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Deve ser sina dos historiadores: nenhum dos que tenho escutado diz coisas acertadas sobre a Catalunha.
Já mencionei aqui Rui Tavares e Fernando Rosas. Mas o historiador que mais dispara ao lado, na questão catalã, é José Pacheco Pereira. Como ficou patente faz hoje oito dias, no programa Circulatura do Quadrado, da TVI 24.
Nesta emissão surgiu à superfície o Pacheco militante no pior sentido do termo, em defesa acérrima do separatismo.
Um militante fervoroso, que procura a todo o momento moldar a realidade às suas teorias.
Um militante que não hesita em desconsiderar os seus oponentes, lançando-lhes anátemas morais (chamou “hipócrita” ao nosso Adolfo por advogar tese oposta à sua).
Um militante que propaga a lenda em vez de cuidar dos factos.
Transcrevo alguns exemplos. Com citações do biógrafo de Álvaro Cunhal nesse programa, acrescidas de breves comentários meus.
- «A verdade é que os partidos independentistas ganharam as eleições [na Catalunha], mesmo as eleições organizadas no âmbito do Estado espanhol.»
Falso. As últimas eleições para o parlamento autonómico da Catalunha, realizadas em 2017, deram a vitória ao partido Cidadãos, abertamente antinacionalista e anti-independentista. E nas eleições legislativas de Abril de 2019 a soma das forças separatistas ficou abaixo dos 40%.
- «A maioria dos cidadãos votaram [sic] em partidos que, no seu conjunto, eram a favor da independência.»
Falso. Até hoje, nenhum acto eleitoral realizado na Catalunha apurou um número de votantes pró-independência superior àqueles que querem manter a integração em Espanha.
- «A Constituição espanhola foi construida em circunstâncias… é como se em Portugal ainda continuássemos a ter o pacto MFA-partidos, que é uma coisa completamente impensável nos dias de hoje.»
Raia a alucinação comparar a lei fundamental espanhola com o referido pacto, assinado no período revolucionário português, em 1975, e de características pré-constitucionais. Recordo que a Constituição vigente no país vizinho, dois anos mais recente do que a nossa, resultou de uma Assembleia Constituinte eleita em moldes irrepreensivelmente democráticos e foi sufragada a posteriori em referendo nacional que teve na Catalunha, precisamente, um dos apoios mais expressivos. A Constituição portuguesa de 1976, pelo contrário, nunca foi sujeita a referendo.
- «Aqueles homens [os líderes separatistas, condenados em primeira instância pelo Supremo Tribunal espanhol] são presos políticos. Não adianta vir… nesse caso também se legitima o que acontece em Hong Kong porque em Hong Kong também há uma legislação e os que vão para a rua também são certamente desordeiros e insurreccionais.»
É extraordinário que o antigo líder parlamentar do PSD equipare um Estado de Direito democrático como o espanhol, onde vigora o primado da lei e a escrupulosa separação de poderes, com um regime ditatorial como o chinês. Talvez por alguma nostalgia do seu passado maoísta.

“É extraordinário que o antigo líder parlamentar do PSD equipare um Estado de Direito democrático como o espanhol, onde vigora o primado da lei e a escrupulosa separação de poderes, com um regime ditatorial como o chinês. Talvez por alguma nostalgia do seu passado maoísta.”
Equiparar situações não é o mesmo que equiparar estados. A política não é um Benfica-Sporting onde a nossa equipa tem sempre razão e a outra está sempre errada. É pena porque era muito mais fácil compreender o mundo. Se foi feito pelos chineses está errado, se foi feito pelos espanhóis está certo. Nem é preciso verificar o que foi feito.
É extraordinária a quantidade de posts em que se tenta provar que há mais gente a querer a unificação do que a independência. Poupava-se muito trabalho contando-os num referendo.
Poupava-se muito trabalho contando-os num referendo.
Exatamente. Na Escócia contou-se, e ficou o problema resolvido. (Se fôr preciso volta-se a contar, logo veremos.) No Québec contou-se por duas vezes, e de ambas deu o mesmo resultado.
