(créditos: Global Imagens)
O que a Rádio Renascença publicou está aqui. Aqui reproduzo o que escrevi:
Chegou na antevéspera do Ano Novo Lunar. Nessa altura ficámos a saber da sua existência. Sabíamos que surgira em Wuhan, mas pouco tempo depois entraria nas conferências de imprensa e nos compêndios como o Covid-19. Desde então tem sido a guarda avançada desta prisão sem grades numa exígua região junto ao estuário do Rio das Pérolas.
Em Fevereiro ainda consegui ir a Portugal e regressar sem fazer quarentena. Isso já faz parte da história. Embora aqui não haja casos há largos meses, o número de infectados tenha sido só de 46 e não haja mortes a registar, a Região Administrativa Especial de Macau mantém-se encerrada à entrada de estrangeiros.
Muitos dos que aqui trabalhavam foram mandados de férias e já não regressaram. Nem mesmo com quarentena puderam recuperar os seus empregos. São estrangeiros, não entram. Em contrapartida, as fronteiras com a China e a entrada de pessoas vindas do seu interior têm-se normalizado. Fazem o teste de ácido nucleico, verificam-lhes a febre e entram. Depois saem livremente. Não fazem quarentena. Os estrangeiros não, mesmo que aqui estejam há 9 meses e não haja casos. Há famílias divididas entre os dois lados da fronteira. Como se o vírus só contaminasse estrangeiros e não-residentes.
Em Hong Kong, a situação foi sempre pior. Também aí deixámos de ir. As carreiras de barcos foram suspensas. Ficámos sem ligações directas ao aeroporto. O número de voos suspensos, cancelados e adiados é enorme. Desde Abril que passo horas com as companhias aéreas a acertar datas. Era para Abril, depois para Junho, a seguir para Setembro. Mudei tudo para Fevereiro, talvez tenha sorte. Logo se verá. E depois há os que, velhotes, em Portugal, desesperam por nos ver. Um deles não mais verei. Nem ao seu funeral fui. Muito me custou. E continuará a custar por tudo quanto lhe devo.
A contenção do vírus e as medidas de saúde pública foram atempadas, organizadas e profissionais. Ninguém se poderá queixar da acção do Governo, nem dos meios, a começar pelas máscaras logo disponibilizadas à população. Inicialmente só para residentes, discriminando-se os outros, os trabalhadores não-residentes, depois também estendidas a estes.
A discriminação em relação aos trabalhadores não-residentes e aos estrangeiros está na ordem do dia. E tem vindo a agravar-se, não apenas por causa do vírus. Para alguns, dir-se-ia que todos os males são culpa dos estrangeiros e dos trabalhadores não-residentes. Estes são os que estão na base da pirâmide social, têm os piores salários, e são os menos protegidos. Uma tristeza em terra rica.
Agora ninguém percebe porque continuamos fechados. Hong Kong negoceia corredores aéreos com outras regiões. Aqui a economia, dependente em cerca de 90% da actividade dos casinos, está moribunda. O jogo está às moscas. Inúmeros estabelecimentos, incluindo restaurantes, fecham diariamente. Até o Portofino e o Morten’s encerraram. As receitas afundaram. E tal como os voos comerciais caíram mais de 90%. Uma carta em EMS leva mais de um mês a chegar de Portugal. E se não fossem as extraordinárias reservas que o Governo tem ao seu dispor, a situação seria calamitosa.
Os fundos públicos têm servido para estimular o consumo mediante a entrega de montantes pecuniários. Todos os residentes receberam cartões de consumo. Tivemos duas fases. Uma de 3.000 patacas, outra de 5.000. Essas quantias podem ser usadas no comércio em geral estando limitadas a um máximo de 300/dia. Cerca de 30 euros. Também os trabalhadores do sector privado receberam 15.000,00 embora muitos não tivessem cortes nos salários e não se perceba porque receberam. Houve uma pequena ajuda às empresas em função do número de trabalhadores. A mim permitiu-me pagar mês e meio de renda. Uma gota de água. Não despedi ninguém, não baixei salários. Aguenta-se enquanto a situação o permitir. Não sei até quando, mas também ninguém sabe como estaremos daqui a quinze dias.
O que mais me custa neste momento é não saber quando isto dará a volta. Quando retomaremos a normalidade, quando voltaremos a voar, a tirar a máscara, a sair sabendo que poderemos voltar. E que o vírus, a coberto da defesa da segurança interna e do patriotismo, não continuará a servir em cada dia que passa de pretexto para se cercearem liberdades e direitos fundamentais garantidos pela Lei Básica. Antes que seja demasiado tarde.

Em Macau não sei o que chamam às pessoas que contestam as medidas draconianas de combate ao vírus.
Em Portugal aqueles que contestam e equiparam os números da pandemia com os números da gripe de anos anteriores, são chamados negacionistas.
Em Portugal o excesso do número de mortes em relação ao ano passado é duas vezes o número de mortes covid.
