Ser ministro para deixar de o ser


Pedro Correia,

Qual a vantagem de ser ministro das Finanças?

Em Portugal, só vejo uma: é a única forma de adquirir o estatuto de ex-ministro das Finanças, algo que parece conferir aos seus portadores uma aura exclusiva, misto de senador romano e de profeta hebreu. A toda a hora uma legião de ex-ministros perora em tudo quanto é palco mediático, com ar solene e pose grave, traçando implacáveis vaticínios. Sai um de barbas de oráculo, logo surge outro com cãs de erudito que por sua vez dá lugar a uma altiva dama com fumos de pitonisa. Todos com receitas mágicas para o futuro da nação – receitas que, por sinal, nenhum aplicou quando teve oportunidade efectiva para o efeito.

Gabo a paciência dos jornalistas que vão recolhendo as copiosas declarações desta prolixa tribo intuindo tal como eu que na maior parte dos casos a sabedoria real de tão ilustres sumidades é muito inferior ao generoso tempo de antena de que dispõem. E apenas lamento que não aproveitem ao menos uma vez para recordar aos indígenas o legado dessas sumidades – em (de)crescimento económico, despesa primária, dívida externa e défice real das contas públicas, por exemplo.

Depois era só comparar o que fizeram com o que propõem agora. Muita gente era capaz de ficar surpreendida. Ou talvez não.

20 comentários em “Ser ministro para deixar de o ser”

  1. Pessoalmente, na actualidade, gosto de ouvir Miguel Beleza, mas de facto não recordo o que fez ou deixou de fazer quando lá esteve (o que, se não estou enganado, foi por pouco tempo…)

    E gostava de ouvir um, já infelizmente desaparecido, um homem grande e com h grande, e que por sinal também nos apertou, mas que era pessoa de uma seridade e de um nível estratosférico comparado com os mais recentes…

  2. Há outras boas razões para alguém aceitar um cargo de ministro neste país, seja das finanças ou de outra pasta importante: o belo tacho que o espera depois, infalivelmente, numa qualquer empresa pública; e uma reforma dourada que o compensará de todos os incómodos e enxovalhos dos 4 anos (ou menos) de exposição pública. É esta prática recorrente que tem contribuído muito para o descrédito dos políticos, e, salvo raras excepções, esse descrédito não deixa de ser justo.

    1. uma reforma dourada

      Creio (mas posso estar enganado) que hoje essas reformas douradas já não existem, ou antes, só existem as que foram atribuídas no passado. Hoje já não são atribuídas novas.
      Aliás, creio (mas posso estar enganado) que nunca houve reformas douradas para ex-ministros, somente para ex-deputados.

    2. Gaspar não faz parte desse lote. Para quê? Basta fazer contas… Hoje em dia, só um teso, um incompetente ou um bravo patriota se chega à frente para obter benesses. Já as sombras protectoras e os biombos do poder, em que alguns sabichões que marimbam na coisa pública teimam inteligentemente em manter-se, dão lucro assegurado.

      1. Eu não falei em nomes, Laura, e é evidente que Gaspar não precisa disso, tem voos mais altos no horizonte. Mas infelizmente são muitos mais os tesos e os incompetentes que se chegam à frente. E os bravos patriotas, quando o fazem, não têm em vista as benesses.

  3. “… algo que parece conferir aos seus portadores uma aura exclusiva, misto de senador romano e de profeta hebreu….”

    Hehehe.

    “Gabo a paciência dos jornalistas”

    Ninguém os obrigou a dar-lhes tempo de antena. Aliás em muitos caos parece que bebem as palavras do ex.ministro como água benta…

  4. Pode vir qualquer ministro, queinesiano, neoclássico, monetarista, austríaco, marxista…se não se trabalhar…
    Imaginem Braga de Macedo ou Cadilhe no Uganda…

    1. E a minha maior perplexidade, Laura, é ver hoje, a toda a hora, desfilar na pantalha protagonistas do passado a propor na hora presente receitas que nunca aplicaram quando estavam em posição para o fazer. Eles são os rostos do défice astronómico e da dívida incontrolável e do desemprego estrutural. Essa distorção entre o que se diz e o que se faz é um dos motivos que ajudam a perceber porque chegámos aqui.

  5. Caro Pedro,

    não podia estar mais de acordo. Há aí algumas figuras que se tivessem caladas e olhassem para o seu próprio passado, provavelmente nem apareciam nos écrans. Então o Miguel Beleza é um dos que mais devia estar calado. Lembras-te duma tal “Drexler”? Imagina quem era governador do BdP?
    Quanto aos doutos comentadores ainda hei-de ver o Teixeira dos Santos a dar palpites sobre esta crise…

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