Sintomas duma sociedade doente


Pedro Correia,

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«Crescemos em muitos aspectos, mas somos analfabetos ao acompanharmos, cuidarmos e sustentarmos os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem em cima.»

 

«Ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade doente, que procura construir-se virando as costas ao sofrimento.»

 

«A parábola do Bom Samaritano mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, combatem situações de exclusão e tudo fazem para que o bem se torne comum.»

 

Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti

23 comentários em “Sintomas duma sociedade doente”

  1. Só me faltava ouvir esta:
    “Objetivo do governo é manter o SNS com capacidade até ao Natal”.
    Vá lá, só mais um pequeno empurrão até ao Ano Novo.

    1. É ficar em casa mês e meio para se poder ir passear no Natal.
      Aguenta, aguenta, já dizia o outro.

      PS: é claro que o SNS está a rebentar devido à covid, mas quem aterre em Portugal hoje fica com a ideia de que o adiamento de consultas e cirurgias é um fenómeno com um ano.

      1. A rebentar pelas costuras? Será mesmo assim?
        Segundo um médico que não faz parte da equipa dos catastróficos, os cuidados intensivos estão repletos de doentes que não têm motivos para lá estar.
        Parece que muitos dos hospitalizados só estão hospitalizados porque não têm condições de fazer o isolamento nas suas residências e são colocados nos CI para estarem melhor monitorizados.
        Também segundo ele, este catastrofismo convém a uma classe médica que já antevê contrapartidas futuras, fruto do alarmismo, daí passarem este alarido todo.

        Quanto à entreajuda e ao espírito humanista, esta febre pandémica só veio diminuir as pessoas.
        Ora são crianças alvo de processos disciplinares porque partilharam o lanche com um amigo que tinha fome… os bufetes das escolas estão fechados… e aquela criança foi punida por ser humana.
        Ora são grupos de voluntários proibidos de distribuir refeições aos sem abrigo. 240 refeições para o lixo.
        Ora são queixinhas dos vizinhos porque na casa ao lado estão lá 7 pessoas a festejar um aniversário.
        Ora são protestos e violência contra a polícia, os únicos que vão onde ninguém se atreve a ir.
        Ora são presos que se vêem privados de receber visitas.
        Ora são crianças impedidas de brincar nos recreios das escolas.

        Cada vez somos menos humanos enquanto isto durar, quando deveria ser ao contrário.

  2. Talvez o Papa queira explicar porque faz menções explícitas a casos de polícia nos EUA como se encapsulassem os males do mundo — e fica em silêncio perante as decapitações em França perpetradas por “homens e mulheres” que ele acha que se deve acolher.

    Se se é parcial, não se pode ser sério. É aqui que a ética triunfa sobre a moral.

    1. Correcção ao provérbio da parte da minha mulher, homem transgénero por vezes, qual personagem saída daquele filme satírico de 2009 “Homens que Matam Cabras Só com o Olhar”:

      “Com papas e bolos se enganam os tolos”. “Enganam” e não “enchem”, como escrevi erradamente.

      Mea culpa e que se registe a correção.

  3. Do evangelho de Mateus:

    Naquele tempo,
    ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
    Rodearam-n’O os discípulos
    e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
    «Bem-aventurados os pobres em espírito,
    porque deles é o reino dos Céus.
    Bem-aventurados os humildes,
    porque possuirão a terra.
    Bem-aventurados os que choram,
    porque serão consolados.
    Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
    porque serão saciados.
    Bem-aventurados os misericordiosos,
    porque alcançarão misericórdia.
    Bem-aventurados os puros de coração,
    porque verão a Deus.
    Bem-aventurados os que promovem a paz,
    porque serão chamados filhos de Deus.
    Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
    porque deles é o reino dos Céus.
    Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
    vos insultarem, vos perseguirem
    e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
    Alegrai-vos e exultai,
    porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

  4. Reconheço muita verdade nas palavras do Papa Francisco.
    Porém, eu acredito que os portugueses, de um modo geral, ainda são uma comunidade razoavelmente solidária e generosa. Nota-se isso na resposta pronta e positiva aos apelos expontâneos ou campanhas organizadas de solicitação de ajuda da mais variada índole.
    E isso, mau grado a forma duvidosa, no mínimo, como o produto das campanhas é, muitas vezes, canalizado ou usado por algumas entidades responsáveis, de acordo com relatos vários.
    Existem, também, muitas instituições que se aguentam devido a donativos da população, quer de ordem financeira, quer doação de bens.
    E, sim, hábitos de entreajuda no seio de familia, amigos, vizinhos, até, ou sobretudo, em comunidades mais carentes.
    Estarei enganada?

    1. Não penso que esteja enganada. Queria apenas acrescentar que isso não se verifica apenas em Portugal. Pela minha experiência de 28 anos a viver no estrangeiro, não me parece que o nosso país seja mais generoso e humano do que os outros.

      1. “… não me parece que o nosso país seja mais generoso e humano do que os outros”.

        Cara Cristina, não pretendi fazer comparacões de generosidade entre países, longe de mim. Apenas pretendi apresentar a nossa realidade, como um exemplo de que, OK, a humanidade pode ser egoísta, indiferente, fanática, etc, mas em paralelo com esse lado negro, coexiste uma outra humanidade compassiva, generosa, capaz de se comover e ser solidária.
        Essa é uma constatação que preserva em mim a esperança e confiança no futuro indispensáveis à minha sanidade mental, dado que tenho filhos e netos.