Não tenho quaisquer dúvidas de que, se na Catalunha se fizesse um referendo honesto, a independência perderia. Bastava fazer um referendo, e este problema ficaria resolvido pelo menos por alguns anos. Enterrava-se a porcaria do problema de vez.
Lá vem outra vez a Escócia. Estes separatistas rezam todos pela mesma cartilha condicionada…
A Escócia foi um reino independente até ao século XVII e agregou-se livremente à Grã-Bretanha. Pode desligar-se pela mesma via, desde que corresponda à vontade maioritária dos escoceses.
O que vocês reivindicam para a Catalunha, enquanto elogiam o Reino Unido, deviam reivindicar para a Irlanda do Norte.
Houve ou há algum referendo aí?
E em Hong Kong deve ou não haver um referendo?
Houve algum antes da transferência dos poderes de Londres para Pequim?
Eis novamente a geometria variável. O que vale para umas latitudes não vale para outras.
O que se reivindica para a Catalunha é valido para a Escócia, para Hong Kong e para Alguidares de Baixo.
Chama-se o direito dos povos a serem consultados acerca do seu destino.
E é isso que está em causa agora. Se a Catalunha fica melhor independente ou espanhola são contas de outro Rosário. Um que Espanha tem manifestamente medo de rezar.
Cada vez melhor. O outro, para justificar o separatismo catalão, queria a “independência” de Miranda do Douro, este quer a de Alguidares de Baixo.
Não admira que andem a apanhar bonés.
Quando não se sabe o que se responder, desconversa-se.
Passa metade do tempo a escrever que o referendo é ilegal e por isso não se pode fazer, e a outra metade a explicar o que os catalães votariam se houvesse referendo. É um bocado estranho.
A sua tentativa de se colar a Pacheco Pereira é tão grande que só falta comparar também a Constituição espanhola ao “pacto MFA/partidos”.
Vá lá, só mais um esforço.
É extraordinário que o antigo líder parlamentar do PSD equipare um Estado de Direito democrático como o espanhol, onde vigora o primado da lei e a escrupulosa separação de poderes, com um regime ditatorial como o chinês.
O Pedro Correia segue a interpretação, hoje em dia usual, de que o direito à autodeterminação dos povos não se aplica no interior de Estados democráticos. Ou seja, esse direito pode ser utilizado pelos Estados democráticos para lutar contra, e pulverizar, Estados não-democráticos, mas dentro dos próprios Estados democráticos ele não pode ser utilizado.
Ou seja, deixa de ser um direito dos povos para passar a ser apenas uma arma que uns Estados utilizam contra outros.
Esta tua série tem muito mérito, Pedro. Com rigor, vais aos argumentos e factos essenciais sem necessitar de muitas palavras. De mestre.
Quanto ao resto, apenas lamento a gritante desonestidade intelectual de gente que é paga para exprimir a sua opinião em público. As opiniões são livres e nenhuma – nenhuma mesmo – deve ser limitada. Mas a liberdade absoluta de opinião não deve equivaler ao direito de inventar factos ou de truncar a realidade.
Obrigado, Diogo. Gostaria de ver JPP, usando a lógica que emprega na análise (errónea) da situação catalã, defender a autodeterminação de Hong Kong, um referendo soberanista em Hong Kong, a introdução de um sistema democrático em Hong Kong. Gostaria que não invocasse apenas Hong Kong para comparações espúrias com a Catalunha mas para defender a causa da liberdade e da democracia e dos direitos humanos em Hong Kong contra o sistema ditatorial chinês.
Mas vou esperar sentado.
