Sobre a Catalunha (4)


Pedro Correia,

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Deve ser sina dos historiadores: nenhum dos que tenho escutado diz coisas acertadas sobre a Catalunha.

Já mencionei aqui Rui Tavares e Fernando Rosas. Mas o historiador que mais dispara ao lado, na questão catalã, é José Pacheco Pereira. Como ficou patente faz hoje oito dias, no programa Circulatura do Quadrado, da TVI 24.

 

Nesta emissão surgiu à superfície o Pacheco militante no pior sentido do termo, em defesa acérrima do separatismo.

Um militante fervoroso, que procura a todo o momento moldar a realidade às suas teorias.

Um militante que não hesita em desconsiderar os seus oponentes, lançando-lhes anátemas morais (chamou “hipócrita” ao nosso Adolfo por advogar tese oposta à sua).

Um militante que propaga a lenda em vez de cuidar dos factos.

 

Transcrevo alguns exemplos. Com citações do biógrafo de Álvaro Cunhal nesse programa, acrescidas de breves comentários meus.

 

  • «A verdade é que os partidos independentistas ganharam as eleições [na Catalunha], mesmo as eleições organizadas no âmbito do Estado espanhol.»

Falso. As últimas eleições para o parlamento autonómico da Catalunha, realizadas em 2017, deram a vitória ao partido Cidadãos, abertamente antinacionalista e anti-independentista. E nas eleições legislativas de Abril de 2019 a soma das forças separatistas ficou abaixo dos 40%.

 

  • «A maioria dos cidadãos votaram [sic] em partidos que, no seu conjunto, eram a favor da independência.»

Falso. Até hoje, nenhum acto eleitoral realizado na Catalunha apurou um número de votantes pró-independência superior àqueles que querem manter a integração em Espanha.

 

  • «A Constituição espanhola foi construida em circunstâncias… é como se em Portugal ainda continuássemos a ter o pacto MFA-partidos, que é uma coisa completamente impensável nos dias de hoje.»

Raia a alucinação comparar a lei fundamental espanhola com o referido pacto, assinado no período revolucionário português, em 1975, e de características pré-constitucionais. Recordo que a Constituição vigente no país vizinho, dois anos mais recente do que a nossa, resultou de uma Assembleia Constituinte eleita em moldes irrepreensivelmente democráticos e foi sufragada a posteriori em referendo nacional que teve na Catalunha, precisamente, um dos apoios mais expressivos. A Constituição portuguesa de 1976, pelo contrário, nunca foi sujeita a referendo.

 

  • «Aqueles homens [os líderes separatistas, condenados em primeira instância pelo Supremo Tribunal espanhol] são presos políticos. Não adianta vir… nesse caso também se legitima o que acontece em Hong Kong porque em Hong Kong também há uma legislação e os que vão para a rua também são certamente desordeiros e insurreccionais.»

É extraordinário que o antigo líder parlamentar do PSD equipare um Estado de Direito democrático como o espanhol, onde vigora o primado da lei e a escrupulosa separação de poderes, com um regime ditatorial como o chinês. Talvez por alguma nostalgia do seu passado maoísta.

20 comentários em “Sobre a Catalunha (4)”

  1. “É extraordinário que o antigo líder parlamentar do PSD equipare um Estado de Direito democrático como o espanhol, onde vigora o primado da lei e a escrupulosa separação de poderes, com um regime ditatorial como o chinês. Talvez por alguma nostalgia do seu passado maoísta.”

    Equiparar situações não é o mesmo que equiparar estados. A política não é um Benfica-Sporting onde a nossa equipa tem sempre razão e a outra está sempre errada. É pena porque era muito mais fácil compreender o mundo. Se foi feito pelos chineses está errado, se foi feito pelos espanhóis está certo. Nem é preciso verificar o que foi feito.

    É extraordinária a quantidade de posts em que se tenta provar que há mais gente a querer a unificação do que a independência. Poupava-se muito trabalho contando-os num referendo.