        Só acrescentar que eu também vivi fora 18 anos, e tive oportunidade de conhecer experiências incríveis de solidariedade e generosidade, algumas em contextos impensáveis, que me deixavam perplexa e me ajudaram a preservar a fé na humanidade.

        Ou seja, e simplificando, no meu caminho de vida, e malgré tout, sempre penso que seja qual for o lugar, haverá sempre muita gente má mas, háverá, também, muita gente boa. E gosto de pensar assim.
        Boa semana!

  5. Sintomas de uma sociedade doente:

    2 refugiados que o “Bom Samaritano” ajudou assassinaram e degolaram várias pessoas.

    lucklucky

    1. Um dos problemas do esquerdismo é que, radicando na convicção racista não assumida da superioridade das sociedades ocidentais, acredita que os imigrantes serão aglutinados num colectivo maior nutrido pela ternura dos seus próprios gestos.

      Depois, claro, acabam por crescer — ou ficam sem cabeça. Nunca saberemos se nesse momento da degolação às mãos daqueles que eles foram, excitadíssimos, buscar ao Mediterrâneo, têm a clareza de espírito suficiente para acolher o único pensamento que deveriam ter: olha, a culpa é minha — bem me avisaram, mas eu fui estúpido e patêgo e acreditei na bondade desta gente e desprezei aqueles que realmente me estavam a defender.

      1. Pode ser que sim, mas também me parece que pode ser que os “outros” “puros” vêm limpar a sociedade capitalista do seu pecado original.

        A cultura do tempo mostra um pouco disso por exemplo nas series na TV o único criminoso irredimível é 99% das vezes sempre um branco. Têm maus da fita de várias cores, mas o que é mau sem cura é branco= branco aqui como figura que representa Ocidente,”Capitalista”. Os outros foram levados por maus caminhos, deixaram-se seduzir, fizeram más escolhas mas serão sempre curáveis.

        Mas a minha reacção mais a quente em relação a mais um texto anti civilização do papa tem que ver com discurso habitual coloca sempre o ónus nos que cumpriram o primeiro dever com os outros: cuidarem de si próprios.
        A segunda questão e aqui em relação ao que postei. a ajuda excepto nos caso excepcionais de uma criança ou deficiente implica sempre o ónus nas duas partes. Não é só em uma parte.

        lucklucky

        1. Acho que é mais antigo do que isso. Nos States, para Hollywood, já há muito tempo que o chefe da polícia, correcto e profissional é black, e os detectives são brancos wasp drogados e alcoólicos — o que por extensão significa a descontrução (= o assédio intelectual da esquerda sobre o normal) da família ocidental pai-mãe-filho — e que tem réplicas calculadas na noite de Natal, invariavelmente atravessado pela cegueira do pai que não se chega a redimir porque observa os filhos com a mãe de quem se separou do lado de fora da janela com neve.

          A Netflix (cuja assinatura cancelei com causa disto) está crivada deste entretenimento cozinhado para os filhos da escolas públicas e as pessoas já “empoderadas” pelo antifas: machismo, racismo, americanismo, capitalismo… tudo é descontruído na mesma lógica e as pessoas papam aquilo tudo feitas estúpidas.

          Um dos primeiros que inaugura esta longa série de descontruções com caracteres-tipo em que os malvados começam a ser estratificados por cores vem já dos anos 60 — To Kill a Mockingbird baseado no romance de Harper Lee. Note-se que o problema não é aquela história em si, que é plausível, mas o desenvolvimento do racialismo do qual a América não se quer livrar e que vem sendo importado cada vez de forma mais cega e analfabeta para cá.

          descontrução = define-se como o assédio intelectual das esquerdas sobre o normal

  6. Com a devida vénia a Helen Matos : este homem já veio a terreiro dizer qualquer coisa como ” a vida dos cristãos importam” , ou algo parecido ?…
    Na verdade , este tipo parece-se cada vez mais com um Director de uma qualquer ONG…

    Jsp

    1. Antes do mais, o Papa já condenou explicitamente o atentado.

      O que Helena Matos escreveu é que espera que o Papa telefone a um bispo francês que tenha ajoelhado junto dum cartaz como fez o bispo americano de El Paso a quem o Papa telefonou a louvar o gesto. Se bem interpreto Helena Matos, ela sugere o exagero do gesto do bispo de El Paso ou o confronto entre o gesto público do bispo americano e a falta dele dos bispos franceses.

      As pessoas parecem esquecer que o Papa representa todos os católicos e que os europeus são hoje uma minoria; os praticantes uma ínfima minoria. Além disso o Papa assumiu uma dimensão universal e os cristãos europeus não são uma “espécie em risco de extinção” embora os media transmitam essa ideia.

      Mas o Papa condenou o atentado de Nice, como condenou sempre todas as violências. Agora, se o Papa condenasse com imediato e enorme alarido mediático os 3 mortos de França, quando se sabe que no médio-oriente as comunidades cristãs têm sofrido muitas de dezenas de mortos pareceria uma discriminação positiva de europeus, ou mesmo de franceses. E igualmente pareceria sectarismo religioso, quando se sabe que no mesmo médio-oriente, islamitas têm sido mortos em muito maior número, especialmente as minorias, como drusos, alauitas, alevis, yazids e outros.

      É inegável que o papa Francisco tem activamente agido contra a violência global e particularmente no médio-oriente. São recentes exemplos o encontro com bispos de diferentes países mediterrânicos em Bari e o encontro ecuménico anterior no Abu Dhabi.
      Francisco combate assim as raízes do problema, problema esse de que as recentes mortes em França são apenas um sintoma e, para o Papa, que não tem nem deve ter preferências geográficas ou nacionais, um sintoma menor.

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