![226673608.jpg.gallery[1].jpg 226673608.jpg.gallery[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2019/21588414_dQQA1.jpeg)
I
Os historiadores, pelo que vejo e oiço, adoram propagar mitos. Depois de Rui Tavares, chegou a vez de Fernando Rosas declarar alto e bom som: «A Catalunha é uma nação mais antiga do que a própria nação portuguesa e não foi independente para nós sermos.» Aconteceu no programa Prova dos 9, sexta-feira passada, na TVI 24.
Não basta a estes defensores do separatismo, movidos pelo ódio visceral a Espanha, propagarem a cartilha que ameaça pulverizar o continente europeu – começando pela Península Ibérica – em mosaicos identitários, reeditando as pulsões nacionalistas que originaram guerras durante séculos por todo o continente. Dão um passo extra, usando o patriotismo alheio para denegrir o nosso. É lastimável escutar um historiador que sabe do seu ofício, como Rosas, culpabilizar os conjurados do 1.º de Dezembro pelo facto de a Catalunha nunca ter sido um Estado soberano – como se a História fosse um contínuo passa-culpas, neste caso aliás sem o menor fundamento, como já esclareci aqui.
Amesquinhar Portugal para enaltecer a Catalunha, considerando que esta «é mais antiga do que a própria nação portuguesa», à revelia das evidências históricas, é confrangedor. Tal como a aparente indiferença de Rosas ao caos e à destruição que incendiaram nos últimos dias a capital catalã. Confrontado em directo com imagens da intolerável violência que se desenrolava no centro de Barcelona, o co-fundador do Bloco de Esquerda sentenciou, fazendo coro com a ala mais radical do separatismo: «A violência é a sentença dos tribunais do Estado espanhol. (…) Esta violência origina reacção.»
II
Acontece que Espanha é um Estado de Direito democrático.
Acontece que, como em qualquer Estado de Direito, vigora ali uma rigorosa separação de poderes: o poder judicial decide com plena autonomia de critério, assegurando o cumprimento da lei.
Acontece que a sentença que condenou a penas de prisão alguns dirigentes separatistas foi ditada pelo Supremo Tribunal, em veredicto unânime.
Acontece que vários magistrados do Supremo são membros de uma associação denominada Juízas e Juízes para a Democracia, que integra diversos parceiros ideológicos de Fernando Rosas.
Acontece que esta sentença, como é próprio também da Europa democrática, não transitou ainda em julgado: será alvo de recursos, já anunciados, para o Tribunal Constitucional e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
III
Reclama o ilustre historiador pelo «direito à autodeterminação», como se este não vigorasse já na Catalunha – autonomia dotada de mais poderes do que a esmagadora maioria dos Estados federados na União Europeia. Tem órgãos próprios em matéria política, judicial, policial, tributária, sanitária, educativa, linguística, cultural e desportiva.
Não existe democracia sem o império da lei. Neste caso, o conjunto do Estado espanhol – Catalunha incluída – rege-se pela Constituição de 1978 que, ao contrário da lei fundamental portuguesa, foi validada em referendo, tendo recebido 95% de aprovação dos eleitores catalães (a segunda maior percentagem a nível nacional). Rege-se ainda pelo Estatuto Autónomico de 2006, aprovado no Parlamento catalão e nas Cortes espanholas – e também validado por referendo, nesse ano, tendo recebido 73,9% de votos favoráveis.
IV
Eis o quadro jurídico-constitucional da questão catalã, que Rosas enxota para canto com esta frase extraordinária: «Não me venham com a teoria de que é inconstitucional. Se é inconstitucional, é a Constituição que está mal.»
Nem parece membro do mesmo partido que, por cá, recorreu ao Tribunal Constitucional para travar medidas do Executivo Passos Coelho. Invocando a inconstitucionalidade dessas medidas e utilizando tal argumento no combate político.
Segundo tão inusitada lógica, a autoridade constitucional só se torna irrefutável quando dá jeito. Eis a política de geometria variável em todo o seu esplendor.

Fernando Rosas e Rui Tavares… Não diga mais nada! Ainda falam do André Ventura.
O Ventura também é historiador?