    1. Poupava-se muito trabalho contando-os num referendo.

      Exatamente. Na Escócia contou-se, e ficou o problema resolvido. (Se fôr preciso volta-se a contar, logo veremos.) No Québec contou-se por duas vezes, e de ambas deu o mesmo resultado.
      Não tenho quaisquer dúvidas de que, se na Catalunha se fizesse um referendo honesto, a independência perderia. Bastava fazer um referendo, e este problema ficaria resolvido pelo menos por alguns anos. Enterrava-se a porcaria do problema de vez.

      1. Lá vem outra vez a Escócia. Estes separatistas rezam todos pela mesma cartilha condicionada…

        A Escócia foi um reino independente até ao século XVII e agregou-se livremente à Grã-Bretanha. Pode desligar-se pela mesma via, desde que corresponda à vontade maioritária dos escoceses.

        O que vocês reivindicam para a Catalunha, enquanto elogiam o Reino Unido, deviam reivindicar para a Irlanda do Norte.
        Houve ou há algum referendo aí?

        E em Hong Kong deve ou não haver um referendo?
        Houve algum antes da transferência dos poderes de Londres para Pequim?

        Eis novamente a geometria variável. O que vale para umas latitudes não vale para outras.

        1. O que se reivindica para a Catalunha é valido para a Escócia, para Hong Kong e para Alguidares de Baixo.
          Chama-se o direito dos povos a serem consultados acerca do seu destino.

          E é isso que está em causa agora. Se a Catalunha fica melhor independente ou espanhola são contas de outro Rosário. Um que Espanha tem manifestamente medo de rezar.

          1. Cada vez melhor. O outro, para justificar o separatismo catalão, queria a “independência” de Miranda do Douro, este quer a de Alguidares de Baixo.
            Não admira que andem a apanhar bonés.

          2. Quando não se sabe o que se responder, desconversa-se.

            Passa metade do tempo a escrever que o referendo é ilegal e por isso não se pode fazer, e a outra metade a explicar o que os catalães votariam se houvesse referendo. É um bocado estranho.

          3. A sua tentativa de se colar a Pacheco Pereira é tão grande que só falta comparar também a Constituição espanhola ao “pacto MFA/partidos”.
            Vá lá, só mais um esforço.

  2. É extraordinário que o antigo líder parlamentar do PSD equipare um Estado de Direito democrático como o espanhol, onde vigora o primado da lei e a escrupulosa separação de poderes, com um regime ditatorial como o chinês.

    O Pedro Correia segue a interpretação, hoje em dia usual, de que o direito à autodeterminação dos povos não se aplica no interior de Estados democráticos. Ou seja, esse direito pode ser utilizado pelos Estados democráticos para lutar contra, e pulverizar, Estados não-democráticos, mas dentro dos próprios Estados democráticos ele não pode ser utilizado.

    Ou seja, deixa de ser um direito dos povos para passar a ser apenas uma arma que uns Estados utilizam contra outros.

  3. Esta tua série tem muito mérito, Pedro. Com rigor, vais aos argumentos e factos essenciais sem necessitar de muitas palavras. De mestre.

    Quanto ao resto, apenas lamento a gritante desonestidade intelectual de gente que é paga para exprimir a sua opinião em público. As opiniões são livres e nenhuma – nenhuma mesmo – deve ser limitada. Mas a liberdade absoluta de opinião não deve equivaler ao direito de inventar factos ou de truncar a realidade.

    1. Obrigado, Diogo. Gostaria de ver JPP, usando a lógica que emprega na análise (errónea) da situação catalã, defender a autodeterminação de Hong Kong, um referendo soberanista em Hong Kong, a introdução de um sistema democrático em Hong Kong. Gostaria que não invocasse apenas Hong Kong para comparações espúrias com a Catalunha mas para defender a causa da liberdade e da democracia e dos direitos humanos em Hong Kong contra o sistema ditatorial chinês.
      Mas vou esperar sentado.

