ninguém contestava certas coisas que hoje todos consideramos injustas (por exemplo, a escravatura).

      (2) Não sei como se classifique um sistema eleitoral que dá menos deputados a uma força política cuja votação aumentou substancialmente, como foi o caso do partido conservador. Imprevisível é, certamente. E justo, também não me parece que seja.

    2. “Este texto não é uma análise, é uma opinião simples: “eu não gosto da direita e não gosto da senhora”. Mais valia escrever isso com clareza.
      De um lado, temos os incompetentes monumentais e do outro os sábios que vão salvar o Reino Unido da desgraça de um brexit onde, se não me engano, há uns interlocutores do outro lado.”
      Não há nada para responder. Cada um faz a leitura que entende, apimentando e salgando como mais lhe convém. Não é isso que lá está, mas se tu queres assim e ficas satisfeito, ainda bem.
      “os conservadores aumentaram a sua votação, tiveram mais 5 pontos percentuais do que em 2015, e perderam deputados devido ao regresso do bipartidarismo, com os votos do UKIP a deslizarem na direcção de Corbyn; onde está a explicação deste fenómeno de “xenófobos” votarem à esquerda? O UKIP fez-se à conta de muitos votos do Labour que agora regressaram a casa.”
      Sim, os conservadores tiveram mais 5,5%. O Labour teve mais 9,5%. Os conservadores em 2015 obtiveram 11.334.576, o Labour 9.347.304. Agora os conservadores tiveram 13.667.213 (+2.332.637), o Labour 12.874.985 (+3.527.681). Os votos do UKIP deslizaram para o Labour? Qual a fonte? E os dos Tories vieram de onde? Então os votos do UKIP foram para o Labour? E os do aumento da participação e dos tories foram para onde? Para o teu bolso? Ou os que estavam em casa e foram votar eram todos tories?
      “Não existe nenhum sistema injusto, existe o sistema eleitoral que todos aceitam e que ninguém contesta.”
      Falso. Tem sido contestado no Reino Unido. O debate vem de há muito. Se tens tempo disponível esclarece-te, investiga. Não custa nada.
      “A libra afundou-se logo com as primeiras sondagens que sugeriam um parlamento sem maioria.”
      Sondagens? Depois de uma queda em 25 de Maio, a Libra esteve sempre em tendência de subida até 8 de Junho. Como explicas? A queda abrupta (para valores onde nunca tinha estado, por isso abrupta) dá-se depois de 8 de Junho: https://tradingeconomics.com/united-kingdom/currency.
      Uma vez mais vês a realidade como te convém. Problema teu.
      “Na realidade, os conservadores até tiveram mais votos do que os trabalhistas e mais deputados (uma vantagem de 57), os lib-dem eram os únicos que defendiam novo referendo, mas foram batidos; aparentemente, Corbyn, opondo-se ao hard brexit, recebeu muitos votos de britânicos que votaram a favor do remain, o que May não conseguiu na mesma proporção. O SNP afundou-se na Escócia. E nunca saberemos o efeito que teve a história dos 20 mil polícias a menos, no dia seguinte a um cruel atentado.”
      Ninguém disse que os conservadores tiveram menos votos do que os trabalhistas. Mas uma diferença de 57 deputados entre tories e labours para uma diferença de 792 mil votos, ou seja, de 2,4%, faz o sistema maioritário mais justo do que o de rep. prop.? Havendo círculos em que a diferença foi mínima? E todos os outros sem representação parlamentar? São as regras do jogo, pois são, mas isso não quer dizer que sejam justas.
      O SNP “afundou-se” porque não se podem misturar sentimentos independentistas com identificação ideológica/partidária. O Prof. John Curtice, da Strathclyde University, referiu que já em 2015 ¼ dos votantes do SNP desertara e teria abandonado esse barco para apoiar os conservadores. Pode ser que tenha voltado a ocorrer, o que justificará os resultados. Pode ser que haja outra explicação, talvez que Lynn Bennie um destes dias diga alguma coisa mais sobre isso. A história dos polícias? Lá estás tu com visões.
      Finalmente, é natural que os teus conceitos de populismo sejam diferentes dos meus. A literatura sobre esse tema e as análises sobre quem referes são inúmeras, de vários ângulos, mas é natural que quem considera os “protofascistas” húngaros e polacos como genuínos democratas e a UE uma “malandragem” (os termos são meus), quando trata da Hungria ou da Polónia, tenha dificuldade em entender outras leituras.
      Eu não estava analisar o Corbyn, por isso não tinha que estabelecer comparações. Eu aqui escolho os temas e apresento a minha perspectiva. Tal como todos nós. Há quem concorde, há quem discorde. Normal.