Não, mas acho que quer mudar o rumo da história :-))))
Por vezes dou comigo a pensar que os ódios são tantos, talvez porque a diferença entre uns e outros é ténue… Só que os indivíduos como André Ventura são mais desbocados, já outros, são mais protegidos pelo sistema e são “intelectualmente superiores”.
a cartilha que ameaça pulverizar o continente europeu – começando pela Península Ibérica
Não começa pela Península Ibérica. A pulverização começou (enfim, em tempos mais recentes) pela União Soviética. Prosseguiu na Jugoslávia. E na Checoslováquia.
Em todos esses casos, a pulverização foi muito saudada e aplaudida pelos poderes “ocidentais”. Com a rara exceção recente do Kosovo, a pulverização da Lituânia, da Geórgia, da Moldávia, da Eslováquia, da Croácia, etc foram todas muito aplaudidas.
Belo candidato a Lavourada da Semana, ou como fazer uma sopa para impedir qualquer discussão medianamente útil sobre um tema
Típico: nada de novo.
Começando por confundir democracias com ditaduras.
Portanto, o Pedro acha que é legítimo pulverizar ditaduras em mini-países, mas não é legítimo pulverizar democracias. É isso?
Eu não confundo democracias com ditaduras. Você não faz outra coisa: mete tudo no mesmo saco. URSS, Jugoslávia comunista e Espanha – tudo igual.
Parabéns: está ao nível do professor Rosas. Já pode dar aulas de História. E de Ciência Política também.
Que saudades deve ter o Pedro do “Mundo de Ontem” de Stefan Zweig, em que os impérios Austro-Húngaro e Russo não estavam ainda pulverizados.
Belíssimo livro. Recomendo sempre a leitura dessa obra.
Belíssimo. Mas na substância condenado sem apelo pelo index lavoural. E extenso, muito extenso; um calhamaço pelos superiores critérios agrícolas, há algum tempo por aqui apresentados (e que desqualificam liminarmente Eça, por exemplo. Suponho aliás que foram apresentados, para nossa preciosa ilustração, precisamente a propósito d’Os Maias, esse insuportável colosso de tédio).
Em todo o caso a recente edição está muito moderna e devidamente mutilada pelo acordês. Valha isso, Lavoura, nem tudo estará perdido. Para si.
Costa
Privilégio meu: tenho duas edições em pré-acordês. Sem mutilação de consoantes.
Obra-prima absoluta.
Pelo favor de mão amiga, invejavelmente rotinada em percursos alfarrabistas, também eu já tenho uma assim. Outra, aquela pela qual conheci essa obra inesquecível (pois só recentemente assim foi), tenho-a em língua inglesa. Não por pedantismo, creia; mas por minha recusa dessa mistela ortográfica.
Há um antes e um depois. Como nessa insuportavelmente longa “arenga” queirosiana (abençoada).
Costa
Essa excepcional memória de Zweig conduziu-me a este belíssimo romance de Joseph Roth – com o qual forma uma parceria inseparável. randes-romances-19-6641745
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/g
Recomendo vivamente.
A Catalunha é uma nação mais antiga do que a própria nação portuguesa
Enquanto não se definir o que se entende por “nação”, não se pode aferir da validade desta afirmação.
Se nos referimos à língua própria, então as indicações são no sentido de que a língua catalã e a língua portuguesa já eram ambas línguas mais ou menos bem identificadas no século 11.
Ou seja, nenhuma das nações é comprovadamente mais antiga do que a outra, pelo critério linguístico.
“Ter língua própria” é critério de “nação”? Que maravilha, estamos sempre a aprender com estes cultíssimos leitores.
Acabo de concluir que Miranda do Douro é uma nação.
Caro Lavoura,
Quase sempre, as minhas intervenções em resposta a comentários seus são “desconcordantes”.
Hoje não.
Século 11.
Uma homenagem subtil ao grande Jordão que imortalizou o número 11 no Sporting Clube de Portugal.
Poderia ter escrito: séc. XI como toda a gente, mas não, como dizia Paulo Portas, uma coisa é a agricultura, outra é o Lavoura.
Bem haja pela homenagem, singela mas presumo que sentida.