Sou doente cardíaco, tinha uma consulta em Agosto, foi adiada para Dezembro, foi novamente adiada para Março e de uma coisa tenho a certeza, se eu entretanto morrer, não é do covid, mas é por causa do covid.
Se o Carlos Sousa contrair o vírus, pode depois morrer da doença do coração e será contabilizado como vítima do covid.
Como vê, nem depois de morto, e com todas as evidências, é possível provar que isto é tudo uma fantochada.
Sérgio, a PAZ esteja consigo, com sua família e a família alargada que trabalha consigo.
O Universo também tem seus planos. Mas não os executa por capricho, como nós fazemos.
Vivemos os tempos da revelação sobre nossa condição e os propósitos de nossa existência.
A LUZ predomina sobre todos estes acontecimentos e proverá aos que se deixam escolher. Não se apoquente porque está em caminho o auxílio que necessitará. Deixe-se agora ascender.
Abraço em Cristo.
Caro Sérgio de Almeida Correia, recuando “um pouco” no tempo, a algures 1976, em Luanda, numa roda de amigos, conhecidos e afins, um “pula”, daqueles que apareceram por lá depois da independência, militantes do “partido”, no meio de uma discussão saiu-se com uma lapidar afirmação que até lhe custou ser a origem da alcunha pela qual ele passou a ser mencionado pelos restantes angolanos presentes na tal roda e seus conhecidos mais próximos: “A liberdade é supérflua!”
40 e tal anos depois, com a minha família mais chegada, repartida por Macau, Pattaya e Lisboa não consigo deixar de recordar essa, em 1976, verdadeira idiotice e claro, para o que até me interessa agora mencionar, compará-la com toda a liberdade” em que vive o meu filho e a minha sobrinha no “continente”. Nem há 2 dias, por lá, registaram-se livremente mais de 4 mil novos casos de infectados… mil vezes mais casos dos registados em Macau desde sempre; quase tantos casos como os registados aqui desde sempre, fundamentalmente engrossados por emigrantes tailandeses que regressaram à sua casa.
Naturalmente, eu até sei que todos nós temos interpretações diferentes sobre tudo o que nos aflige, de acordo com as nossas mais diversas preocupações: eu não me vejo a preocupar-me com a minha mãe, irmã e sobrinho (e até com o meu melhor amigo que até fez parte da tal roda em 1976 da então ultrajante proclamação de que “A liberdade é supérflua!”) aí em Macau. Julgo-os seguros! Tal como me julgo seguro aqui, com a minha companheira, em Pattaya, a que até recentemente se nos juntou a nossa neta mais nova, que nos foi retirada, por decisão dos avós paternos quando ela completou os dois anos e meio: mas isso são contas de um outro rosário, o da tradição!, que até nada têm a ver com o que os livres europeus avós reclamam…
Sobre o resto do seu texto até tenho pavor a o abordar porque, lá está, independentemente de até ter descoberto recentemente que, algumas vez, “A liberdade é supérflua!”, não me vou, por exemplo, pôr aqui a debruçar sobre se os que «Nem mesmo com quarentena puderam recuperar os seus empregos.» se deve a que «São estrangeiros, não entram.» E sim é evidente que «A discriminação em relação aos trabalhadores não-residentes e aos estrangeiros está na ordem do dia.» mas ela até tem muito mais a ver com salários: a maioria deles, pelos exemplos que conheço pessoalmente, acabou por ser vítima de uma chantagem por parte dos seus empregadores: de 3 casos que conheço pessoalmente, os seus empregadores até são funcionários públicos que não sofreram qualquer redução salarial.
Uma amiga minha, indonésia, sofreu uma redução no seu salário de um pouco mais de 50% porque a filha do mostrengo de que ela toma conta, não ganha o que ganhava…
Claro, é evidente que compartilho consigo essa sua preocupação com o «E que o vírus, a coberto da defesa da segurança interna e do patriotismo, não continuará a servir em cada dia que passa de pretexto para se cercearem liberdades e direitos fundamentais garantidos pela Lei Básica.» mas ela, para mim, até nem nasceu em 2020: já em 2017, quando cumpri o meu obrigatório regresso anual a Macau e me descobri a ser alvo de uma câmara de vigilância quer na esquina do Banco da China, na San Malou, ou da de uma outra numa esquina do D2, isso me incomodou… mas sejamos sinceros, caro SAC, é nisso que inevitavelmente Macau vai acabar… ou não seja ela, de facto, uma parte da China.
PS. Se, neste ponto até está curioso, sobre o que o que aconteceu ao “pula” responsável pelo chavão de “A liberdade é supérflua!”, posso dizer-lhe que ele desde o 27 de Maio de 1977, até nunca mais foi visto… alguns insistem que ele regressou a Portugal, outros dizem que ele montou uma “pizzaria”… na verdade, como para nós ele era apenas o “A liberdade é supérflua!” pouco mais até poderia saber sobre ele se até estivesse preocupado em o saber