Somos um país pobre


Pedro Correia,

 

Durante anos, durante demasiados anos, andaram a vender-nos uma falácia. Governos de várias cores políticas, insuflados de optimismo, garantiram-nos que éramos um país rico: inundados de “fundos estruturais”, aconchegados pelo carinhoso abraço que nos dava a “Europa”, fazíamos enfim parte do selecto clube das nações prósperas. Transformámo-nos, ipso facto, num paraíso do consumo: roupas caras a crédito, férias a crédito, recordistas no número de telemóveis, de computadores, de segunda habitação. Tornámo-nos “proprietários” de imóveis – e porque haveríamos de adquirir um T2 se o fácil crédito bancário nos sugeria a compra de um T4? Corremos aos stands para garantir o título de propriedade de um todo-o-terreno, de um topo-de-gama: ninguém nos veria com uma viatura inferior à do nosso vizinho ou do nosso colega de escritório, era o que mais faltava.

Agimos como ricos. Convencidos, de facto, que éramos ricos – a conversão do escudo em euro elevava-nos, sem aparente esforço, ao estatuto económico dos alemães. Em mil discursos falaram-nos das maravilhas do “investimento público”, no prodígio das grandes infra-estruturas dignas de encher o olho: havia 20 mil novas rotundas para construir em vilas e cidades, havia novas habitações prontas a erguer no país dos 500 mil fogos vazios, indiferente à reabilitação urbana. E a “alta velocidade” ferroviária levar-nos-ia sem demora à Europa das luzes.

Tudo isto enquanto fechavam fábricas, se abandonavam os campos, se desmantelava a frota pesqueira, se encerravam minas e explorações pecuárias, se descuidava o nosso vasto património florestal. Qual o problema? O milagre da multiplicação dos fundos oriundos de Bruxelas toldava-nos a razão, as baixas taxas de juro estimulavam novas vagas de consumo, a retórica política transbordava de optimismo. E as raras Cassandras nacionais eram corridas a pontapé pela agremiação dos comentadores, sempre conformada ao discurso oficial.

Esse discurso garantia-nos que éramos ricos. Mesmo sem produzir. Mesmo a importar 80% do que comíamos – com recurso a dinheiro emprestado.

Um dia – há pouco tempo – despertámos do longo sono, abrindo os olhos para a realidade. Que pode ser descrita em quatro sucintas palavras: somos um país pobre.

O optimismo oficial emigrou para parte incerta. E a elite dos comentadores, sempre pronta a virar na direcção do vento, tornou-se um reduto de Cassandras, qual delas mais agoirenta que as outras.

Somos um país pobre: a era das ilusões chegou ao fim.

 

Texto publicado inicialmente aqui

24 comentários em “Somos um país pobre”

  1. Bom dia, Pedro
    Obrigado pelo excelente texto… a realidade é incontornável e não há fantasia que resista ao poder da verdade…
    Um abraço.

  2. Mt bom. Apesar de eu achar que somos também pobres de espírito e que agimos como ricos sem o sermos – e aqui não falo só dos políticos, quer dizer, a mentalidade dos portugueses no geral é pobrinha…como tão bem ilustra, de resto, no seu primeiro parágrafo.

    1. É também um pouco isso. Esperemos que a crise pelo menos tenha um efeito benéfico, servindo-nos de lição a todos neste domínio: ninguém deve viver acima das suas posses, é insustentável consumir mais do que aquilo que se produz.

  3. Não somos só pobres na economia, somos pobres de espírito. A direita que domina todos os media, tudo tem feito para embrutecer este povo. Mas a direita esquece-se de um facto importante, Portugal vive em democracia há quase 40 anos, já não é o país dos 60% de analfabetos. Os Vampiros hoje podem ter uma grande surpresa.

    1. Direita?
      Ainda andam com essas desculpas na mente?
      Quando é que as pessoas deixam de ver em “monocromático”, com o desgastado discurso dos “bons” e os “maus”, ou “Direita” e “Esquerda”? A realidade é acima de tudo cinzenta e o actual estado de coisas é culpa dos governantes que temos tido, tanto de um lado como do outro. Mas os últimos, fizeram-nos o favor de espetar mais uns grandes pregos no caixão e que se saiba, não eram de direita.

      1. Sim! Mário Roque, direita. São como os portistas, não conheço nenhum que tenha vergonha na cara. Queres exemplos da tribo: Jardins, vários; Duartes, muitos; Isaltinos, alguns; cavacos e,também Belmiros e Amorins. Já para não falar do palhaço maior, que está agora a começar, o grande aldrabão passos. Que penso não vai longe.

          1. Pois, pode haver alguns, voçês que controlam os media todos bem se esforçam, e querem privatizar a RTP que também controlam, mas um dia podem vir a não controlar ( e Sócrates é que queria controlar tudo, aonde chega o embuste). Exemplos: Vara?! Felgueiras?! fez um saco azul e foi expulsa do partido, ou o Sócrates, porque é gay. Ah! o caso freeport, que provou que vocês não têm vergonha na cara, podes juntar a Casa Pia.