Há poucas semanas visitei o castelo de Gediminas, na capital da Lituânia. Estão lá expostas fotografias do cordão humano que, num dia de agosto de 1989, uniu, ao longo de centenas de quilómetros, a capital da Lituânia à capital da Estónia, passando pela Letónia, a pedir a independência desses três países. Foi uma manifestação deveras impressionante da vontade desses três povos muito pequenos (os três países bálticos juntos têm menos população que a Catalunha) de serem independentes.
Os três países bálticos foram independentes entre as duas guerras mundiais. Em 1940 foram invadidos e anexados por Estaline – uma agressão à revelia do direito internacional. Meio século depois recuperaram a soberania, libertando-se do totalitarismo soviético. Como era de elementar justiça, sob o aplauso unânime da comunidade internacional.
O Pedro acha que esses três países, por terem sido independentes durante 20 anos entre as duas guerras, adquiriram o direito a ser independentes agora e no futuro. Curioso argumento.
Deixa no entanto por saber como adquiriram muitos outros países (Geórgia, Eslovénia, Macedónia, Ucrânia, …) o direito a serem independentes, eles que nunca o tinham sido no passado.
Eu não acho nem deixo de achar.
Os detectives é que acham. Quando são competentes.
20 anos? A Lituânia foi um país independente antes de muitos outros o serem (muito antes de existir “Espanha”, pelo menos), desde o séc. 13 até pelo menos ao séc. 17 quando o Grão-Ducado estabelece uma confederação com o reino da Polónia — e estes dois estados unificados só são absorvidos império russo no séc. 18.
Refiro-me, naturalmente, ao período do século XX anterior à criminosa invasão soviética. Os três Estados bálticos eram soberanos, reconhecidos como tal pela comunidade internacional e membros de pleno direito da Sociedade das Nações.
Não. Esse Grão-Ducado (do século 13) era na verdade um império – incluía a Polónia e a Ucrânia. A Lituânia não era, dentro dele, nada – era apenas uma parte indistinta do grão-ducado. Era como o império de Carlos Magno, que não era França nem Alemanha nem Bélgica.
Nesse tempo não havia Estados-Nações. Havia apenas senhores feudais que tinham os seus territórios.
Bom dia Pedro Correia
Concordo com a maioria do que tem escrito sobre isto.
Para lá de tudo o mais, e baseando-me em quem conheço e vive em Barcelona e lá trabalha há vários anos, esses que designa por ilustres (!?!?) não estão nada interessados com um facto habitual nestas coisas, e que é, a desproporção entre o tempo dedicado nas TV às imagens das violências organizadas comparativamente com o tempo para as imagens das manifestações pacíficas incluindo em várias ruas de Barcelona, como nada estão preocupados em saber-se quem financia certas coisas e certos retiros estratégicos.
António Cabral
Sim, caro António, há uma discrepância brutal entre a cobertura jornalística destes eventos.
O que são mais violentos e sangrentos acabam sempre por ter mais cobertura. Os extremistas agradecem.
Meus caros, infelizmente tenho o privilégio de assistir ao vivo a toda esta farsa, que tem vindo a crescer à mais de 20 anos. À 23 anos atrás visitava Barcelona e a bandeira de Espanha era empunhada em todos os edifícios públicos, andar na rua com a camisola da seleção espanhola era natural. Aos poucos as coisas mudaram e estas mudanças começaram nas escolas, com professores incapazes de exercer a imparcialidade das suas convicções, os fernados rosas da educação catalã ganharam número e liberdade para exercerem a sua influência sem que ninguém colocasse limites. Aos poucos aqueles jovens facilmente influenciáveis com idéias que obviamente os seduziam, chegaram à idade do voto. E é tão fácil iludir adolescentes, temos no nosso país um claro exemplo disso… a festa do avante… um local que já frequentei em jovem, onde podia fumar uns charros sem receio que a polícia aparecesse, porque nunca aparecesse na festa do avante, onde podia dar largas à língua afiada e falar mal de quem quer que fosse, excepto dos comunas. Isso é extremamente apetecível para um adolescente… alguns ganham juízo, outros querem ser adolescentes para sempre. Por isso, na Catalunha foi fácil, diaboliza-se o rei, vitimaza-se os catalães e pronto… cria-se isto.
