Jogar e perder.


Luís Menezes Leitão,

Não há jogadas seguras em política. Uma eleição nunca está garantida, pois depende de factores imprevisíveis, como na teoria do caos em que a borboleta que bate as asas em Pequim provoca um temporal em Nova Iorque.

 

Theresa May, perante as dificuldades políticas do Labour de Jeremy Corbyn, julgou que poderia calmamente convocar eleições, e ter uma maioria que lhe garantisse um mandato forte para as negociações de um “hard Brexit“. Mas a verdade é que não se pode vender a pele do urso antes de o ter morto, e Corbyn revelou-se um osso muito duro de roer na campanha, apostando em cumprir o slogan que imediatamente surgiu: “Let’s make June the end of May“. Por outro lado, Theresa May mostrou uma absoluta incompetência política, ameaçando os ingleses com mais impostos, como o “imposto sobre a demência”, a fazer lembrar o poll tax que precisamente deitou abaixo Thatcher. Desde Mondale que se sabe que em eleições não se anunciam novos impostos e ponto final.

 

E agora? Dificilmente May continuará a liderar o governo, e mesmo que os conservadores continuem no poder, o Brexit pode tornar-se tão soft que ninguém dê por ele. E nem é de excluir a hipótese de Corbyn conseguir imitar António Costa e montar uma geringonça no Reino Unido, para fazer também as reversões prometidas, como a renacionalização dos transportes. Aconteça o que acontecer, o Reino Unido está metido num grande sarilho. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

0 comentários em “Jogar e perder.”

  1. Parece-me também que os ataques bombistas não provocaram um crescimento eleitoral dos radicais britânicos, ao contrário do que se passa/passou em França.

  2. ameaçando os ingleses com […] o “imposto sobre a demência” […] Desde Mondale que se sabe que em eleições não se anunciam novos impostos

    Não se trata de importo nenhum. Trata-se de fazer com que as pessoas que requerem cuidados continuados na velhice (por exemplo, por terem Alzheimer) paguem, após a sua morte, por esses cuidados, através de uma decução à herança. Isto corresponde a uma diminuição de impostos para a população em geral, dado que a população em geral deixa de ter que pagar os cuidados àqueles (poucos) que deles necessitam e que têm posses para os pagar. Em minha opinião, trata-se de uma medida justíssima.

    1. Curioso como um homem de ciclovias, carrinhos de mão, e de compostagens, um irmão socialista, e peregrinador a Medinas, defenda, num argumentário neoliberal, semelhante imposto.

      Pelo seu raciocínio acabar-se-ia com o Sistema Nacional de Saúde e qualquer tipo de Contrato/Solidariedade Social. Veja bem, porque não alargar esse imposto a outras patologias, por exemplo as oncológicas?

      E depois sempre essa historia do cobrar…existem determinadas matérias que não deveriam ser abrangidas pelo economês, como por exemplo doença, miséria e morte. Há outros sítios onde se podem ir buscar os recursos, que não à bolsa de doentes.

      1. Já disse que não se trata de imposto nenhum. Trata-se de uma aplicação do princípio do utilizador-pagador: quem utiliza um serviço, paga-o, quem não o utiliza, não o paga.
        Repare que, tanto quanto eu entendo, não se trata de um cuidado de saúde e sim de um cuidado continuado. Um doente com Alzheimer precisa quem trate dele. Se um familiar tratar dele, então o doente não precisa do serviço estatal e não o paga. Somente se não houver familiar que se prontifique a cuidar dele é que o serviço estatal intervem. E somente neste último caso é que esse serviço estatal é pago – pelos familiares do doente, que recebem uma herança menor.
        A mim parece-me bastante justo.

  3. Excelente análise, embora nesta altura (sexta de manhã) a possibilidade de uma geringonça já esteja afastada. May vai tentar fazer um governo com os unionistas irlandeses, embora no partido conservador muitos dirigentes já estejam a afiar as facas. Quanto tempo é que dura esta tentativa? Talvez pouco tempo. Em relação ao Brexit, tudo depende da posição dos europeus: se eles quiserem endurecer os termos do acordo, vão conseguir virar a opinião pública a favor de um hard brexit. O país está dividido, mas isso não significa que não se possa unir ou que aceite termos inaceitáveis.

    1. Concordo. Corbin e os trabalhistas, cada vez mais perto do poder, nunca facilitarão uma “re-entrega” de qualquer poder político a uma, esta, caótica UE, falida e nada democrática.
      Muito menos a esta nova tentativa germanica de criar o novo Reich.
      Alemanhã que aliás só receia, respeita, mais uma vez, a velha Albion e o seu novo, insubmetível, aliado, o poderoso Sr. Trump.

  4. Mais um exemplo de uma conservadora que nada conserva e só não é ainda mais Estatista-Socialista porque não pode.
    Só teve o que mereceu.

    Quanto a Corbyn mostra como boa parte do eleitorado do Reino Unido é favorável ao terrorismo e uso da violência do Estado contra os seus concidadãos.

    Os Líbanos Europeus estão a começar a formar-se. Agradeçam ao jornalismo marxista e à educação “publica”.

  5. nem é de excluir a hipótese de Corbyn conseguir imitar António Costa e montar uma geringonça no Reino Unido

    Em Inglaterra, felizmente, o Parlamento não é uma central política e para-judicial como se aceita bovinamente por cá. Têm outras câmaras e têm a Rainha que é mais valiosa do que qualquer Constituição patrulhada com arrogância por jacobinos e socialistas assomadiços.

    1. V, aqui para a gente, aquilo dos Lordes, com clérigos à mistura, mais a Rainha, serve para quê?

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