Serviço público descarrilado


Pedro Correia,

 

Gare do Oriente, meio dia menos dez. Um casal de meia idade e aspecto humilde acerca-se da bilheteira: “Podemos comprar aqui dois bilhetes para o comboio das quatro e tal para Irún?” Resposta seca e ríspida do funcionário: “Aqui, não. Só no guichê do lado, que está fechado, como podem ver. Só abre às 12 e 40.”

— E então o que podemos fazer? — insiste o homem, provavelmente emigrante em França, de chapéu na mão.

— Se querem comprar agora o bilhete terão de ir a Santa Apolónia.

Assim trata a CP os seus utentes: remetendo-os de um extremo ao outro de Lisboa. Só porque um guichê não está aberto por volta do meio-dia e o funcionário do guichê do lado pode vender bilhetes para uns destinos mas não para outros. Como se vivêssemos na era pré-digital, quando a informação não circulava em rede.

O casal lá se afastou, melancólico e cabisbaixo, procurando um lugar abrigado na inóspita gare para entreter o tempo. Faltavam 50 minutos para o guichê abrir e mais de quatro horas até o comboio passar.

Um quadro de meados do século XX em pleno século XXI. Exceptuando a noção elementar de serviço público: essa sim, perdeu-se pelo caminho. Descarrilou, para usar um termo mais apropriado à situação.

43 comentários em “Serviço público descarrilado”

  1. Não precisam do dinheiro dos clientes ou seja economia livre. Têm a economia política(publica) para pagar os seus ordenados.

  2. Cenas tristes neste paìs amado.
    Já nem se estranha a posição da CP que já no século passado abandonou/esqueceu os seus clientes, especialmente no interior.

    E assim suspensos nesta catenária sem corrente nos encontramos.

    Bom texto Perdo. Obrigado por partilhar.

      1. Sem dúvida! E sem dúvida acredite que é também partilhando estes momentos/instantes que tornamos este nosso Portugal mais atento a coisas simples, tão simples…se humano não conseguir ser.
        Fique bem.

  3. Lamentável ocorrência.Espero que alguém que nos governa leia o DO e medite nesta circunstância particular da abertura de um guichet à precisa hora do meio dia e quarenta.
    Serviço público?! Não posso dizer “já era”, porque nunca foi…

    1. “Serviço público?! Não posso dizer “já era”, porque nunca foi…”

      Concordo plenamente

    2. “Espero que alguém que nos governa…”
      Não!
      O sindicato dos “bilheteiros” que façam greve…
      Em seguida os revisores… depois os maquinistas
      Todos solidários…com o fecho da CP… para obras… até que
      renasça outra das cinzas! Com esta não há governo que lhe valha!

  4. Detesto rispidez aliada a ineficiência. Tenho da Gare do Oriente a melhor e mais dulcificada imagem, mas o espírito de serviço e a simpatia natural andam arredias de Lisboa, não é só dos guichês do “serviço público”.

    E é pena.

  5. Pedro,

    O problema não está só no serviço não prestado, mas na impunidade em que vivem as empresas do estado. Em vez de dois idosos se fosse alguém da empresa não conhecida e depois fizesse um relatório com as devidas consequências, talvez se trabalhasse mais e melhor e quiçá sem grandes saldos negativos.
    Também onde estou vejo aquela postura: deixar para amanhã o que não quero fazer hoje.
    Assim vai o nosso Portugal.

    1. E se fosse um compincha da empresa – ou um familiar de um compincha da empresa, ou um amigo de um familiar de um amigo da empresa – seria tratado de forma bem diferente.

  6. A flexibilização das leis laborais ajudará a resolver alguns desses problemas. Mas isso não basta, pois não afectará os gestores e patrões, que são em muitos casos – nomeadamente na CP – dinossauros antiquados e incompetentes.
    Curiosamente, nas queixas dos sindicatos nunca se encontra a denúncia dessa incompetência e impreparação dos gestores, mas apenas a reinvindicação de mais incompetência e impreparação da parte deles. Talvez porque os sindicatos também se carateriazam pela incompetência e impreparação – como é eloquentemente demonstrado pelos sindicatos de trabalhadores da CP, nomeadamente dos maquinistas.

  7. Segundo já constatei pessoalmente por duas vezes, e segundo me disseram, atualmente a bilheteira da estação da Pampilhosa está fechada todas as tardes.
    Pergunto, se uma pessoa quiser tomar o Sud-Express na Pampilhosa, como faz para comprar o bilhete? E se quiser tomar um dos intercidades que lá páram e não tiver multibanco, como faz?

  8. Vendo bem: o Sud-Express é atualmente um comboio marginal, com poucos viajantes. Supondo que a bilheteira fechada apenas servia para esse comboio e para nenhum outro, qual a necessidade de ter uma bilheteira aberta todo o dia só para servir esse comboio? Não é já mais que suficiente que a bilheteira abra quatro horas antes de o comboio passar?

    1. Mas qual é a necessidade de haver uma bilheteira em exclusivo para esse comboio? Por que motivo as que estão abertas não podem vender o bilhete pretendido – e qualquer outro? Qual o sentido de remeter aquelas pessoas para o outro extremo da cidade? Por que motivo à mesma hora há bilhetes disponíveis em Santa Apolónia e não há na Gare do Oriente?

      1. Porque a venda de um bilhete internacional é, provavelmente, mais complicada do que a venda de um bilhete nacional.
        Nas bilheteiras internacionais pode-se comprar bilhetes, não apenas para um comboio e trajeto único, mas também bilhetes que envolvem comboios múltiplos. Por exemplo, você pode comprar um bilhete único para uma viagem Lisboa-Génova, que envolve apanhar diversos comboios sucessivamente, pertencentes a diversas companhias. A emissão de tal bilhete, com a definição do trajeto a percorrer e o cálculo do preço, não será uma tarefa tão fácil assim.
        Por esse motivo, sempre houve nas estações bilheteiras dedicadas para o serviço internacional.