Os políticos independentistas preparam isto à vários anos e têm o seu mérito, porque o plano está a florescer. Começou nas escolas, passou para a comunicação social, depois as polícias. Colocaram-se pessoas nos lugares chave e aproveita-se a instabilidade política do país para fazerem coligações que coloca quem chega ao poder refém. Pedro Sanchez é um exemplo disso, refém da mão que alguns partidos de esquerda lhe deram, teima em não acionar o art 155 da constituição e retirar sem mais demoras quim torra do exercício batoteiro e irresponsável de governação. É que em Espanha quando se faz uma coligação é para cumprir. Já aqui, fazem-se geringonças sem se respeitar as idéias fundamentais dos partidos. Um BE que trai as suas convicções apenas para impedir o psd de governar e aceita concordar com decisões contrárias aos seus ideiais, seria inadmissivel em Espanha, pois os seus apoiantes iriam pedir contas. Portanto, o que se passa na Catalunha é algo que eu, à 15 anos atrás já previa… e ninguém fez nada…
Também o casamento tem uma constituição.
Logo o divórcio é impossível.
Seja qual for o grau de violência doméstica.
Há que comer e calar.
O respeitinho continua a ser muito bonito.
A não ser que as coisas se passem lá para os lados das rússas ou das chinas!…
João de Brito
A China é uma ditadura. E a Rússia também.
O separatismo é sempre revolucionário, seja de esquerda, seja de direita.
Têm pó a tudo o que é Nação porque preferem o fascismo em micro-escala regional.
Quanto pior melhor. E depois preferem os Impérios- (UE- leia-se) para a moedinha.
Era eu, Zazie
Ora viva.
Um pequeníssimo figurante ( o mercado aqui é reduzido…) no grande “remake” , com honras de “cast” internacional , “Catalunha Independente”.
Um licenciado em História, transmutado em “activista”, como se diz nos nossos dias , que prostitui o diploma.
Em português corrente, e para quem tem um conhecimento mínimo da História da Península Ibérica, um vigarista – e um vigarista incompetente… mas com tempo de antena…
JSP
Um(as) Rosas que escrevem ‘perca’ por ‘perda’, 3 vezes no mesmo texto, tem que ser uma cavalgadura.
“Juizas e juizes para a Democracia”
Isto é uma ofensa aos que ficam de fora como os magistrados LGBT e os dos restantes sexos.
Não seria melhor Juíz@s?
É perguntar ao professor Rosas, que não gosta deles. Apesar de alguns serem próximos do Podemos, o BE espanhol.
Mas à cautela escreva professor Ros@s. É mais prudente. Ele há tanto sexo.
Sexos há dois, que eu saiba. E “géneros” tem, por exemplo (e como pude ler, há dias, em oportuna nota que desgraçadamente já não saberei localizar), e abundantes, a literatura. Nós, fatalmente e salvo fenómenos devidamente identificados pela ciência, somos machos ou fêmeas. O que depois fazemos com isso é que será com cada um. Ou uma.
Eu bem sei que há umas boas décadas atrás, até a biologia tinha ideologia. E evidentemente que a havia “socialista”. A pretexto de umas geniais ideias de produção agrícola, parece. E deu no que deu. Parece que a Mãe Natureza demonstrou ser profunda e irrecuperavelmente reaccionária.
Costa
“Não me venham com a teoria de que é inconstitucional. Se é inconstitucional, é a Constituição que está mal.”
Óbvio. qualquer constituição que não permita a secessão é ilegítima. Isso incluirá também uma futura constituição Catalã.
Algo que Rosas já não aceitaria, como não aceitaria em Cuba que uma província se declarasse independente.
lucklucky
Gostaria de ver o prof. Rosas aplicar a sua própria tese a Hong Kong, saudando a independência do território face a Pequim.
A Espanha não vai permitir que aconteça aos catalães, o mesmo que aconteceu aos lesados do BES…
https://construtiva-mente.blogs.sapo.pt/
Pois não.
Pela nossa saúde.
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Votos de sucesso.