Sulfúricas


lauraramos,


«O perigo da liberdade moderna está em que, absorvidos pelo gozo da independência privada e na busca de interesses particulares, renunciemos demasiado facilmente ao nosso direito de participar do poder político.

Os depositários da autoridade não deixam de exortar-nos a isso. Estão sempre dispostos a poupar-nos a toda espécie de cuidados, excepto os de obedecer e de pagar! Eles nos dirão; “Qual é, no fundo, o objectivo de todos os vossos esforços, o motivo de vosso trabalho, objecto de vossas esperanças? Não é a felicidade? Pois bem, essa felicidade, aceitai e nós nos encarregaremos dela.” Não, Senhores, não aceitemos. Por mais tocante que seja um interesse tão delicado, rogai à autoridade de permanecer em seus limites. Que ela se limite a ser justa; nós nos encarregaremos de ser felizes. Poderíamos ser felizes através de regalias, se essas regalias fossem separadas das garantias? Ou encontraríamos essas garantias se renunciássemos à liberdade política? Renunciar a ela, Senhores, seria uma loucura semelhante à do homem que, sob pretexto de habitar no primeiro andar, pretendesse construir sobre a areia um edifício sem fundações.

De resto, Senhores, será mesmo verdade que a felicidade, de qualquer espécie que ela possa ser, seja o único objectivo do género humano? Nesse caso, a nossa meta seria muito estreita e o nosso destino muito pouco nobre. Não haveria nenhum de nós que – se quisesse rebaixar-se, restringir suas faculdades morais, aviltar seus desejos, renunciar à actividade, à glória, às emoções generosas profundas – não conseguisse embrutecer-se e ser feliz.»

Benjamin Constant

14 comentários em “Sulfúricas”

    1. Bom shot, Bartolomeu (o G. Carlin fala para os peixes e sabe disso, por essa razão é que o aturam, senão…).
      O Constant nada sabia dos USA, contribuiu foi para as sementes que por lá proliferaram. Ele pensava mais na liberdade dos modernos, olhos postos em França e em Inglaterra, desconstruindo Rousseau e Montesquieu. E foi o primeiro a falar sobre a irrelevância do tamanho geográfico das nações vs o seu grau de emancipação individual. Claro: era suíço. Não falava de Portugal…

  1. Este bem seleccionado excerto demonstra o realismo de Benjamin Constant e serve-nos em particular, pois cai-nos direitinho como um barrete.

    Um dos nossos males mais relevantes consiste no alheamento em relação à política, como se o poder político não fosse uma escolha nossa. Pior ainda porquanto é verdade que nos deixamos embalar pelos próprios políticos em exercício, muitos deles tecnocratas que devíamos dispensar. Mas somos nós que nos dispensamos e nos distanciamos do debate, pelo que não conhecemos o fundo das questões, nem participamos nas grandes decisões que deviam caber-nos.

    Um dia, tarde ou cedo, acabamos sempre por descobrir que não andamos felizes por ter passado a pasta. Sobretudo, descobrimos até o pior, que é perceber que podíamos provavelmente ser mais felizes.

    Foste feliz neste abanão, Laura.

    1. Obrigada, João. Se calhar tudo isto ainda tem qualquer coisa a ver com independência. Com pátria. E com orgulho.
      Cada um de nós, se quisesse, podia ser ‘uma pequena superpotência’ (a expressão é de Constant). Mas, como dizes – e como acontece na 2ª parte do ‘King’, quando não queremos oferecer vasas (ai que saudades repentinas, eheh) passamos.

  2. Excelente texto, tão assertivo e que nos encaixa que nem uma luva!
    Dá-me cá uma tristeza… não aprendemos nada!

  3. Laura,
    uma pessoa distrai-se um nadita e dá nisto, agora nada a fazer. O mal já veio de trás, deveria ter sido eu e não Benjamin Constant a expressar aquele pensamento da forma superior que o texto documenta, seria eu e não ele a assinar esta reflexão notável se a vida fosse justa – e esse foi o primeiro imprevisto. Não sendo o autor, deveria então ter sido minha a escolha destas palavras, revelando olho clínico, critério de excelência e diagnóstico de oportunidade… mas não. Segundo deslize, imperdoável. Daí para a frente nada a fazer, vejamos, ele há dias assim, tive que me resignar e aceitar que o João Carvalho escrevesse e bem o meu comentário ao seu post, tive que ler o meu opinar ali, tintim por tintim e as pesoas a verem e tudo, foi duro, foi muito duro… Por isso já nem buli ao ver desvendada pela Ana Vidal a minha particular suspeita sobre a intimidade do Ben com a alma lusitana, de resto bem patente neste texto que é como que um fatinho feito por medida na exacta medida do nosso fadinho. Ora dito tudo isto agora o que dizer, não me diz? Laura?
    Devia ter estudado, eu sei. Mas mesmo assim acho isto tudo muito injusto.

    1. Ora, ora, Rui: ‘que nada’! Nós já sabemos isto tudo desde o H. Pagani, não é? Parece que nada tem a ver com ele… mas tem. E depois, eu sou apenas uma leitora empedernida de uma desconhecida editora chamada Tenacitas (recomendo).

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