      1. Só lamento não ter o direito de ser tratado com algum respeito. Refiro-me obviamente ao penúltimo parágrafo deste comentário. Sou praticamente acusado de ser fascista e nem o meu conhecimento de uma realidade merece alguma cautela. Mas, enfim, são estilos…

        1. Nāo, Luís, não sāo estilos. E não me parece que em momento algum te tenha faltado ao respeito. Sāo factos e visōes diferentes. Não tens que ficar melindrado. E escusas de tresler. Ninguém pōe em causa o teu conhecimento, só discordo da tua visāo. Pelos vistos eu e muitos mais. Em matéria de refugiados até o Paulo Portas…
          Tu lá saberás.

    3. Quanto ao Boris Johnson, recordo apenas que dois dias antes (19 de Fevereiro) de declarar o seu apoio ao brexit, o figurão escreveu um texto a anunciar que iria fazer campanha a favor do remain. O artigo foi escrito para o Daily Telegraph, que só num ano lhe pagou 275.000 libras, e acabou por não ser publicado porque o tipo se arrependeu: “Britain is a great nation, a global force of good. It is surely a boon for the world and Europe that she should intimately be engaged in the EU”, escreveu ele. Na mesma altura disse que o acordo negociado por Cameron em Bruxelas “contains the germ of something really good. I´m going to muffle my disappointment and back the prime minister.” Como se escreveu no Politico “he didn´t. A few days later, Johnson announced he would join the Leave campaign, and went on to become its most prominent member”. Logo a seguir, na coluna do Telegraph, BJ escreveu que ficar na UE levaria à erosão da democracia e que o referendo era a oportunidade de uma vida “to vote for real change”. O livro do editor do Sunday Times, Tim Shipman, também pode trazer-te alguma luz sobre o assunto. O que BJ depois foi dizendo ao longo da campanha, prometendo mundos e fundos e falando de números sem qualquer correspondência com a realidade, só para ganhar votos, é de todos conhecido. Além de populista é um fala-barato e um cata-vento pouco fiável que não assume a responsabilidade pelo que diz e faz. Voltou a ver-se agora a seguir às eleições quando fugiu da imprensa para não ter de se pronunciar. Tu terás outra opinião sobre o sujeito. Não vejo qual seja o teu problema.
      O Farage foi um dos responsáveis pela actual situação. Atear o fogo e “dar à sola” não o torna menos responsável.

      1. “Boris Johnson is Britain’s most talented populist. He has seduced his country to leave the European Union — and it could make him prime minister. But those supporting him could end up paying most dearly.”
        http://www.spiegel.de/international/europe/boris-johnson-a-talented-populist-on-the-rise-a-1099802.html

        “Boris Johnson’s legacy will be the personification of populism” http://www.bbench.co.uk/single-post/2016/12/06/Populism-Personified-The-Rise-and-Fall-of-Boris-Johnson

  4. Não sei qual terá sido a intenção de May ao conduzir o UK para eleições. Mas, pelos resultados, eu sei que a decisão foi boa, pois assim proporcionou uma clarificação sobre as intenções dos eleitores britânicos.
    Estou em crer que só assim poderá ser levada a efeito uma boa negociação com a UE. E uma boa negociação passa, a meu ver, por proporcionar ao UK a capacidade de decidir soberanamente quais as relações que deve manter com a UE e quais as que deve rejeitar.

    A política do uniformismo europeu veio a revelar-se incompatível nas mais diversas crises que a Europa atravessou. O modelo português, hoje um case study na Europa, com Schauble a promover Centeno como o Ronaldo do Ecofin, demonstra-nos que quando são os grandes países a entrar em desacordo a Europa corre sério risco de quebrar, mas também que quando são os pequenos a demonstrar o erro somente lhes passam a mão pela cabeça.

    May proporcionou a clarificação do modelo que os britânicos pretendem. E o futuro executivo vai ter de ter em conta essa leitura.
    O Reino Unido não quer deixar a região da Ásia-Pacífico entregue aos americanos.

  5. A típica manipulação da narrativa feita pela Esquerda.

    Populistas é só do lado conveniente.
    Corbyn parece que não é xenófobo isto apesar de odiar e ameaçar uma data de gente. Começando como bom Marxista pelos do seu partido.
    Os Unionistas são transformado em Pró-Europeus no continuado rapinanço e apropriação do nome Europa que já existia muito antes.
    Chama conservadores a gente que nada conserva excepto mais socialismo tal como os de cá…

    Até tivemos a pérola :” a democracia voltou a vencer “

  6. Fiasco ou não, uma coisa é certa. Os recém eleitos parlamentares que honradamente acabaram de obter os seus lugares no Parlamento do RU, representam, e representarão, os seus respectivos eleitores nas moções legislativas em que irão participar.

    Já outro tanto não se pode dizer do que acontece noutra democracia perto de si.

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