  4. Caro Pedro, mesmo considerando o PSC e ComuPodemos como partidos não adeptos da independência, coisa que será muito duvidosa, são todavia partidos manifestamente abertos ao referendo (No parlamento da Catalunha os independentistas declarados, ERC, JTX e CUP têm a maioria). Queda-se, desse modo, o soberanismo unitário reduzido ao Ciudadanos e aos resquícios do PP da Catalunha! (O que aconteceu ao PP, à medida que, nestes 40 anos, ia expandindo, quando Governo ou oposição, as concessões aos autonomistas (independentistas) e subvencionando com recursos de toda a Espanha a expansão dos privilégios das autonomias Basca e Catalã, esperando talvez algum reconhecimento, mais desaparecia o PP como partido nacional nessas regiões. O mesmo acabará por suceder em Valencia e na Galiza (Na Galiza o PP acredita que pode evitar os independentistas sendo a vanguarda do independentismo. Tonto.))
    Será o único ponto em que o JPP se aproxima da verdade, por acaso ou por acidente, creio eu!
    A questão é bastante mais complexa do que os pontos que JPP elenca, mas a preguiça também não dá para mais!! JPP reduzido a si mesmo, um ardina num reduto histérico!! Enrola três ou quatro pontos e faz spin!! Ainda que desmentido, e sem contestar, repete a farsa.
    Esta gente já só vive na televisão e para a televisão!

    1. Desculpe, mas não é assim. Os partidos separatistas são a ERC, a ex-Convergência (que já mudou quatro vezes de nome) e a CUP.
      Estes partidos não chegaram a somar 40% nas eleições de Abril.
      Mesmo estes três convergem apenas na independência. Em tudo o resto não somam, só subtraem, pois vão da extrema-esquerda à direita conservadora.

      1. Eu disse, caro Pedro, “(No parlamento da Catalunha os independentistas declarados, ERC, JTX e CUP têm a maioria)”. Ali, no Parlament, como é parlança actual. Note que o JTX ali signifa JXCat, Juntx como dizia o Puigdemont!!
        É um aparte de rigor e que significa que, no Parlament os independentistas são a maioria da câmara. Nas legislativas há votos independentistas moderados que interpretam o PSOE ou o Podemos como a melhor hipótese de solução ou compromisso para o referendo.

        Sim, nós sabemos o que significa a direita soberanista catalã, e a tal convergência, quando se vê destituída do seu património pela colectivização da esquerra, tornam-se os mais espanholistas dos espanhóis e os mais Franquistas de Espanha (O mesmo diga-se para a mesma convergência tácita basca, entre o PNV e a esquerda basca)!

        Quanto ao ardina do JPP, coincidimos!!

      2. Mais precisamente, caro Pedro Correia, o Parlament da Catalunya (como é parlança actual, até pelos jornalistas lusos) divide-se, do lado independentista, com os seguintes representantes:
        JXCat – 34 deputados
        ERC – 32 deputados
        CUP – 4 deputados
        Total (independentistas declarados) – 70 deputados
        Total do Parlament – 135 deputados

        1. Não faz qualquer sentido somar a esquerda, a extrema-esquerda e a direita como se fossem uma só entidade política. E a “independência” não se justifica com cadeiras: só com votos.
          Nunca os separatistas, mesmo somados, conseguiram até hoje mais votios em eleição alguma na Catalunha. Como JPP bem sabe, embora faça de conta que não.

  5. Raul del Pozo : “Si esto sigue asi, los fusiles de los coches de los politicos dejarán de ser atrezo”.
    Alguém que está no “ruedo” e não a ver “los toros de la barrera”…
    Como dizia o outro, ” No es teatralidad, aqui se muere de verdad”.
    Aos milhares, tendência histórica…

    JSP

  6. é como se em Portugal ainda continuássemos a ter o pacto MFA-partidos, que é uma coisa completamente impensável nos dias de hoje.»

    Deixa ver se percebi: o Pacto MFA-Partidos teve origem num referendo? Devo andar iludido até aqui.
    Ou então Pacheco Pereira acha muito bem que a actual CRP deva ser revista ou substituída. É aliás um mistério para mim ver que tantos que vituperam a constituição espanhola defendem acerrimamente a portuguesa de qualquer alteração.

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