  4. Caro Pedro, gostei muito deste texto. Permita-me acrescentar outro dos principais logros das últimas décadas: a educação/formação. Ou a falta dela… Por muito que se mascare a realidade com números, a deriva educacional foi uma constante, infelizmente. Para mim, o programa Novas Oportunidades é o melhor exemplo desse logro e dessa mania para as grandezas estatísticas. Em suma: também temos uma sociedade pobre de espírito.

  5. “Somos um país pobre: a era das ilusões chegou ao fim.”

    a velha lá tinha razão, não há dinheiro para nada…há uns anos atrás e por essa altura passos reclava um TGV e um cluster…tanto tempo se perdeu

    1. Cala-te lá com a velha. A velha era uma hipócrita que falava do défice do estado e, depois, boicotava as medidas do governo para baixar a despesa, como o fecho de hospitais e escolas, e ainda ia às festas do jardim.

  6. Discordo liminarmente.

    Concordaria se tivesse dito que não somos tão ricos como andámos a fazer de conta que éramos. Mas é um insulto à grande maioria da humanidade dizermos que somos um país pobre. Somos um dos países menos ricos de um dos blocos mais ricos do mundo. Em muitos indicadores estamos até pelo meio da tabela, embora na maioria estejamos na cauda:do clube dos ricos.

    Para dizer que andámos a assobiar para o ar e a gastar parvamente o dinheiro que tínhamos e o que não tínhamos (bem acompanhados, mas isso são contas doutro rosário) não é preciso perder a noção das coisas.

    Daí que sempre que vejo choro e ranger de dentes sobre o nosso povo obrigado a emigrar em massa, eu penso: “Abençoados! Estão a precisar de mundo como do pão para a boca.”

    1. Cara Isabel: se admite que precisamos de mundo “como do pão para a boca”, isso só por si já é um sintoma de atraso, de pobreza. A verdade é que somos, de facto, um país pobre que andou demasiados anos a fazer-se passar por rico. Não temos riquezas naturais, temos uma fraquíssima capacidade produtiva. No início da década de 80, a nossa segunda maior fonte de receitas ainda eram as remessas dos emigrantes. Um país que importa dois terços do que come, por absoluta falta de capacidade de produção, está estruturamente condenado à pobreza. Por isso a nossa dívida pública já ultrapassa 100% do PIB. Durante demasiado tempo andaram a deitar-nos poeira para os olhos, tentando convencer-nos do contrário. E o pior é que quase todos nós acreditámos nisso.

      1. Percebo que interprete assim a minha frase e, até certo ponto aceito o “sintoma de atraso”. Mas estou muito mais de acordo com o diagnóstico de má gestão do que de pobreza.

        Porque para mim o grande, grande pecado dos nossos governantes (de há décadas, se não séculos a esta parte) é o terem sistematicamente descurado a educação. Por isso deposito alguma esperança nesta nova vaga de emigração: da mesma forma que há quem diga que a vaga de emigração dos anos 60 forçou a abertura de Portugal para o exterior e eventualmente a queda do regime (ou pelo menos muito contribuiu para isso), eu espero que estes novos emigrantes, mais bem preparados para interagir com as sociedades aonde chegam por saberem a língua e terem maior capacidade de abstracção (espera-se!), tragam novas do mundo “lá fora” que sejam sementes de mudança.

        Portugal tem imensos trunfos, que explora muito mal. Basta ler as caixas de comentários dos artigos sobre Portugal na imprensa estrangeira em que os estrangeiros que vivem em Portugal dizem sempre a mesma coisa (neste momento há vários no Guardian). Portugal não se sabe vender, os portugueses não conseguem conceber serem, eles ou o país, melhores que os outros, vivem tolhidos pelo medo do ridículo, do fracasso. Há dias em que penso que a nossa célebre burocracia tem simplesmente como papel impedir os cidadãos de correr riscos, fazer asneira e recomeçar de novo, cair num buraco e levantar-se: como uma mãe dos nossos dias, protectora e castradora.

        A falta dos recursos naturais, a pobreza dos nossos solos, são só alguns duques na nossa mão. Também temos figuras e trunfos, e um bom jogador (que os há neste momento na Europa embora nem sempre o tenham sido) sabe jogar com boas e más cartas. Nestes últimos tempos jogámos pessimamente, como se tivessemos boas cartas quando elas não eram grande coisa. E como todos os maus jogadores, culpamos as cartas pela abada monumental que estamos a levar.

        “Atraso” é para mim a falta de noção de como se vive nos ditos países ricos. Não sei a sua idade, mas imagino que anda na casa dos 40 e sei que é jornalista. Imaginando que assim é, quando foi última vez que pintou a sala da sua casa? Ou que comprou a sua máquina de lavar roupa na internet e a instalou sozinho? Ou fez uma mudança de casa com os amigos sem recorrer a uma empresa de mudanças? Não deve haver muitos belgas, franceses, ingleses da chamada classe média (jornalistas, professores, médicos) a quem passe pela cabeça não fazer qualquer destas coisas, pelo menos até que a idade comece a pesar-lhes. O desprezo pelo trabalho manual é um destes sinais de atraso, que não vem da pobreza mas da falta de educação. Das classes dominantes, digo eu.

