“O problema que está em causa não tem a ver com o acesso às escutas – tem exactamente a ver com o facto de o povo português não conhecer o conteúdo das escutas"
Esta frase não devia ter sido dita. Esta frase não podia ter sido proferida. Mas tendo-o sido é natural que exija a nossa reflexão. O facto do povo português não conhecer o conteúdo das escutas a que a líder do PSD se refere é exactamente o mesmo que legítima a sua intervenção pública.
O que define a democracia, entre outras coisas, é a aceitação pelos seus actores e forças políticas de um conjunto de regras e são estas regras que a fazem funcionar. Até no caso das escutas.
Mesmo admitindo que todos nós, povo, temos um pouco de bisbilhoteiros e de voyeurs, é evidente que a democracia também tem de acautelar esse voyeurismo. Não sei se onde vive Manuela Ferreira Leite tem vizinhos, nem se tem por hábito espiolhar o que os seus vizinhos fazem ou dizem, e se depois corre a apregoar o que ouviu, mesmo que não tenha ouvido nada e tudo não passe de um rumor lançado pelo homem do café da esquina ou pelo padeiro que um dia viu a vizinha divorciada em trajes menores a estender uma toalha de banho durante a visita de um meio-irmão que tinha vindo do Brasil e cuja existência era desconhecida da gente do bairro.
Tivesse Manuela Ferreira Leite escutado o que disse a sua companheira de partido e ex-juíza do Tribunal Constitucional, Assunção Esteves, e teria compreendido o porquê de não se poder contornar as regras à medida das conveniências. O interesse que algumas pessoas revelam por conhecer o conteúdo das conversas do primeiro-ministro não será muito diferente do interesse que algumas pessoas têm por conhecerem os hábitos dos seus vizinhos. Mas não é por haver quem tenha esse interesse – gostos não se discutem – que se vai permitir a devassa, fomentar a bisbilhotice e a coscuvilhice.
Francisco Pinto Balsemão, que há muito mandou a política às urtigas, preocupado com o futuro do PSD, alertou para a existência de coveiros dentro do próprio partido. Ninguém ficou a saber a quem ele se referia, embora todos também saibam que no PSD haja o estranho hábito de se rezarem missas de sétimo dia por tudo e por nada. A questão é que o coveiro não é o problema. Pinto Balsemão sabe que o coveiro se limita a enterrar o defunto cujo óbito foi previamente confirmado.
Relendo as palavras de Ferreira Leite fiquei convencido de que Balsemão teve pudor em ser mais claro. Quando à custa da quebra do segredo de justiça se fomenta a intriga, a coscuvilhice e a delação para satisfazer os instintos voyeuristas da populaça (convém não confundir com o povo português) mais não se está a fazer do que a apontar o dedo à vizinha.
O povo português não quer saber do que não tem que saber. O "povo" gostava é que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite olhasse para dentro de sua casa, limpasse o pó acumulado debaixo da sua cama, abrisse os roupeiros, matasse as traças e se livrasse dos monos que atravancam o passeio e o hall de entrada do seu prédio e que ela prometera tirar de lá antes do próximo Natal. O seu partido tresanda a mofo. E por via disso também o resto do prédio. Um dia a Dr.ª Manuela poderá mudar de casa. O cheiro permanecerá no prédio. Quando não for o do mofo será o da naftalina. Ficou entranhado. Ela devia saber isto. A democracia também tem a suas fragilidades. Como os homens. O Dr. Pinto Balsemão vai ter de ser mais claro.

Vieira da Silva, na entrevista a Flor Pedroso, verbalizou uma evidência: se há informações na comunicação social que alegam transmitir segredos de Justiça, então há espionagem política. Espionagem, porque resultam de capturas ilegais do que era suposto permanecer secreto. E política, porque a intenção é obter ganhos políticos.
Nunca vi um político com funções executivas, ainda por cima pertencendo ao núcleo político mais próximo do PM, fazer uma pressão tão evidente e tão descarada sobre os órgãos de investigação criminal, o que suscitou a reacção indignada das estruturas sindicais do Ministério Público e da associação sindical de juízes. Bem avisados andaram António Vitorino, António Costa e o próprio ministro da Justiça, Alberto Martins, ao demarcarem-se de imediato das infelizes e preocupantes declarações do ministro da Economia.
Sérgio: há um problema com o ‘link’ que não conduz a lugar nenhum.
Obrigado, Pedro, já está corrigido.
Sérgio (dirijo-me inspirado pelas palavras do Pedro aqui em cima): há um problema com Manuela Ferreira Leite que não conduz a lugar nenhum.
Problema com Manuela Ferreira Leite!!?? e eu a pensar que era com o Primeiro-Ministro de Portugal! ainda vai chegar o dia em que vão acusar a Drª Manuela Ferreira Leite de ser a culpada pelo estado da economia portuguesa!! e muita gente vai acreditar!!
com as informações que hoje temos sobre o estado da economia e que durante o periodo pre-eleitoral foram sonegadas ao portugueses, muita gente devia era pedir desculpas à Drª Manuela Ferreira Leite!! afinal Manuela Ferreira Leite tinha mais que razão, Socrates é realmente o COVEIRO DE PORTUGAL…
A Mofo!!?? A Drª Manuela Ferreira Leite tem sido uma lufada de ar realista na politica portuguesa…enquanto grande parte das nossas “elites” que vivem na mais pura das ficções, só assim se explica o ESTADO a que Portugal chegou!!! a Mofo… ahhhhhhh
Não me GRITE.
Uma lufada de ar realista? Não conheço. Conheço a de ar fresco, mas não deve ser o caso…
Que saudades do velho Tric, que não gritava nem inventava ares.
A propósito: quem é que anda a liderar o seu partido nesta transição?
não é gritar, longe de mim ter tal atitude! é para dar apenas mais evidência à ideia…mas se assim não o entendeu, como parece, peço desde ja as minhas sinceras desculpas!
Então e o endividamento nacional, Tric? Abandonou a sua dama? Não se faz…
mas não abandonei o Madoff…nem a Barbie do Ângelo Correia…
Faz muito bem. E não se esqueça: não é por eu ser crítico de Sócrates que passarei a achar que os restantes líderes partidários são óptimos. Menos ainda os que foram eleitos líderes e não o são.
A evidência, meu caro, é suposto estar nas ideias e nas palavras que as traduzem. A importância de umas e de outras não cresce com a prosa em letras maiúsculas. Por acaso já viu, na sua vasta biblioteca, alguma obra do Eça toda escrita em maiúsculas? Olhe que ele merecia…