«O perigo da liberdade moderna está em que, absorvidos pelo gozo da independência privada e na busca de interesses particulares, renunciemos demasiado facilmente ao nosso direito de participar do poder político.
Os depositários da autoridade não deixam de exortar-nos a isso. Estão sempre dispostos a poupar-nos a toda espécie de cuidados, excepto os de obedecer e de pagar! Eles nos dirão; “Qual é, no fundo, o objectivo de todos os vossos esforços, o motivo de vosso trabalho, objecto de vossas esperanças? Não é a felicidade? Pois bem, essa felicidade, aceitai e nós nos encarregaremos dela.” Não, Senhores, não aceitemos. Por mais tocante que seja um interesse tão delicado, rogai à autoridade de permanecer em seus limites. Que ela se limite a ser justa; nós nos encarregaremos de ser felizes. Poderíamos ser felizes através de regalias, se essas regalias fossem separadas das garantias? Ou encontraríamos essas garantias se renunciássemos à liberdade política? Renunciar a ela, Senhores, seria uma loucura semelhante à do homem que, sob pretexto de habitar no primeiro andar, pretendesse construir sobre a areia um edifício sem fundações.
De resto, Senhores, será mesmo verdade que a felicidade, de qualquer espécie que ela possa ser, seja o único objectivo do género humano? Nesse caso, a nossa meta seria muito estreita e o nosso destino muito pouco nobre. Não haveria nenhum de nós que – se quisesse rebaixar-se, restringir suas faculdades morais, aviltar seus desejos, renunciar à actividade, à glória, às emoções generosas profundas – não conseguisse embrutecer-se e ser feliz.»
Benjamin Constant


Isso é so nos UE.. cá na nossa aldeia é diferente…
ou não?!
http://www.youtube.com/watch?v=hYIC0eZYE tI&feature=related
😉
Bom shot, Bartolomeu (o G. Carlin fala para os peixes e sabe disso, por essa razão é que o aturam, senão…).
O Constant nada sabia dos USA, contribuiu foi para as sementes que por lá proliferaram. Ele pensava mais na liberdade dos modernos, olhos postos em França e em Inglaterra, desconstruindo Rousseau e Montesquieu. E foi o primeiro a falar sobre a irrelevância do tamanho geográfico das nações vs o seu grau de emancipação individual. Claro: era suíço. Não falava de Portugal…
Este bem seleccionado excerto demonstra o realismo de Benjamin Constant e serve-nos em particular, pois cai-nos direitinho como um barrete.
Um dos nossos males mais relevantes consiste no alheamento em relação à política, como se o poder político não fosse uma escolha nossa. Pior ainda porquanto é verdade que nos deixamos embalar pelos próprios políticos em exercício, muitos deles tecnocratas que devíamos dispensar. Mas somos nós que nos dispensamos e nos distanciamos do debate, pelo que não conhecemos o fundo das questões, nem participamos nas grandes decisões que deviam caber-nos.
Um dia, tarde ou cedo, acabamos sempre por descobrir que não andamos felizes por ter passado a pasta. Sobretudo, descobrimos até o pior, que é perceber que podíamos provavelmente ser mais felizes.
Foste feliz neste abanão, Laura.
Obrigada, João. Se calhar tudo isto ainda tem qualquer coisa a ver com independência. Com pátria. E com orgulho.
Cada um de nós, se quisesse, podia ser ‘uma pequena superpotência’ (a expressão é de Constant). Mas, como dizes – e como acontece na 2ª parte do ‘King’, quando não queremos oferecer vasas (ai que saudades repentinas, eheh) passamos.
O Benjamin conhecia os portugueses. Só pode…
Grande texto, grande barretada.
Eu quero é saber quando é que os teus novos textos vêem a luz do dia! Se não for antes, falamos no 7 castelos… não te livras! 🙂
Falamos, pois.
Isto promete, Ana. Podes marcar… Lá estarei no ‘7 castelos’, o sítio mais ‘in’ do momento (em Oeiras). Allons-y 🙂
Excelente texto, tão assertivo e que nos encaixa que nem uma luva!
Dá-me cá uma tristeza… não aprendemos nada!
Eu até ironizava, quando rematei assim. Mas que é verdade, é…
Laura,
uma pessoa distrai-se um nadita e dá nisto, agora nada a fazer. O mal já veio de trás, deveria ter sido eu e não Benjamin Constant a expressar aquele pensamento da forma superior que o texto documenta, seria eu e não ele a assinar esta reflexão notável se a vida fosse justa – e esse foi o primeiro imprevisto. Não sendo o autor, deveria então ter sido minha a escolha destas palavras, revelando olho clínico, critério de excelência e diagnóstico de oportunidade… mas não. Segundo deslize, imperdoável. Daí para a frente nada a fazer, vejamos, ele há dias assim, tive que me resignar e aceitar que o João Carvalho escrevesse e bem o meu comentário ao seu post, tive que ler o meu opinar ali, tintim por tintim e as pesoas a verem e tudo, foi duro, foi muito duro… Por isso já nem buli ao ver desvendada pela Ana Vidal a minha particular suspeita sobre a intimidade do Ben com a alma lusitana, de resto bem patente neste texto que é como que um fatinho feito por medida na exacta medida do nosso fadinho. Ora dito tudo isto agora o que dizer, não me diz? Laura?
Devia ter estudado, eu sei. Mas mesmo assim acho isto tudo muito injusto.
Ora, ora, Rui: ‘que nada’! Nós já sabemos isto tudo desde o H. Pagani, não é? Parece que nada tem a ver com ele… mas tem. E depois, eu sou apenas uma leitora empedernida de uma desconhecida editora chamada Tenacitas (recomendo).
Tenho a certeza que se embrutecesse não seria feliz.
Uma pergunta: o M de síMtese e aMtítese tem algum significado?
É melhor eu não me deitar a adivinhar.