        E “atraso” é também a cena a que assisti ontem: um jovem casal com um recém-nascido numa caixa de supermercado, com todo o aspecto de ganharem o ordenado mínimo (se é que isso se pode ver assim). Ela agarra num daqueles potes de iogurte com cornflakes por cima e diz “Se for bom, passo a levar isto para o lanche quando recomeçar a trabalhar, que sempre é mais saudável do que uma sanduíche”. E eu pensei mais tarde, comendo a minha sanduíche de ovo: deixámos que os grandes interesses tomassem conta da nossa realidade e não defendemos os que mais precisavam de ser defendidos, os ignorantes. Como dizia a outra: “knowledge is power, that’s why you don’t get any”. Mais uma vez, não somos os únicos e estamos muito bem acompanhados. Mas sem conhecimento e sem dinheiro estamos muito, mas muito mais vulneráveis.

        Mas não é uma fatalidade

        1. Eu sei que isto é um bocado ao lado da discussão, mas por acaso acabei de ver este vídeo, que exemplifica muito bem a dificuldade cultural que Portugal tem em se vender:

          http://aeiou.expresso.pt/internacionalizacao-das-pme-e-uma-necessidade-video=f680735

          Aprecie-me a forma quase envergonhada como estes três empresários falam dos seus êxitos nos mercados internacionais e ponha-se na pele de um americano a ouvi-los. Até posso ouvir a gargalhada do meu marido!

  7. Pedro, só quem tem andado muito distraido é que pode ficar surpreendido com o que se está a passar. Eu proprio, que modestamente sou um sinples cidadão/contribuinte deste país, aqui no Delito, no saudoso Albergue Espanhol, e noutros blogues que fazem o favor de publicar os meus comentários, ando a chamar a atenção para isto há anos. E não inventei nada, limitei-me a ouvir e a ler o que determinadas pessoas diziam e escreviam, para além da observação atenta do que se ia passando.
    Ernani Lopes uma das pessoas mais esclarecidas e competentes do pós 25/4, e que infelizmente já nos deixou, 3 ou 4 meses antes de morrer, explicou que Portugal tinha que fazer um ajustamento de pelo menos 30%, para poder sobreviver. Ninguem ligou, e agora os 30% aí estão. É só fazer as contas. Temos de voltar aos indices dos anos 80. Sendo este empobrecimento colectivo devastador para a generalidade dos portugueses, não há outro caminho. Infelizmente.

  8. Caro Pedro, permita-me discordar.
    Não somos somos uma país pobre, somos um país mal gerido. Drucker sempre nos mostrou que não há países subdesenvolvidos, há países subgeridos!
    Se gastámos mais do que tínhamos, se vivemos acima das nossas possibilidades, não foi porque fossemos pobres, mas porque não nos soubemos gerir, ou, melhor dizendo, governar.
    Durante as últimas décadas empobrecemos, é certo, permitimos que subsidiassem a destruição do nosso tecido tecido produtivo, o que só comprova a minha tese. Fomos incompetentes por vontade própria.

    1. Uma coisa conduz à outra, André. Um país mal gerido durante demasiado tempo torna-se um país pobre. Vivemos praticamente em estagnação económica desde 2001. De então para cá só a nossa dependência do exterior e o défice das nossas contas públicas aumentaram.

  9. O texto é bom excepto isto “se fechavam fábricas, se abandonavam os campos, se desmantelava a frota pesqueira, se encerravam minas e explorações pecuárias”

    As minas , a frota pesqueira, agricultura etc etc não valia nada ou estava esgotado. E também fechou porque havia maiores ordenados no Estado Social-Corporativo.

    Os comentários são uma desgraça especialmente de Joaquim Rato. Desde 1975 que os impostos têm subido inexorávelmente.
    Isso só tem uma palavra para ser designado: Socialismo.

    E não foi suficiente.
    Além dos Impostos sempre a aumentar.
    Dos subsídios Europeus – parece que ninguém recusa subsídios da malvada alemanha xenófoba –
    ainda foi preciso o Estado pedir emprestado todos os anos mais do que 20% do que gasta nos últimos anos.

    É a grande obra do socialismo.

    1. Se não éramos ricos quando tínhamos alguma capacidade produtiva, pior ficámos depois disso. Importamos, por exemplo, cerca de 60% do peixe que consumimos. Qualquer habitante do planeta acharia isto uma anormalidade, considerando a posição de Portugal no mapa.

    2. Luck , não é, deves ter os bolsos bem cheios, por isso, é que falas assim. Os teus amigos alemães andavam a dar dinheiro ao portas para comprar submarinos, quando défice era de 6%. O teu amigo jardim nem vale a pena falar. O teu amigo cavaco recebia dinheiro para desmantelar a agricultura e as pescas. E os teus amigos Belmiro e Amorim , põe o dinheiro lá fora para fugir aos impostos. Foi o socialismo que deu umas migalhas a alguns desgraçados e ciganos que destruiu o país. Deves ser grande cigano!!!

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