Caro Pedro, mesmo considerando o PSC e ComuPodemos como partidos não adeptos da independência, coisa que será muito duvidosa, são todavia partidos manifestamente abertos ao referendo (No parlamento da Catalunha os independentistas declarados, ERC, JTX e CUP têm a maioria). Queda-se, desse modo, o soberanismo unitário reduzido ao Ciudadanos e aos resquícios do PP da Catalunha! (O que aconteceu ao PP, à medida que, nestes 40 anos, ia expandindo, quando Governo ou oposição, as concessões aos autonomistas (independentistas) e subvencionando com recursos de toda a Espanha a expansão dos privilégios das autonomias Basca e Catalã, esperando talvez algum reconhecimento, mais desaparecia o PP como partido nacional nessas regiões. O mesmo acabará por suceder em Valencia e na Galiza (Na Galiza o PP acredita que pode evitar os independentistas sendo a vanguarda do independentismo. Tonto.))
Será o único ponto em que o JPP se aproxima da verdade, por acaso ou por acidente, creio eu!
A questão é bastante mais complexa do que os pontos que JPP elenca, mas a preguiça também não dá para mais!! JPP reduzido a si mesmo, um ardina num reduto histérico!! Enrola três ou quatro pontos e faz spin!! Ainda que desmentido, e sem contestar, repete a farsa.
Esta gente já só vive na televisão e para a televisão!
Desculpe, mas não é assim. Os partidos separatistas são a ERC, a ex-Convergência (que já mudou quatro vezes de nome) e a CUP.
Estes partidos não chegaram a somar 40% nas eleições de Abril.
Mesmo estes três convergem apenas na independência. Em tudo o resto não somam, só subtraem, pois vão da extrema-esquerda à direita conservadora.
Eu disse, caro Pedro, “(No parlamento da Catalunha os independentistas declarados, ERC, JTX e CUP têm a maioria)”. Ali, no Parlament, como é parlança actual. Note que o JTX ali signifa JXCat, Juntx como dizia o Puigdemont!!
É um aparte de rigor e que significa que, no Parlament os independentistas são a maioria da câmara. Nas legislativas há votos independentistas moderados que interpretam o PSOE ou o Podemos como a melhor hipótese de solução ou compromisso para o referendo.
Sim, nós sabemos o que significa a direita soberanista catalã, e a tal convergência, quando se vê destituída do seu património pela colectivização da esquerra, tornam-se os mais espanholistas dos espanhóis e os mais Franquistas de Espanha (O mesmo diga-se para a mesma convergência tácita basca, entre o PNV e a esquerda basca)!
Quanto ao ardina do JPP, coincidimos!!
Mais precisamente, caro Pedro Correia, o Parlament da Catalunya (como é parlança actual, até pelos jornalistas lusos) divide-se, do lado independentista, com os seguintes representantes:
JXCat – 34 deputados
ERC – 32 deputados
CUP – 4 deputados
Total (independentistas declarados) – 70 deputados
Total do Parlament – 135 deputados
Não faz qualquer sentido somar a esquerda, a extrema-esquerda e a direita como se fossem uma só entidade política. E a “independência” não se justifica com cadeiras: só com votos.
Nunca os separatistas, mesmo somados, conseguiram até hoje mais votios em eleição alguma na Catalunha. Como JPP bem sabe, embora faça de conta que não.
Raul del Pozo : “Si esto sigue asi, los fusiles de los coches de los politicos dejarán de ser atrezo”.
Alguém que está no “ruedo” e não a ver “los toros de la barrera”…
Como dizia o outro, ” No es teatralidad, aqui se muere de verdad”.
Aos milhares, tendência histórica…
JSP
Esse bem sabe. Ao contrário dos cúmplices dos separatistas, entrincheirados no ‘burladero’ lusitano.
é como se em Portugal ainda continuássemos a ter o pacto MFA-partidos, que é uma coisa completamente impensável nos dias de hoje.»
é como se em Portugal ainda continuássemos a ter o pacto MFA-partidos, que é uma coisa completamente impensável nos dias de hoje.»
Deixa ver se percebi: o Pacto MFA-Partidos teve origem num referendo? Devo andar iludido até aqui.
Ou então Pacheco Pereira acha muito bem que a actual CRP deva ser revista ou substituída. É aliás um mistério para mim ver que tantos que vituperam a constituição espanhola defendem acerrimamente a portuguesa de qualquer alteração.
Deve ser isso, João Pedro. Ou o seu contrário, já nem sei.