  9. Uma antiga empregada lá de casa tinha pavor aos comboios.
    Não sei o que será feito dela. Mas não me admirava que tivesse sido administradora da CP. Ou um filho dela, que tivesse herdado o pavor da mãr. Creio que detestar comboios é um condição sine quo non para estar à frente dos destinos da CP.

    1. Não é só a falta de cortesia, não é só a falta de delicadeza, não é só a falta de bom senso, não é só o deficiente “serviço público”. O que mais me chocou, Leonor, foi perceber como aquelas pessoas estavam a ser gratuitamente amesquinhadas. Por não serem de cá, por serem idosas, por não terem “conhecimentos”.

  10. Não percebo, meu caro Pedro, de que forma este exemplo pode ser generalizado para toda a CP?

    O Pedro apresenta esse exemplo e eu, que tenho devido a um problema, de ir duas vezes por semana no comboio ao Porto, arranjo-lhe dois ou três exemplos contrários.

        1. Desejaria sinceramente que não, Daniel. Infelizmente parecem-me demasiado frequentes os sinais de incumprimento da missão de serviço público por parte de funcionários da CP. E choca-me em particular que isso aconteça em relação a emigrantes que não são jovens nem muito abonados, como foi o caso. Como me chocou que os comboios parassem durante o Natal e o Ano Novo, prejudicando seriamente largos milhares de utentes e afundando ainda mais a empresa numa espiral de prejuízos de forma totalmente irresponsável.

  11. Pedro, ele há licenças poéticas, eu sei. Mas se há gare em Portugal onde não é difícil entreter o tempo é a Gare do Oriente. 😉 Além de que inóspitos, inóspitos são os cais, efectivamente, mas a gare em si não o é mais do que as outras.

    Mas vamos ao que interessa: não posso jurar porque nunca procurei “Irun” mas, pelo menos para o serviço nacional há por lá uma série de maquinetas onde se pode tirar o bilhete, pagando com multibanco.

    Longe de mim defender genericamente a CP, que tem efectivamente uma falta de noção de serviço público que até aflige. Mas sei também que uma parte razoavelmente grande da forma como os consumidores são tratados em Portugal é da responsabilidade pessoal destes tiranetes por trás de guichets, com batas brancas ou azuis, detentores das chaves, que se desforram da sorte madrasta tratando mal quem podem.

    Dir-me-á que a culpa continua a ser da CP, da enfermeira-chefe ou do director da escola, e em parte tem razão. Mas só em parte. Porque ao lado há seres encantadores que fazem tudo, mas tudo, para facilitar a vida ao próximo sem ser preciso que lhes dêem ordens para isso.

    1. Sim, Isabel. Esse é aliás o risco das generalizações. Mas bem percebemos muito recentemente a consideração que a CP tem pelos seus clientes, sobretudo aqueles que vêm de longe, pelas greves absurdas e totalmente injustificadas feitas no Natal e no Ano Novo.
      Você provavelmente não precisou de comboio nesses dias. Eu – felizmente – também não. Mas de uma empresa onde existe um “prémio de assiduidade” de seis euros diários pela simples apresentação de um funcionário no local de trabalho é de exigir um serviço de excelência. Sobretudo porque esse e outros bónus são pagos por todos nós.

    2. “Mas vamos ao que interessa: não posso jurar porque nunca procurei “Irun” mas, pelo menos para o serviço nacional há por lá uma série de maquinetas onde se pode tirar o bilhete, pagando com multibanco.”

      Pois, mas se calhar dava algum jeito que, com ou sem limitações nos balcões, o funcionário que lá estava explicasse isso aos clientes não? A CP não presta.

  12. “Pergunto, se uma pessoa quiser tomar o Sud-Express na Pampilhosa, como faz para comprar o bilhete? E se quiser tomar um dos intercidades que lá páram e não tiver multibanco, como faz?”

    Luís Lavoura na linha de Cascais a introdução das novas máquinas de comprar bilhetes agora chamados títulos de viagem a carregar no cartão foi um desastre – ainda é um atraso de vida embora agora funcionem. Ora o que muitas pessoas faziam era entrar e esperar pelo revisor…

  13. Aquela miséria de empresa merece a falência rápida e os tipos que lá trabalham deviam ir para o olho da rua, a começar pela administração. Já não precisamos da CP para nada, infelizmente.

    1. Não precisará o Luís, mas eu preciso e muito. Eu e milhares de outros. A solução não é desistir da CP e achar que todos os funcionários que lá trabalham são maus e merecem ficar sem trabalho, é pegar na CP e mudar o que está mal.

      Já muitas vezes escrevi declarações de ódio à CP, seja pelos atrasos constantes do intercidades (e tanto que tinha para contar), seja pela arrogância que por vezes demonstram enquanto empresa. E depois há exemplos como o que o Pedro aqui deixou, que são de um amadorismo (para além de desprezo) gritante. Eu em Ermesinde consigo comprar um bilhete intercidades para Lisboa, mas na grande bilheteira do Cais do Sodré é impossível fazer isso, tenho de ir a Santa Apolónia. Para que servem os computadores? Não estamos a falar de um apeadeiro, estamos a falar do Cais do Sodré, ponto multimodal importante da cidade de Lisboa. Tantos chefes tem a CP, mas tão pouca inovação e dinamismo.

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