Sinais dos tempos


Pedro Correia,

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas “redes sociais” funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público. Eis mais um.

20 comentários em “Sinais dos tempos”

  1. Resta saber se esse exame será pago pela própria ou se já está pago pela publicidade feita ao grupo de Saúde que é da CUF (?), pois era isso mesmo que aparecia no lençol com algum destaque no vídeo.

    Penso que hoje todos desejarão inspeccionar as carcaças e sub-carcaças na Saúde CUF, para serem umas celebridades.

    Quanto à intimidade, não sei bem o que é isso. Creio que hoje em dia os íntimos na sua postura são vistos como uma espécie de criminosos que têm algo a esconder.

    1. Pensei eu, ao longo destes anos, que a intimidade era um valor a preservar e defender. Andava enganado, verifico agora. Tudo público, tudo escancarado, tudo “transparente” – isso é que está a dar. E o pior é que se trata de um caminho sem retorno: uma vez trilhado não há volta atrás.

  2. Não tarda que se publiquem no FB imagens de falecidos dentro das respectivas caixas, e com autorização dos próprios.

  3. “A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública; todo o desregramento excessivamente visível deu-me sempre a impressão de uma exibição de má qualidade.”, palavras tão actuais que Yourcenar, na tradução de Maria Lamas, pôs na pena de Adriano.

    Quando esta apresentadora aceita, tal a força da venalidade, arrastar-se como há dias, numa penosa “reportagem” onde o seu co-apresentador brincava com o seu maior ou menor (dela) jeito para as caralhotas – nome dado a um pão, bem sei, mas ali boçalmente repetido sem outro objectivo do que o da grosseria que gera o riso alarve -, muito fica dito sobre a populaça que alimenta as manhãs e tardes dos nossos canais ditos generalistas.

    Os canais ditos generalistas precisam da populaça, a populaça gosta da vulgaridade reles e manifestamente enfada-se com a simples ideia de pensar um pouco para lá da mera sobrevivência, da desgraça ao fundo da rua, do triunfo da mediocridade e do humor cretino, donde os canais ditos generalistas servem-lhe mais vulgaridade reles. Uma cadeia viciosa que aliás muito jeito dá ao poder, o primeiro, na televisão pública (a tal do serviço público), a manter empenhadamente a bitola neste abjecto patamar.

    Este abjecto patamar necessita como de pão para a boca de muita gente com “face” (como julgo que é chamado entre os conhecedores) e a orbitar caninamente em torno de líderes como a D. Pinheiro. Tudo bate assim certo.

    A decência é que se ressente. E isso que interessa?

    Costa

    1. Agradeço-lhe, meu caro, ter trazido aqui essa excelente citação das ‘Memórias de Adriano’ – um romance excepcional sobre o qual desejo escrever em breve aqui no DELITO.
      É isso mesmo que Marguerite Yourcenar põe na boca do imperador Adriano. Uma legenda perfeita para o despudor dominante nos nossos dias dias.

  4. lembro-me que em tempos uma grande artista acertou com um canal de televisão dar em directo o nascimento do seu filho/ filha mas o acontecimento acabou por não ser transmitido porque o tal canal acabou por perceber que o digníssimo público afinal estava interessado era na transmissão em directo do acto da criação / concepção.

  5. E o que tem piada é que este pessoal (não me refiro concretamente à hospitalizada) não raro pretende fechar as portas que escancaradamente abriu e fica todo indignado quando vêm a público assuntos que, por uma razão ou por outra, pretende manter sigilosos. É, acho eu, de uma enorme inconsciência sobre as consequências do que se pratica, mesmo que lhes possa caber o direito de fechar as portas que com entusiasmo abriram.

    1. Provavelmente o maior ‘frasista’ da história da literatura. Essa frase, concebida a mais de cem anos de distância, aplica-se a muitas situações contemporâneas. É quase um lema do nosso tempo.

  6. Acho sempre que publicar aquele tipo de fotos só revela que possivelmente os egos das pessoas estão em baixo…acho que é só para ter “gostos” e ficar ali a admirar o número a crescer e consequentemente achar-se uma pessoa importante …caso contrário n vejo nenhum motivo para alguém gostar de publicar uma foto deitado numa cama de hospital…

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